Parece simples: abrir a torneira, passar o sabonete e enxaguar. Mas lavar o rosto do jeito errado pode causar danos sérios à pele — e a maioria das pessoas comete o mesmo deslize logo pela manhã sem nem perceber. O médico dermatologista Ricardo Fontes, coordenador do curso de medicina da Faminas, explica o que está por trás desse hábito cotidiano e o que ele pode custar à saúde da pele no longo prazo, e dá dicas para lavar o rosto da forma correta.
O maior erro da rotina matinal
Antes de qualquer coisa, é preciso entender o que está em jogo. Lavar o rosto remove sujeira, oleosidade excessiva, suor, poluição e maquiagem acumulada. Também ajuda a desobstruir poros, controlar a acne e uniformizar o tom da pele pela remoção de células mortas. Quem mantém o hábito diário ganha, com o tempo, uma pele mais bonita, viçosa e de tonalidade mais equilibrada.
O problema está em como se lava — não em se se lava.
“O principal erro que a maioria das pessoas comete ao lavar o rosto de manhã é usar a água quente demais, o que acaba gerando um ressecamento da pele e uma redução excessiva da oleosidade própria da pele”, afirma Ricardo Fontes.
O que a água quente faz com a sua pele
O estrago causado pela temperatura elevada vai além do ressecamento superficial. “Quando a gente usa uma água que é muito quente, a gente acaba retirando excessivamente a oleosidade da pele e mudando até a flora bacteriana local daquelas bactérias que são benéficas para nossa pele”, explica o dermatologista. E diz mais: “O que pode é piorar o ressecamento da pele e predispor também a outras lesões.”
A temperatura ideal? “O ideal seria lavar o rosto com água numa temperatura mais próxima da temperatura ambiente. Nem quente demais, nem fria demais”, recomenda o médico.
O desafio é fugir da água “pelando fogo” em dias mais frios.
Quanto tempo a pele leva para se recuperar?
Quando a barreira cutânea é lesada — seja pela água quente, seja por sabonetes inadequados —, a recuperação não é imediata.
“Uma vez lesada a barreira cutânea, ela demora um pouco para se restabelecer. Isso depende de fatores individuais e depende da gravidade da lesão. Se você tem uma lesão mais superficial da barreira da pele, ela pode se recuperar rapidamente. Se você tem lesões que são mais profundas, por exemplo, se você faz uma queimadura com um sabonete que é excessivamente alcalino, isso pode demorar dias ou até semanas para se recuperar completamente”, alerta Ricardo Fontes.
Como saber se a sua barreira já foi comprometida
Existem sinais visíveis que indicam que algo está errado. “Geralmente, quando você vê uma descamação da pele, uma vermelhidão, algum pontinho de ressecamento ou pequenas fissuras com sangramento, isso demonstra que a gente já teve uma lesão dessa barreira cutânea”, diz o dermatologista.
Ele acrescenta um aviso prático. Caso o sabonete esteja te causando vermelhidão na pele, irritação ou descamação, algo não está adequado.
Bucha e esponja: vilãs ou aliadas?
Outro hábito que divide opiniões é o uso de bucha ou esponja no rosto. A resposta do especialista é equilibrada.
Um alerta: o uso de bucha ou esponja deve ser evitado na maioria das vezes, porque as buchas e esponjas acabam agredindo muito a pele.
Mas há exceção: “Se a pessoa não faz nenhum tipo de tratamento, o uso pontual da bucha ou da esponja pode ser benéfico se usada de forma delicada e não com buchas ou esponjas muito ásperas, mas sim aquelas que são mais delicadas, que seriam capazes de levar a uma leve esfoliação mecânica da camada mais superficial da pele”, afirma Fontes.
O critério para descartar de vez qualquer bucha ou esponja? Se arranhar a pele, ela não é adequada e deve ser evitada.
Quantas vezes lavar o rosto por dia?
Nem pouco, nem demais. Uma das dicas é lavar o rosto pelo menos duas vezes ao dia, uma vez pela manhã, para tirar o suor da noite, e outra à noite, para tirar a poluição e o suor do dia a dia.
Para pessoas com pele muito oleosa ou em situações de sujidade visível, uma lavagem extra no meio do dia pode ser recomendada. Mas o excesso também é problema.
Outra dica: lavar repetidas vezes o rosto pode tirar toda a oleosidade da pele e lesar a barreira cutânea de proteção. “A nossa pele tem na verdade um equilíbrio entre um pouco de oleosidade com óleos que são naturalmente produzidos pelo nosso organismo e que acabam protegendo também do ambiente externo. Se você lava excessivamente, você pode levar a lesão da pele”, avisa o professor da Faminas.
Como escolher o sabonete certo
A escolha do produto faz toda a diferença. Segundo o especialista, o sabonete ideal é aquele com pH próximo ao pH fisiológico da pele — não neutro, mas compatível com a acidez natural da pele — e adequado ao tipo de pele e à faixa etária.
“Em geral, as pessoas que são muito jovens e homens também têm uma tendência a ter a pele muito mais oleosa, e as mulheres pós-menopausa tendem a ter uma pele muito mais ressecada”, afirma o dermatologista.
Na hora de comprar, a preferência deve ser por sabonetes líquidos específicos para o rosto. Ele explica que os sabonetes líquidos têm o pH já bem próximo do pH da pele e, geralmente, são menos alcalinos do que aqueles em barra.
O inverno piora tudo isso
Quem mora em regiões de inverno seco, como Minas Gerais e o Distrito Federal, precisa redobrar a atenção. Isso porque o ressecamento do inverno leva a uma maior desidratação da pele, uma perda maior de água pela pele, levando a lesões celulares, mais feridas, mais ressecamento, mais irritação e maior sensibilização da pele também a agentes externos.
O que fazer depois de lavar o rosto
A rotina não termina no enxágue. Mais uma das dicas do dermatologista: após lavar o rosto, o uso de hidratante facial é importante — e o tipo importa.
“O ideal é que após você fazer a higienização adequada da pele do rosto, após a lavagem, que você seque a pele um pouco e que você faça uso de algum hidratante facial que seja adequado pro seu tipo de pele”, recomenda o especialista.
Ele faz um alerta sobre um erro comum: usar hidratante corporal no rosto. Ele diz que os hidratantes corporais costumam ser um pouco mais oleosos, e os faciais apresentam menos oleosidade. Por isso, o uso de hidratante corporal no rosto pode aumentar a incidência de acnes ou a sensibilização por produtos.
Além disso, diz o dermatologista, os hidratantes faciais modernos oferecem um benefício extra: “Eles também têm algumas composições com substâncias que são antioxidantes e acabam ajudando e retardando um pouco o processo de envelhecimento da pele”.








