Reeleita deputada estadual no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, a mineira Rita Mendes integra o grupo dos sete brasileiros que conquistaram mandatos no cenário político do país. Nascida em Conselheiro Pena, no Vale do Rio Doce, a parlamentar vive na “Terra do Tio Sam” há 30 anos e defende a necessidade de reconstrução do sistema imigratório. Para Rita, a retomada eleitoral do Partido Democrata nas urnas, a chamada “onda azul”, é o resultado da insatisfação popular com a política de deportações promovida por Donald Trump.
A eleição de Trump sobre Kamala Harris em 2024 marcou a volta da plataforma “Make America Great Again” (MAGA) à Casa Branca, focada no controle de fronteiras e na expansão das deportações. Para acelerar as remoções de estrangeiros sem as etapas do devido processo legal nos tribunais de imigração, a administração trumpista recorreu à aplicação do Alien Enemies Act (Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798), defendendo a deportação de pessoas com histórico criminal. No entanto, segundo a parlamentar, a atuação da polícia de imigração (ICE) acabou atingindo trabalhadores com décadas de residência, impostos em dia, famílias constituídas e nenhum registro na justiça.
“O presidente Trump sempre falava que o foco era deportar bandidos e criminosos, mas quando assumiu o governo fez o oposto. Começou a deportar pessoas que vivem aqui há 10, 20 ou 30 anos, pessoas que pagam impostos, têm famílias, trabalham diariamente e não possuem nenhum registro criminal. Quando a população viu a polícia de imigração tirar de casa quem estava estabelecido no país há décadas, ficou evidente que a promessa de campanha não correspondia à realidade. Trump não deportou criminosos, deportou nossos vizinhos e amigos”, contou.
Ela ainda explica que essa insatisfação ultrapassou as barreiras partidárias e se refletiu diretamente no comparecimento às urnas, resultando em vitórias democratas históricas até mesmo em redutos conservadores como o Texas, onde a oposição conquistou posições de destaque no governo e no Senado.
Rita deixou o Brasil aos 12 anos para reencontrar a mãe que não via desde os quatro anos. Para ela, o “sonho americano” parecia cada vez mais distante. “Eu não falava inglês, era a única na escola que não conseguia me comunicar. Minha mãe trabalhava o dia inteiro, eu e meus irmãos precisamos nos cuidar por conta própria, eu sempre me virei sozinha”, contou Mendes.
“Eu vi gerações de mulheres da minha família trabalharem com limpeza, faxina, fazendo bicos em restaurantes. Eu vi o cansaço da minha mãe e prometi que faria diferente. O sistema de ensino aqui é caríssimo ,então, como todo estudante de baixa renda, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite, consegui bolsas de estudo. A dívida estudantil você precisa pagar por anos depois de formar”, relatou a parlamentar, que se formou em direito e hoje também atua como advogada de imigração.
No exercício do mandato em Massachusetts, Rita Mendes busca transformar essa experiência em políticas públicas concretas. Um dos principais marcos de sua atuação foi a aprovação do Protect Act (Ato de Proteção), uma lei estadual que garante a imigrantes em situação irregular o direito de frequentar escolas, igrejas e consultas médicas sem o medo constante de abordagens ou prisão pela polícia de imigração nesses locais. Embora a legislação migratória principal seja de competência federal, a deputada destaca que o governo estadual tem o dever de agir onde for possível para assegurar a dignidade humana.
Ao olhar para o futuro, a parlamentar ressalta que o avanço da representatividade brasileira nos EUA, demonstrado pelo grupo de sete deputados eleitos em diferentes estados, depende diretamente do engajamento civil da comunidade. Como o voto nos Estados Unidos é opcional, conscientizar a população sobre a importância de ir às urnas é o caminho fundamental para garantir representantes que conheçam a fundo a realidade, a cultura e a língua dos imigrantes mineiros e latino-americanos.







