Você já ouviu falar do Vírus Linfotrópico de Células T Humanas? Para a maioria das pessoas, a resposta é ‘não’. O vírus, que pertence à mesma família do HIV, foi o primeiro retrovírus humano descoberto (em 1980) e, no entanto, é considerado uma das infecções mais negligenciadas da atualidade. 10 de novembro marca o Dia Mundial de Combate ao HTLV.
Entre 10 e 20 milhões de pessoas no mundo podem estar infectadas pelo HTLV, com as maiores prevalências em áreas como Japão, África, Caribe e América do Sul.
O desconhecimento sobre esse vírus é perigoso, pois o Brasil ocupa um lugar de destaque negativo no cenário mundial. Estima-se que cerca de 2,5 milhões de brasileiros estejam infectados pelo HTLV-1/2, um número que pode estar subnotificado, mas que coloca o país como a nação com o maior número absoluto de casos no mundo, segundo o boletim epidemiologico de ministério da saúde de 2022.
O que é o HTLV e por que ele é um vírus “silencioso”?
O HTLV é um retrovírus que infecta as células de defesa do nosso corpo, os linfócitos T. Sua característica de “silencioso” se deve ao fato de que, na imensa maioria dos casos (cerca de 90%), a pessoa infectada vive a vida toda como portadora assintomática, sem saber que tem o vírus e, consequentemente, sem receber o devido acompanhamento médico.
As Consequências e a Realidade Brasileira
Embora a maioria dos infectados não apresentem sintomas, o vírus pode desencadear doenças graves e debilitantes anos ou até décadas após o contágio. Os vírus HTLV podem causar uma série de manifestações clínicas, incluindo comprometimento do sistema imunológico (imunossupressão), inflamação dos olhos (uveíte) e da pele (dermatite) e pneumonia (pneumonite). O HTLV-1 pode levar ao câncer em algumas pessoas (leucemia de células T do adulto) e a várias complicações neurológicas, como mielopatia (mielopatia associada ao HTLV-1) e paraparesia espástica.
O HTLV está presente em todas as regiões do Brasil e, desde fevereiro de 2024, a infecção por HTLV-1 e HTLV-2 passou a ser de notificação compulsória, o que significa que é obrigatório notificar os casos às autoridades de saúde para melhor acompanhamento e controle da doença.
A maior prevalência em estudos populacionais é frequentemente observada na região Nordeste, com destaque para o estado da Bahia. Em Minas Gerais, o número de casos em gestantes e doadores de sangue também é registrado, mas o vírus ainda enfrenta o desafio da invisibilidade. Dados da UFMG de 2021 indicavam que que cerca de 140 mil pessoas tinham HTLV no nosso estado.
Belo Horizonte possui centros de referência para o diagnóstico, tratamento e pesquisa do vírus. O Centro de Testagem e Aconselhamento (CTR-DIP) Orestes Diniz, em parceria com o Hospital das Clínicas da UFMG e a Hemominas, oferece atendimento especializado a pacientes com HTLV, recebendo encaminhamentos de toda a rede municipal e estadual. A Hemominas realiza o rastreamento do vírus em doadores de sangue e desenvolve pesquisas na área.
Como Ocorre a Transmissão?
O HTLV não é transmitido facilmente. Ele precisa de contato com o sangue ou com células infectadas. As três principais formas de contágio são:
- Relações Sexuais Desprotegidas: Principal via de transmissão em adultos.
- Transmissão Vertical: Da mãe para o bebê, principalmente através do aleitamento materno. É por isso que o rastreamento do HTLV é obrigatório em gestantes no pré-natal.
- Compartilhamento de Seringas: Ocorre, por exemplo, entre usuários de drogas injetáveis.
Desmistificando o HTLV: O Fim das Fake News
O desconhecimento sobre o vírus é terreno fértil para mitos. Desmistificar é crucial para combater o estigma e incentivar a prevenção:
Mito 1: O HTLV é facilmente transmitido por contato casual. FALSO. O vírus não é transmitido por abraços, beijos na boca, aperto de mãos, compartilhar talheres, copos, toalhas, piscinas ou banheiros. Ele só passa por sexo desprotegido, aleitamento materno e contato com sangue.
Mito 2: Toda pessoa infectada pelo HTLV vai desenvolver uma doença grave.FALSO. Pelo contrário: cerca de 90% dos portadores permanecem assintomáticos por toda a vida. Apenas uma pequena parcela (5% a 10%) pode desenvolver as formas mais graves da doença, anos após a infecção.
Mito 3: O HTLV tem cura.FALSO. Atualmente, não existe cura nem vacina. O tratamento é focado no manejo e alívio dos sintomas das doenças associadas e no tratamento da leucemia/linfoma. Em parceria com o Ministério da Saúde, a Fiocruz Bahia deu início ao ensaio clínico PrevINIr HTLV-TV, que visa avaliar o uso do medicamento Dolutegravir (DTG) na prevenção da transmissão vertical do vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 (HTLV-1)
Mito 4: O HTLV é a mesma coisa que o HIV. FALSO. Embora sejam “primos” (retrovírus), o HIV destrói células de defesa (levando à AIDS), enquanto o HTLV geralmente estimula sua multiplicação, podendo levar a câncer ou doenças inflamatórias.
Prevenção e Diagnóstico: Os Passos Essenciais
A prevenção do HTLV é simples e eficaz, baseada nas vias de transmissão:
- Use Camisinha: o preservativo deve ser usado em todas as relações sexuais.
- Não Compartilhe Material Injetável: evite o compartilhamento de seringas, agulhas, cachimbos ou qualquer material que possa ter contato com sangue.
- Pré-natal e Aleitamento: gestantes devem fazer o teste de HTLV. Se positivo, o bebê não deve ser amamentado com leite materno para cortar a principal via de transmissão vertical.
Diante do cenário de alta prevalência no Brasil e da possibilidade de ser portador assintomático, o teste de HTLV é a única forma de obter um diagnóstico. Conhecimento é o primeiro passo para o cuidado, a prevenção e a redução da invisibilidade deste vírus. Dica da semana – há perfis no instagram que compartilham informações confiáveis exclusivamente sobre este tema…sugiro seguir e consultar @htlvchannel @htlvida @htlvbrasil.









