Um vídeo gravado pelo celular de um dos tripulantes registrou os últimos 56 segundos de voo do helicóptero do Corpo de Bombeiros que caiu na região de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, em outubro de 2024. As imagens, analisadas durante a investigação do acidente feita pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), mostram a perda de contato visual com o solo e o surgimento repentino de uma superfície rochosa instantes antes da colisão.
O acidente matou seis pessoas: quatro militares do Corpo de Bombeiros e dois profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A aeronave, modelo BK117 C-2, retornava de uma missão de busca por outro avião desaparecido na região quando atingiu uma serra.
O relatório do Cenipa aponta que a baixa visibilidade, as condições meteorológicas adversas e a sobrecarga de trabalho dos pilotos contribuíram para a ocorrência.
Imagens mostram perda de contato visual e impacto
De acordo com o documento, a gravação feita por um tripulante operacional permitiu acompanhar os momentos finais do voo. Por volta dos 30 segundos após a decolagem, a tripulação perdeu o contato visual com o solo.
Aos 55 segundos, a superfície rochosa surgiu abruptamente nas imagens. Cerca de um segundo depois, aos 56 segundos de voo, ocorreu o impacto contra a serra.

A investigação estimou que a visibilidade horizontal no momento da decolagem era de aproximadamente 180 metros, abaixo do mínimo exigido para a operação sob regras de voo visual (VFR).
O relatório aponta que as condições meteorológicas, associadas às características do relevo, podem ter provocado uma ilusão visual. Uma reentrância na superfície da serra, em meio à formação de nuvens densas, poderia ter sido interpretada como uma abertura livre de obstáculos, dificultando a percepção da montanha à frente.
Sobrecarga de piloto e condições climáticas contribuíram para acidente
O Cenipa identificou que o piloto em comando acumulava as escalas regulares de voo com a chefia da área de manutenção da Unidade Aérea Pública (UAP) e a organização de um grande evento institucional. Relatos colhidos durante a investigação apontaram sinais de desgaste físico e mental, incluindo queixas de dor de cabeça, lapsos de memória e cansaço.
O copiloto também apresentava indícios de fadiga. Segundo o relatório, o excesso de atribuições pode prejudicar a atenção, o julgamento e a capacidade de tomar decisões, aumentando os riscos durante a operação.
Antes do acidente, a tripulação havia participado de uma missão de busca na Serra do Amolar. Como não era possível pousar o helicóptero no local onde a aeronave desaparecida foi encontrada, a equipe aterrissou em um trevo rodoviário próximo. Os profissionais de saúde seguiram por terra e constataram a morte do piloto procurado.
Na volta, as condições meteorológicas haviam piorado, e a tripulação chegou a aguardar em solo uma possível melhora do tempo. O documento aponta que o desconforto do piloto em comando com a possibilidade de deixar parte da equipe junto à aeronave pode ter influenciado a decisão de decolar.
Após cerca de 12 horas de buscas, o helicóptero foi localizado em uma serra íngreme. Morreram os militares capitão Wilker Tadeu Alves, tenente Victor Sterling, sargento Wellerson e sargento Gabriel, além do médico Rodrigo Trindade e do enfermeiro do Samu Bruno Sudário.
Além das condições meteorológicas e da fadiga, o relatório identificou falhas na coordenação da cabine e nos treinamentos periódicos da equipe. Após a tragédia, o Corpo de Bombeiros reestruturou as escalas de trabalho, adotou medidas para reduzir a sobrecarga de funções e promoveu mudanças nos procedimentos e na capacitação dos tripulantes para reforçar a segurança das operações.








