O Brasil ganhou em maio de 2026 sua primeira caneta emagrecedora fabricada com semaglutida sintética. O medicamento se chama Ozivy, chamado de “Ozempic brasileiro”, é produzido pelo laboratório EMS e chegou às farmácias em junho — a um preço que pode ser até 30% menor do que o do produto de referência que domina o mercado. Mas o que exatamente muda para quem quer ou já usa esse tipo de tratamento?
O que a Anvisa aprovou
Em 26 de maio de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou o registro do Ozivy no Diário Oficial da União. Segundo o comunicado oficial do órgão, o medicamento é indicado para o tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 não controlada, como adjuvante à dieta e à prática de exercícios físicos.
A Anvisa classificou o Ozivy como medicamento novo — não como genérico. Isso porque a semaglutida usada no produto é sintética, produzida por síntese química em laboratório, enquanto a do Ozempic e do Wegovy é biológica, obtida por fermentação com leveduras. O produto passou por avaliação completa de eficácia, segurança e qualidade antes de receber o registro, incluindo estudos de bioequivalência que demonstram que a versão sintética age da mesma forma da original no organismo.
Quanto custa
A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), vinculada à Anvisa e responsável pela regulação de preços no setor farmacêutico, estabeleceu o preço máximo ao consumidor (PMC) do Ozivy em R$ 803,44 para a apresentação de 1,34 mg/mL. Os preços praticados nas farmácias podem ser inferiores a esse teto. O laboratório EMS divulgou que a expectativa é comercializar o produto brasileiro com cerca de 30% de desconto em relação ao Ozempic, o que situa o preço entre R$ 450 e R$ 630 por caneta emagrecedora dependendo da rede.
O Ozivy é apresentado em caneta preenchida para aplicação semanal, deve ser armazenado em geladeira entre 2 °C e 8 °C, e exige prescrição médica para ser adquirido.
O que dizem as sociedades médicas
A aprovação do Ozivy chega em um momento de tensão entre as entidades médicas e a gestão pública sobre acesso ao tratamento da obesidade. Em agosto de 2025, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) emitiram nota conjunta criticando a decisão do governo de não incluir a semaglutida no SUS.
“No Brasil, 3 em cada 10 adultos têm obesidade, e 7 em cada 10 dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde”, afirma o documento assinado pelas três entidades. “A indisponibilidade no sistema público fere os princípios de equidade, universalidade e integralidade do SUS.” As sociedades também criticaram os critérios usados pela Cnoitec: “Desde 2019, a Conitec negou cinco vezes a incorporação de medicamentos para a obesidade, sempre com a mesma justificativa: o custo.”
Em junho de 2026, após a aprovação do Ozivy, SBEM, SBD e Abeso emitiram novo posicionamento conjunto reafirmando confiança no rigor técnico da Anvisa no processo de avaliação da semaglutida sintética e na entrada de novos fabricantes no mercado após a expiração da patente, ocorrida em 20 de março de 2026.
E o SUS? A posição do Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde acompanha o tema. O ministro Alexandre Padilha declarou publicamente que o governo estuda formas de ampliar o acesso aos medicamentos emagrecedores pela rede pública — proposta batizada pela imprensa de “Bolsa Ozempic”. Para o ministério, a produção nacional é uma das estratégias centrais para viabilizar esse acesso em larga escala, já que permitiria negociar preços mais baixos com fabricantes brasileiros.
O caminho, no entanto, ainda não está definido. Para que qualquer versão do medicamento chegue ao SUS, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) precisa reavaliar a proposta e recomendar a incorporação — e o Ministério da Saúde precisa homologar a decisão. Em 2025, a Conitec rejeitou a semaglutida para obesidade citando custo estimado de R$ 7 bilhões em cinco anos.
O que muda na prática
O Ozivy amplia o acesso ao tratamento, mas não elimina as barreiras. O “Ozempic brasileiro” está aprovado pela Anvisa apenas para diabetes tipo 2 — não para obesidade sem comorbidade associada. Quem deseja usar o produto exclusivamente para emagrecimento precisará de avaliação médica individualizada que justifique a prescrição com base em critérios clínicos.








