Especialistas defendem que as nuvens de poeira provocadas pela mineração, como a que cobriu a cidade de Congonhas, na região Central do estado, nesta semana, podem esconder situações ainda mais complexas e são uma ameaça à saúde da população. O problema, também registrado próximo ao condomínio de luxo Alphaville, em Nova Lima, na Grande BH, não estaria relacionado apenas ao tempo seco, mas também à proximidade entre as minas e os centros urbanos.
De acordo com a Prefeitura de Congonhas, a nuvem de poeira foi vista descendo do Morro do Engenho, no domingo (12), para a área urbana, o que levou o município a determinar a paralisação das atividades ao ar livre das mineradoras. A recomendação era de que as empresas adotassem medidas como o uso de canhões d’água e também umidificação das vias de acesso aos complexos minerários.
Veja também
Congonhas é rodeada por mineradoras. Segundo o município, apenas quatro empresas são responsáveis por mais de 96% das emissões de material particulado registradas na cidade. O mesmo problema vem sendo registrado nos últimos dias no condomínio de luxo Alphaville, localizado em Nova Lima, ao redor da Lagoa dos Ingleses. Moradores vem registrando a formação de nuvens de poeira que encobrem parte do residencial. O BHAZ tenta contato com a assessoria do local.
Para a superintendente da Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente (AMDA), Maria Dalce, a formação de poeira é um impacto inerente à atividade minerária, mas a proximidade destas áreas e os centros urbanos deve ser questionada. “Na época de seca, pode-se dizer que a mineração fica bem incompatível com áreas urbanas e mesmo áreas naturais, pois suas partículas finas, além de comprometerem a qualidade do ar, ameaçam a biodiversidade e a saúde pública”, diz.
A especialista acrescenta que o avanço das cidades em direção às áreas de mineração contribui para agravar o cenário. “As cidades avançam, as prefeituras e as empresas não se importam e, depois de criado o problema, todo mundo fica prejudicado”, pondera.
Medidas ainda são insuficientes para diminuir o problema da poeira dispersa no ar
A professora do Departamento de Geografia da UFMG e coordenadora do grupo EduMiTe, Lussandra Gianasi, afirma que episódios como o registrado em Congonhas não podem ser atribuídos apenas às condições climáticas. Segundo ela, o tempo seco e os ventos apenas agravam um problema estrutural provocado pela exploração mineral próxima às áreas urbanas. “As mineradoras deveriam ter parado as operações, não o fizeram”, critica.
Gianasi explica que a exposição do solo, a abertura de cavas e a retirada da vegetação favorecem a dispersão de partículas, com impactos diretos na saúde da população. A professora acredita que as medidas adotadas atualmente são insuficientes para evitar os danos causados pela poeira da mineração e defende que as empresas precisam ir além do cumprimento da legislação ambiental. “A empresa de mineração deve, além de realizar o que pede a legislação, ir além. Ouvir a comunidade e tomar atitudes proativas não é o modus operandi de muitas delas”, afirma.
Maria Dalce avalia que as tecnologias capazes de reduzir a emissão de poeira, como a aspersão de água e o uso de polímeros para estabilizar o solo só funcionam com uma atuação constante das empresas e da fiscalização do poder público. Para ela, o planejamento urbano e o licenciamento ambiental também precisam ser aperfeiçoados. “As empresas são as primeiras responsáveis pela prevenção. Não podem esperar que a poeira chegue aos níveis apontados pelo município de Congonhas”, destaca.
As especialistas ressaltam que o problema se arrasta há anos em Congonhas e tende a se intensificar com as mudanças climáticas. “Não é por falta de saber o que acontece, é mesmo falta de atuação diferenciada frente a estes problemas, que são urgentes para a população, mas não o são para a empresa”, conclui Lussandra Gianasi.
O Secretário Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Congonhas, João Luís Lobo de Castro, concorda que o problema não é uma novidade, mas afirma que a competência do município é bastante limitada nesses cenários.
“Nós temos legislações que são, principalmente, federais e estaduais, e, muitas vezes, a legislação federal é ainda pouco sensível para a realidade dos municípios como Congonhas. Para os municípios que têm mineração, onde nós vivemos um pico de poeira de repente, na verdade, por várias condições, e essa poeira vai se diluindo ao longo do dia, a legislação é mais protetiva em relação a situações em que a poeira dura por longos períodos e não é o caso de Congonhas”, explicou João Luís.
Poeira dispersa no ar por mineradoras é prejudicial à saúde
O tempo seco tem, por característica, a maior dispersão de partículas de poeira pelo ar, o que pode ser prejudicial à saúde, segundo especialistas. E em situações como as registradas próximo às áreas de mineração, o problema pode ser potencializado.
A intensa concentração de poeira, como a registrada em Congonhas, em função da mineração na região nos últimos dias, pode causar problemas de saúde, como a irritação nas vias respiratórias, até mesmo em pessoas sem doenças pré-existentes. Segundo a médica pneumologista Sarah Veiga Medrado, a poeira é um agente alérgico e, quando inalada em grande quantidade e de forma contínua, provoca inflamação nas vias aéreas e aumenta o risco de infecções. “Para quem já tem uma doença respiratória, como asma ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), essa irritabilidade é maior”, destaca.
Além da poeira, o tempo seco agrava ainda mais os impactos no organismo. De acordo com a especialista, a baixa umidade resseca as vias aéreas, tornando-as mais sensíveis e facilitando a entrada de vírus e bactérias, o que favorece o surgimento de gripes, resfriados, sinusites e até pneumonias. O ressecamento também pode desencadear crises em pessoas com doenças respiratórias já existentes, como a asma.
Para reduzir os riscos, Sarah recomenda evitar a exposição à poeira sempre que possível e adotar medidas de proteção, principalmente em situações como a vivida em Congonhas. “Usar máscara ao sair de casa e manter o ambiente mais fechado, nesses casos específicos, ajuda a evitar que essa poeira entre na residência”, orienta. A médica também reforça a importância de manter boa hidratação, utilizar soro fisiológico para hidratar as vias nasais quando necessário.
“Quem tem essas doenças de via aérea, já sempre manter a medicação de uso habitual, e não deixar de usar as bombinhas, fazer esse tratamento que já é o controle”, finalizou a médica.









