Morte de segurança agredido em Minas ainda não pode ser chamada de homicídio, aponta Polícia Civil

Polícia Civil
Por enquanto, o crime está enquadrado como lesão corporal seguida de morte (Polícia Civil/Divulgação)

A morte de Edson Carlos Ribeiro, segurança que foi agredido por um convidado de uma festa em Divinópolis, região Centro-Oeste de Minas, ainda não pode ser tipificada como homicídio por falta de elementos. Por enquanto, o crime está enquadrado como lesão corporal seguida de morte. As informações foram repassadas pela Polícia Civil nesta segunda-feira (27).

A tipificação do crime como homicídio simples, cuja pena é de 6 a 20 anos de prisão, se dá quando há evidências de que a intenção inicial do agente é matar a vítima. Já a lesão corporal seguida de morte se caracteriza quando o agente incialmente quer agredir, mas por um resultado inesperado há a evolução para a morte da vítima. O agressor pode ficar preso de 4 a 12 anos.

Tipificação pode mudar

No caso da morte de Edson Carlos Ribeiro, a tipificação do crime ainda pode mudar durante os trabalhos policiais. “Não temos elementos sobre o objeto que foi utilizado [supostamente um soco-inglês], que ele foi agredido reiteradas vezes, que foi espancado, não temos evidência para falar que foi homicídio”, aponta o delegado responsável pela prisão em flagrante do investigado, Renato Alves da Fonseca.

“O auto de prisão em flagrante inicia a investigação. No momento do flagrante, em que as provas são apenas iniciais, foi tipificado como lesão seguida de morte. Não tinha como avançar e dizer que foi uma conduta de homicídio, mas isso pode mudar”, explica o chefe do 7º Departamento de Polícia Civil, Flávio Tadeu Destro.

“Temos mais 10 dias pra concluir a investigação, vamos ouvir testemunhas, saber qual foi a primeira versão dada pelo investigado, ouvir o médico legista, etc. Isso pode confirmar a versão inicial ou mudar a figura do delito. Precisamos saber se houve atrito antes, se houve ameaça…”, completa o delegado Renato Alves da Fonseca.

Versões contraditórias

A Polícia Civil já ouviu três testemunhas do crime, além dos dois policiais militares que registraram o boletim de ocorrência. De acordo com o delegado, outros envolvidos ainda serão ouvidos durante a investigação e algumas versões contraditórias foram relatadas à corporação.

“Tem testemunha que fala que a vítima, ao receber o golpe, caiu de imediato. Outra disse que houve separação [da briga] e deslocamento do investigado para o interior do camarote, e depois a vítima se deslocou e veio a cair”, detalha.

“Duas tstemunhas alegam que a agressão teria sido com soco-inglês, outra diz que não viu o uso de soco-inglês. Os seguranças que detiveram o sujeito não localizaram ou indicaram uma possível pessoa que pudesse ter ajudado a esconder [o soco-inglês]”, completa o delegado.

Investigado nega

Já o investigado, Pedro Lacerda, de 32 anos, foi ouvido pela Polícia Civil amparado pelo advogado e negou qualquer envolvimento no crime. Segundo Renato Alves da Fonseca, ele confirmou que estava no evento, mas nega que tenha tido atrito com Edson Carlos Ribeiro.

Já ao organizador do evento, Pedro Lacerda teria dito que “fez porque quis”. A informação consta no boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar. Já segundo a Polícia Civil, nenhuma testemunha apontou nenhum elemento que remetesse a um crime motivado por racismo.

O delegado ainda pontua que o homem segue preso e o Judiciário decretou a manutenção da sua prisão em flagrante. “Não cabe fiança na delegacia e a prisão pode perdurar enquanto houver necessidade pra investigação. Concluindo, o resultado será encaminhado à Justiça e vão avaliar”, finaliza.

O crime

Edson Carlos Ribeiro, de 42 anos, foi morto enquanto fazia a segurança de uma festa, em Divinópolis, nesse sábado (25). A polícia prendeu o agressor em flagrante. De acordo com o boletim de ocorrência, Pedro Lacerda disse para o organizador do evento que agrediu a vítima “porque quis”.

De acordo com a PM, frequentadores da festa tentavam reanimar o segurança quando viaturas chegaram ao Parque de Exposições. Pedro foi contido por outras pessoas que trabalhavam no evento.

Uma das testemunhas contou que descia do camarote quando viu Edson sendo atingido com um soco. A vítima caiu já inconsciente e o suspeito tentou fugir. Um outro homem também afirmou ter visto a agressão praticada contra o segurança do evento.

O agressor teria tentado entrar em um camarote, mas foi impedido, já que o ambiente era controlado por pulseira de acesso. Antes de ser agredido e morto, Edson Carlos Ribeiro chegou a advertir o suspeito por urinar em local inapropriado.

O crime gerou revolta na cidade. Uma manifestação foi realizada na tarde de ontem (26), em Divinópolis, denunciando o racismo sofrido pelo segurança. “A guerra está declarada. Não vamos ficar pra sempre pacíficos. Fogo nos racistas. Esta luta não vai parar aqui”, disseram os populares que participaram.

A Prefeitura de Divinópolis também emitiu uma nota de pesar, lamentando a morte de Edson Carlos Ribeiro. ”Todo tipo de violência deve ser efetivamente combatido e repudiado de todas as formas. Que possamos aprender a conviver e respeitar as diferenças. Que todo trabalhador seja tratado com respeito”, disse o prefeito Gleidson Azevedo (PSC).

Edição: Vitor Fernandes
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduanda em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.

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