“A moda sustentável, de forma geral, é a moda do futuro”, afirma Mariana Lima, fundadora do brechó on-line de Belo Horizonte “Mares Garimpa”. A empreendedora, de 24 anos, viu as vendas triplicarem de 2023 para cá, e chegou a deixar a psicologia para investir no negócio. Ela é uma das cerca de 3 mil pessoas em Minas que são donas de brechó e fazem do empreendimento fonte principal ou secundária de renda, de acordo com números do Sebrae Minas. Segundo a entidade, oficialmente há mais de 500 empreendedores no segmento em BH, mas estima-se que este número seja bem maior devido à informalidade.
Nos últimos anos, donos de brechós, marcas com produção sustentável e criadores do upcycling (fazer uma peça a partir de outras) encontram solo fértil para prosperar financeiramente. Nos Estados Unidos, a expectativa é que o segmento ultrapasse o valor do mercado de fast fashion até 2030. No Brasil, segundo uma pesquisa da empresa de consultoria Boston Consulting Group (BCG), em parceria com a Enjoei, loja online de produtos usados, o mercado de moda seminova tem o potencial de movimentar R$ 24 bilhões até 2025.
Relatos de empreendedores do setor e análises feitas por especialistas apontam que Minas Gerais caminha também rumo à tendência de maior compra e venda de roupas sustentáveis. Em 10 anos, o número de brechós que abriram no estado quase dobrou, passando de 1.136 no primeiro semestre de 2014 para 1959 no mesmo período de 2024. Os dados são do Sebrae.
Mariana, do Mares Garimpa, por exemplo, conta que o brechó, fundado em 2018, é hoje sua principal fonte de renda e ‘melhorou totalmente’ a sua vida financeira. “Tanto é que eu escolhi não seguir com a psicologia para investir no brechó, é uma fonte de renda melhor do que seria na outra área”, assume a jovem.
Moradora do bairro Santa Cruz, na região Nordeste de Belo Horizonte, a jovem começou a incluir viagens a São Paulo em seu calendário para garimpar peças novas para o brechó on-line. Ao todo, o empreendimento tem mais de 11 mil seguidores no Instagram e vende, em média, 150 peças por mês. Em sua curadoria, Mariana privilegia marcas famosas, como Calvin Klein, e algumas de luxo, como Versace e Pierre Cardin. Os preços vão de R$ 49 a R$ 390.
Para Adriana Maciel, especialista em moda do Senac, a popularização dos brechós e de todo o conceito de moda circular tem relação com o fator econômico. “Depois da pandemia, nós estamos passando por uma fase em que as pessoas estão com um poder aquisitivo menor, então isso influencia. Mas também as pessoas estão mais preocupadas com todo o processo da cadeia produtiva da moda”, avalia a especialista.
Pandemia ajuda a fortalecer mercado on-line de usados
Mariana Lima, assim como muitos outros empreendedores ao redor do mundo, se viu obrigada a digitalizar seu negócio com a chegada da pandemia. O perfil na rede social, que começou apenas como uma alternativa da jovem para se desfazer de algumas roupas e virou complemento de renda diante da dificuldade para encontrar estágio na área, demandou maior profissionalização.
“Eu fiquei um pouco desesperada, porque na época eu só fazia venda por dinheiro, eu encontrava com as pessoas e elas me pagavam na hora, e aí eu pensei, ‘gente, e agora?’. Eu não sabia como ia aceitar pagamento e como iria entregar, aí eu fiquei uns dois meses parada só pensando como iria acontecer, ainda sem estágio da faculdade, mandando muito currículo e nenhum chamando”, relata.
Em conversas com outros donos de brechós, Mariana descobriu que eles continuaram a vender durante o período de restrições por meio de transferência bancária e entregas por motoboys. “[…] Na época, isso para mim era outro mundo. Eu peguei essa ideia, comecei a vender on-line mesmo, era meio que um trabalho de confiança na época, hoje em dia a gente já faz isso normalmente. Depois disso, deslanchou”, conta.
Questionada quanto o Mares Garimpa cresceu no último ano, Mariana declara que o negócio “triplicou de tamanho, tanto em venda quanto em seguidores e reconhecimento”. Em 2020, ela começou seu negócio investindo apenas R$ 60 em peças de um bazar para vender online. “Desde que eu me formei, que eu consegui dedicar 100%, aí a realidade mudou totalmente, eu tripliquei o meu alcance”, acrescenta.

Dados da Receita Federal, de julho de 2024, apontam que Belo Horizonte é a terceira cidade do país com o maior número de brechós (548), ficando atrás de São Paulo (SP), com 2.029, e do Rio de Janeiro (RJ), com 943.
“Eu posso dizer que hoje, as gerações mais novas, como elas não têm tanto interesse em ter e sim em experimentar, elas acabam consumindo mais de brechó, consumindo roupas que vão durar mais para elas terem mais acesso à experiência do que ao consumo mesmo. Pessoas mais velhas estão abrindo a cabeça para o brechó, está tendo mais acesso e mais oferta com todos os tipos de perfis e curadoria”, analisa Karina.
‘Feira Spot’ fomenta brechós de BH
O recente ‘hype’ sobre a tendência da moda de ‘segunda mão’ e preferência da juventude pelo consumo sustentável, fortaleceu iniciativas em BH como a “Feira Spot”, evento mensal que reúne cerca de 40 brechós na pista de skate Spot Culture, no bairro Lourdes, na região Centro-Sul da capital. O evento, que já está em sua 45ª edição, atrai um público de cerca de 700 pessoas.
“A feira visa criar um espaço multicultural de oportunidade para o microempreendedor expor os seus produtos, principalmente porque a maioria são empreendedores que têm seus negócios on-line, então não têm nada fixo. É uma oportunidade de eles fazerem novas conexões, de alavancar vendas”, define Andrezza Maris, de 26 anos, co–fundadora da ‘Feira Spot’, ao lado de Vitória Andrade, de 24.
O movimento abre vagas para os expositores por meio do WhatsApp e, segundo Andrezza, a participação é concorrida. “A Vitória Andrade, minha sócia, abre um grupo normalmente às 19h, aí chegam umas 60 mensagens de uma vez, então a procura é grande. Muita gente tenta muito e, às vezes, não consegue, e hoje em dia até destinamos 50% das vagas para MEIs”, explica a empreendedora.
Andrezza acredita que a feira, além de dar visibilidade para os brechós, ajuda no aumento do faturamento dos empreendedores. Segundo ela, em edições especiais, há feirantes que fazem cerca de R$ 5 mil no dia e saem com araras vazias.

‘Eu e a Vitória vivemos de brechó’
As organizadoras da Feira Spot também saem ganhando com a produção do evento. Cada expositor paga uma taxa que varia de R$ 90 (acessórios, alimentos e cosméticos) a R$ 100 (vestuário). Parte da verba arrecadada, de cerca de R$ 4 mil por edição, é empregada em melhorias na realização do evento.
Além de promover a feira, Andrezza também tem seu próprio negócio, o Kubrick Brechó, no Centro de Belo Horizonte. No Instagram, o perfil da loja acumula mais de 14 mil seguidores. “Eu e a Vitória vivemos de brechó, é nossa principal fonte de renda. A Feira Spot por agora está incrementando no nosso meio de sobrevivência… Do inicio de 2023 para cá, [a feira] foi crescendo tanto e tomando proporções, que agora sim a gente está vendo que podemos fazer dinheiro com isso também”, explica Andrezza.
Neste sábado (10), haverá a segunda edição especial da Feira Spot, no terceiro piso do Mercado Novo BH, das 10h até às 17h. Por causa da lotação do espaço, a organização distribuirá senhas a partir das 9h. Os itens estarão com o preço máximo de R$ 80. O local fica na avenida Olegário Maciel, número 742, no Centro.
Karina Hanun, analista técnica do Sebrae Minas, acredita que existem diversos fatores que justificam o aumento da procura por brechós. Um deles é a maior oferta de curadorias, como a de Andrezza e Vitória, que acaba atendendo a uma multiplicidade de perfis de consumidores. “Primeiramente, vem o lado econômico, mas depois, as pessoas veem que, além do lado econômico, elas podem contribuir com o meio ambiente, com uma cadeia [de moda] mais justa, mais ética e mais limpa”, observa.
Sustentabilidade é resposta para problemas gerados pela indústria
A tendência de consumo sustentável representa, hoje, uma necessidade da indústria da moda. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o setor é responsável por emitir entre 2% e 8% de gases de efeito estufa, além de gerar grandes níveis de poluição, extração de água e impactar a biodiversidade do planeta.
“A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo, porque gasta-se muita água com os processos de tingimento, de lavagem. Hoje tem as fast fashions, que são essas grandes cadeias que produzem coleções. Praticamente, semanalmente, tem peças novas nas lojas, então hoje se tem uma preocupação em relação a todo esse processo, a toda essa cadeia produtiva”, declara a especialista em moda Adriana Maciel.
A urgência da questão ambiental também criou uma oportunidade de negócio no segmento. “O slow fashion, a moda sustentável, de uma forma geral, é a moda do futuro. E ela é mais do que necessária, principalmente hoje em dia, porque acho que não tem mais condições da gente continuar produzindo roupas”, opina Mariana, do Mares Garimpa.
“Acho que é um ramo que tem crescido e precisamos falar dele cada vez mais, tanto pelo planeta quanto em relação ao consumo mesmo, porque o consumismo está desenfreado, principalmente no ramo da moda”, acrescenta a jovem.
Segundo a analista Karina Hanun, até fast fashions, como a C&A e a Renner, especialmente, passaram a investir em materiais mais sustentáveis. “Hoje você vai nas araras das lojas e têm tecidos com linho que você não via antes, algodão com certificado de algodão orgânico. […] A Renner já tem um tempo que comprou aquela iniciativa Repassa e faz as vias de um brechó”, explica. Para a analista, as marcas estão fazendo pequenas mudanças, mas significativas.
Fios recicláveis tecem negócio lucrativo
Érik Belício, diretor criativo da marca de roupas de alfaiataria “Belicio”, é um dos empreendedores que está investindo na produção sustentável, com peças feitas a partir de fios recicláveis. O jovem de 27 anos, natural de Itanhomi, região do Vale do Rio Doce, investe em um material oferecido pela EcoMaterioteca, biblioteca de tecidos sustentáveis localizada em BH. Os itens são comercializados na loja Baeuai, no Mercado Novo, em BH, e na cidade natal de Érik.
Hoje, toda a produção das peças da marca é realizada por Érik e duas costureiras, que trabalham em Itanhomi e enviam algumas peças para BH. “Eu mantenho também outra maneira de sustentabilidade, que é essa produção local no interior de Minas”, declara o diretor criativo. A produção das roupas sai mais cara em relação ao que é produzido no fast fashion, porém, o jovem se orgulha por não seguir um modelo de negócio exploratório.
“É essencial valorizar o trabalho de todas as pessoas envolvidas na produção, especialmente quando nos posicionamos como uma marca sustentável. A sustentabilidade deve estar presente em todos os processos da marca, não apenas na escolha da matéria-prima”, afirma.

O investimento em uma cadeia sustentável, desde o material até à confecção, impacta no valor final das peças, cujo ticket, Érik define como “médio razoável”. No site da marca há desde regatas de R$ 197 a chemises de R$ 498. O que para algumas pessoas pode não ser uma realidade de compra, para outras, mostra-se como um investimento em uma peça que oferecerá maior durabilidade, contribuindo para uma cadeia de consumo sustentável.
“Geralmente, a gente acha que vai consumir menos e vai girar menos na economia, mas na verdade não. Tendo uma roupa que dura mais, você pode, inclusive, reintegrá-la passando para o brechó, uma empresa pode fazer uma reforma e cobrar pelo serviço…”, explica a analista do Sebrae Karina Hanun.
De um lado, os clientes investem em uma peça sustentável e, do outro, os empreendedores veem seus lucros crescerem. Para a especialista, a escolha cuidadosa dos materiais e o processo de produção criterioso são características lucrativas para uma marca. “A peça que é mais bem feita e tem um material mais nobre vai gerar um valor diferente, porque a pessoa vai usar mais. E não vai precisar ter um preço competitivo, justamente porque a peça vai durar mais. E é uma tendência sim e ela pode ser lucrativa”, diz Karina.
Érik declara que “a margem [de lucro] em cima do produto sem dúvida é diferente”. “Gosto de cobrar um valor justo, onde cada pessoa envolvida possa receber bem pelo seu trabalho, que também é feito com muito amor. As pessoas acreditam e valorizam a sustentabilidade que a Belicio pratica, e por isso escolhem a marca”, acrescenta.
Fundada em 2021, a marca teve um aumento de faturamento do ano passado para cá, e o diretor criativo demonstra-se orgulhoso. “A Belicio vem crescendo muito em todos os sentidos, desde o valor percebido quanto às vendas, afinal um bom trabalho resulta em um retorno positivo”.

Upcycling: Remexe Favelinha
Um outro meio de produção sustentável de roupas é o upcycling, que utiliza peças já existentes para construir novas, unindo curadoria à criatividade. No ateliê de upycicling Remexe Favelinha, sub-projeto do Lá da Favelinha, localizado no Aglomerado da Serra, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, a sustentabilidade é aplicada para além do reuso das roupas. A própria comunidade fornece material para a confecção das novas peças, que são adquiridas, posteriormente, também pelos moradores. O dinheiro acaba circulando dentro do aglomerado.
“São duas costureiras, a Carla Santos e a Haninne, e uma assistente de costura, a Camille Reis. A gente trabalha com materiais que vêm de doação e também com garimpo de dentro da comunidade. No último mês, fizemos o Arraiá da Favelinha, e foram cerca de vinte figurinos para o pessoal dançar. Agora, estamos no processo de produzir uma nova coleção para o Favelinha Fashion Week, que vai vir no próximo mês”, conta a produtora do ateliê, Ester Teixeira.
O projeto nasceu em 2017, através de uma oficina de upcycling no Aglomerado da Serra, em que estilistas ensinaram a fazer peças a partir de roupas. “Nesse mesmo curso o nome do projeto já surgiu e as coisas foram crescendo. Logo quando o acabou, a Carlinha e o Kdu dos Anjos trocaram várias ideias e decidiram comprar uma máquina para começar o Remexe de fato”. Antes de integrar o Remexe Favelinha, Carla trabalhava como doméstica, e Hannine, como enfermeira.


O grupo trabalha por demanda de eventos e artistas e produzem peças sem compromisso, que são comercializadas na sede do Lá da Favelinha. “A gente consegue se proporcionar um salário fixo, que é possibilitado por projetos de lei de incentivo, e além disso, o lucro das roupas que são vendidas é dividido proporcionalmente entre as pessoas que trabalham no projeto e que fazem essas peças”, conta Ester Teixeira.
“É bem rotativo, e essa circulação de renda tem acontecido tanto com a venda dos produtos exclusivos do Remexe, quanto com participação em projetos específicos”, relata a produtora. Segundo Ester, que é trabalhadora autônoma, o ateliê tem proporcionado uma renda maior do que um salário mínimo, atualmente em R$ 1.412, para as integrantes.
“Eu acho que é um ateliê que já é sólido dentro da cidade, principalmente daqui da comunidade e que tem se conectado também com outros produtores locais, e tem nos últimos tempos se engajado politicamente também nessa cena da moda. A gente tem parceiros participando de reuniões e conferências, e trocando ideia com pessoas que produzem moda em BH”, completa a produtora.
Vale lembrar que a próxima edição do Favelinha Fashion Week está marcada para os dias 28, 29 e 30 de agosto, no Museu da Moda, em Belo Horizonte. O Remexe produzirá uma exposição inspirada na artista Clara Nunes, cujas roupas originais estão expostas no local. Haverá música, dança, oficinas e, claro, muita moda. O evento terá entrada gratuita (acompanhe atualizações no Instagram do Lá da Favelinha).
Do presente para o futuro
O ciclo da moda sustentável não é finito. A tendência de toda tendência é crescer e se modificar. Onde há empreendedorismo, há criatividade, e onde há criatividade, há abertura para novos meios de consumo. Para além da importância da ascensão financeira, a produção e a compra consciente de roupas é um investimento no meio ambiente, bem maior e comum.
“Eu acho que temos muito investimento em cultura e informação, as novas gerações estão vindo mais preocupadas, assim como as antigas gerações estão cada vez se conscientizando mais sobre a importância de produzir sustentavelmente. E também, junto a isso, a gente vê as gerações em geral se importando com a saúde, com o bem–estar, e isso acaba fazendo com que a gente cultive o nosso planeta de alguma forma”, opina Érik, da Belicio.
Os brechós, o upcycling e a escolha de tecidos sustentáveis são apenas uma parcela de um mercado que tende a se expandir. “Eu acho que existem dois movimentos aí acontecendo: um econômico e o outro que é uma conscientização mesmo, e todo mundo repensando sobre esse processo da moda. E isso acaba impactando nos números”, avalia Adriana Maciel.








