O prefeito Valdeci Dornelas e o vice-prefeito Renaldo Inácio, de Nova Belém, no Vale do Rio Doce, tornaram-se réus após a Justiça Federal aceitar denúncia do Ministério Público Federal que os acusa de participação em um esquema de envio ilegal de brasileiros aos Estados Unidos, via México. Segundo a decisão, há indícios de que o grupo recebeu milhões de reais ao organizar a saída irregular de 349 pessoas para o exterior.
Ramon Roseno, filho de Renaldo, e Wanda Almeida, responsável pela empresa Wandatour Viagens e Turismo, também são acusados de integrar o esquema, que, conforme o MP, existe desde 2018.
Tanto Valdeci quanto Renaldo foram presos preventivamente, mas entraram com habeas corpus e conseguiram a liberdade provisória com medidas cautelares. A chapa dos dois foi eleita em 2020, para administrar Nova Belém, e reeleita em 2024. Eles continuam nos cargos enquanto o processo corre na Justiça.
Como a organização funcionava?
De acordo com a denúncia do Ministério Público, o prefeito de Nova Belém foi apontado como o líder operacional do esquema, responsável direto pelas viagens, pela coordenação com os demais membros da associação criminosa e pelo recebimento da maior parte das vantagens econômicas. Os relatórios da Polícia Federal apontam que Valdeci movimentou mais de R$ 46 milhões entre 2020 e 2024.
Conforme a promotoria, Renaldo também atuava de forma direta no agenciamento das viagens. Ele seria o co-organizador do esquema com Valdeci. Ainda, segundo as investigações, o vice-prefeito mantinha vínculo cotidiano com os migrantes enviados, recebendo pagamentos, emitindo recibos e administrando garantias como veículos e procurações. Ele teria movimentado R$ 7 milhões entre 2020 e 2024.
Já Ramon, filho de Renaldo, desempenhava o papel de operador financeiro e logístico do grupo. A investigação aponta que ele recebia, movimentava e repassava valores provenientes do esquema. Além disso, ele teria realizado “agenciamentos próprios”, promovendo diretamente a migração irregular de 10 emigrantes. Ele é acusado de movimentar cerca de R$ 9 milhões entre 2020 e 2024.
E Wanda, dona da empresa Wandatour Viagens e Turismo, seria a responsável por fornecer suporte essencial à emissão de passagens e à organização das viagens. Segundo o texto, a acusada colaborou no envio direto de 4 emigrantes, inclusive emitindo bilhetes de ida e volta para o mesmo dia com a finalidade de simular viagem turística e evitar suspeitas de autoridades migratórias.
Os investigados teriam promovido a emigração ilegal de 349 brasileiros, cobrando “dezenas de milhares de dólares por pessoa”, o que gerou lucros milionários para a organização. Conforme a investigação, também há indícios de que os integrantes do grupo faziam ameaças a familiares de migrantes em casos de inadimplência ou problemas no pagamento pelo serviço ilegal.
Investigação
Durante as buscas, a Polícia Federal apreendeu uma série de documentos e materiais que, segundo a investigação, reforçam a atuação do grupo no esquema. Na casa do prefeito Valdeci Dornelas, foram encontrados itens como notas promissórias, comprovantes de transações, bilhetes eletrônicos de voo e cópias de documentos de migrantes.
Já na residência do vice-prefeito Renaldo Inácio, agentes localizaram centenas de notas promissórias, procurações, cheques, anotações manuscritas, contratos diversos, documentos de transferência de veículos e comprovantes bancários, além de um celular com conversas sobre o planejamento das viagens.
Também foram recolhidos cadernos, escrituras, registros financeiros e aparelhos com dados de passaportes, pagamentos e viagens internacionais.
O que dizem os acusados?
Em nota, a defesa de Wanda Almeida Affonso afirmou que o recebimento da denúncia não implica reconhecimento de culpa ou qualquer forma de condenação. O advogado Tiago Maurício Mota destacou a necessidade de cautela na formulação de juízos antecipados e disse que, no decorrer do processo, será demonstrada a inocência da cliente.
A reportagem procurou Valdeci Dornelas, Renaldo Inácio e o filho dele, Ramon Roseno e aguarda retorno caso queiram se manifestar sobre o caso.










