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Ex-jogador Richarlyson declara bissexualidade em podcast sobre homofobia no futebol

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Comentarista do Grupo Globo revelou bissexualidade em podcast sobre homofobia e machismo no futebol (Reprodução/@richarlyson/Instagram)

O ex-jogador Richarlyson, atual comentarista do Grupo Globo, declarou ser bissexual na manhã desta sexta-feira (24). A entrevista foi concedida no primeiro episódio do “Nos Armários dos Vestiários”, podcast que reflete sobre a homofobia e o machismo no futebol brasileiro.

“A vida inteira me perguntaram se sou gay. Eu já me relacionei com homem e já me relacionei com mulher também. Mas eu não quero esse estereótipo pra mim. Só que aí eu falo hoje aqui e daqui a pouco vai estar estampada a notícia: ‘Richarlyson é bissexual’. Cara, eu sou normal, eu tenho vontades e desejos”, revelou o comentarista.

“Já namorei homem, já namorei mulher, mas e aí? Vai fazer o quê? Nada. Vai pintar uma manchete que o Richarlyson falou em um podcast que é bissexual. Legal. E aí vai chover de reportagens, e o mais importante, que é pauta, não vai mudar, que é a questão da homofobia. Infelizmente, o mundo não está preparado para ter essa discussão e lidar com naturalidade com isso”.

Ao longo da conversa, Richarlyson reconheceu que assumir um posicionamento sobre o tema é relevante e, por isso, decidiu “confirmar” sua orientação sexual. “Pelo tanto de pessoas que falam que é importante meu posicionamento, hoje eu resolvi falar: sou bissexual. Se era isso que faltava, ok. Pronto. Agora eu quero ver se realmente vai melhorar, porque é esse o meu questionamento”, provocou.

Regras implícitas do futebol

Segundo Richarlyson, os campos são ambientes inóspitos para a discussão sobre sexualidade. Ninguém se atreve a questionar as preferências dos colegas, já que que existem “regras implícitas” e violências simbólicas do universo futebolístico. Ele ainda narra que nunca se preocupou com as críticas, já que considera normal que as pessoas exerçam a sexualidade como bem entenderem. Mas um episódio envolvendo um ex-dirigente do Palmeiras chegou a machucá-lo alguns anos atrás.

Em 2007, José Cyrillo Júnior foi questionado sobre a existência de jogadores homossexuais no Palmeiras. Na ocasião, o homem respondeu que “o Richarlyson quase foi do Palmeiras”. Foi então que o estigma envolvendo a sexualidade do rapaz começou a estourar entre as personalidades esportivas. Richarlyson moveu uma queixa-crime por injúria e homofobia, que chegou a ser arquivada em uma decisão homofóbica do júri.

“Eu sempre me preocupei muito, acima de tudo, com a minha família. É nítido e notório que eles sofreram muito mais que eu, se vocês acompanharam. Até uma última entrevista do meu irmão, ele fala sobre essa pauta. Ele sofria muito com essa perseguição, por causa de uma situação que eu nunca explanei de maneira nenhuma”, diz o comentarista.

‘Nunca foi natural’

Apesar disso, ele afirma que nunca se privou de ser quem é em virtude das críticas. “Eu parto do princípio que, primeiro: ser homossexual não é um demérito pra ninguém. Segundo, ser um homossexual dentro do futebol também não deveria ser um assunto tão polêmico quanto é até hoje. Terceiro: se eu fosse homossexual, eu também falaria. Porque eu acho que essas coisas têm que acontecer de maneira natural, e nunca foi”.

“Você me entende por que eu acho que é desnecessário às vezes você se rotular? Tem uma questão mais importante, tem gente morrendo, o Brasil é o país que mais mata homossexuais. E a gente está aqui falando de futebol. Ok, mas o futebol é um negocinho pequeno. Ah, mas sua fala pode ajudar. Não, não vai ajudar”, lamenta, desesperançoso.

O ex-volante ainda mencionou os estereótipos atribuídos a atletas, destacando que não podemos definir uma pessoa pelas roupas que ela veste ou qualquer outro comportamento considerado “típico”. Richarlyson é o primeiro jogador que atuou na Série A do Campeonato Brasileiro, e na Seleção, a falar sobre o tema da homofobia de maneira aberta.

Nicole Vasques

Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escreve para o BHAZ desde 2021. Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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