O uso das chamadas canetas emagrecedoras começa a impactar diferentes segmentos do comércio e dos serviços em Belo Horizonte. Os medicamentos injetáveis usados no tratamento da obesidade e do diabetes, capazes de reduzir em até 30% o peso corporal dos pacientes, impulsionam a procura por clínicas e academias e vêm forçando alguns bares, restaurantes e lojas de vestuário a se adaptarem a esse novo público. São pessoas em busca de uma vida mais saudável, com restrições alimentares e transformações nas medidas do corpo. Esse movimento é reforçado por uma tendência que já vinha sendo percebida nos setores de alimentos e bebidas, devido à mudança nos hábitos dos consumidores mais jovens.
No caso do setor alimentício, a alteração no comportamento desses clientes tem levado os estabelecimentos a modificar e criar cardápios. A perda de apetite, saciedade prolongada e menor tolerância a alimentos mais calóricos e em grandes quantidades obrigam pacientes que usam Ozempic, Wegovy e Mounjaro a buscar opções mais alinhadas aos novos hábitos.
“O medicamento age no sistema nervoso, o que faz com que a pessoa perca o interesse em comer determinados alimentos. Quando força, ela acaba passando mal, tendo náusea, queimação, gastrite”, explica o médico nutrólogo Daniel Carmo.
Adaptações
André Calixto é proprietário do bar O Quinteiro, no bairro Floresta, região Leste de Belo Horizonte. A experiência pessoal dele, que também passou a fazer uso do Mounjaro, aliada à queda de consumo dos clientes – o que ele credita, em parte, às canetas -, o levou a criar estratégias para contemplar esse público.
“Comecei a entender que não conseguia mais consumir dentro do meu próprio bar. Ou tudo era muito gorduroso, ou tudo era muito grande. [Com a queda], a gente entendeu que era o momento de criar uma categoria de comida mais leve, que não seja um sanduíche com fritura, com maionese”, conta.
Ao lado do sócio, Vinicius Duarte, Calixto criou um cardápio com lanches que levam ingredientes à base de proteínas e vegetais selados na chapa, com bem menos calorias do que os tradicionais. Em um deles, vão frango, alface crespa, tomate-cereja e molho especial de parmesão.
“A ideia não é que ele seja pequeno, a ideia é que seja leve, com uma massa fermentada que a gente faz na casa. A gente já vem tendo uma resposta muito boa. Vamos ver o que funciona, porque isso também varia muito, mas, dentro do nosso público, que é dos 25 aos 40 anos, esse é um assunto que está em potencial”, avalia.

A mesma realidade é experimentada pelo Boteco do Rod, na região da Pampulha. Reconhecido pela boa comida de boteco, chopp gelado e ambiente descontraído, o estabelecimento já percebe uma baixa de 30%, entre 2025 e 2026, na venda de comidas “pesadas”.
“Aqui eu vendo muito torresmo, muito bolinho, e foi uma queda grande, significativa. Acho que muito se deve, sim, às canetas emagrecedoras, sem dúvida”, aposta Rod, proprietário do bar.
Para atrair esse público, ele começou a pensar em estratégias para oferecer pratos mais leves. Uma tendência que, de tão forte, derrubou uma tradição. Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, desta vez o bar vai apostar em opções com comida e drinks temáticos “bem menos calóricos”. A bebida será à base de gin e o prato vai levar quiabo e milho, vegetais nas cores verde e amarela. Tudo salteado na manteiga, em vez de ser preparado no óleo.
“Olha só! Estamos até fugindo um pouco da proposta de boteco, que é de comidas mais pesadas, mas entendendo todo esse perfil da galera, atrelado, sim, ao uso de medicamentos para emagrecer, que tira o apetite de coisas gordurosas”, revela Rod. “A gente já está indo nessa tendência para não deixar dinheiro na mesa”, confessa.
A estratégia de se adaptar aos gostos e às restrições desse público não é exclusiva de Belo Horizonte. Em várias capitais do país, bares e restaurantes também estão mudando os cardápios, reduzindo porções e procurando uma maneira de agradar os clientes. Os casos do NOU, em São Paulo, e do Zen Cozinha Oriental, no Rio, que estão diminuindo o tamanho dos pratos, provam que esse é um movimento nacional.
Um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) identificou que, em todo o Brasil, 61% dos empresários do setor já perceberam mudanças associadas ao uso de remédios como o Ozempic e o Mounjaro.
“O impacto ainda é irregular e maior nos restaurantes mais sofisticados. Mas o setor sempre foi muito resiliente e está acostumado a perceber essas mudanças no comportamento dos clientes e a reagir rapidamente”, garante José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo e Inteligência da Abrasel.
Nina Soares é proprietária da Estação do Peixe. Atualmente fechado para reforma e mudança para o novo endereço, no bairro Santa Efigênia, o estabelecimento já colhe os frutos de ter reduzido o tamanho das porções no restaurante. Por lá, as especialidades são a moqueca, a traíra sem espinhos, o cascudo e o peroá. A estratégia que começou pouco antes da popularização das canetas emagrecedoras acabou ganhando um reforço dos clientes que utilizam esses medicamentos.
“Comecei com um menu degustação às terças-feiras, três pratos pequenos a R$ 25. Aquilo trouxe muitas pessoas interessadas, e eu parti para outros preparos e passei a deixar fixo”, conta Nina. “Tem gente que prefere não sair de casa, com receio de que não vá encontrar um prato com qualidade e menos calórico. Esse tipo de prato acaba incentivando a pessoa a não ficar só dentro de casa, presa a uma dieta só”, diz sobre os clientes em processo de emagrecimento.
A servidora pública Tâmara Gonçalves, de 33 anos, conta que, após o uso do Mounjaro, passou a ir menos aos bares. “Precisei diminuir um pouco as saídas. Eu acabava comendo coisas mais pesadas, vinha o mal-estar, enjoo”, diz. “Eu acho que faltam, sim, [mais opções], principalmente menores, porque às vezes a gente sai e praticamente tudo é muito pesado ou muito calórico”.
Na Estação do Peixe, a empresária Nina Soares revela que a procura por essas opções menores no cardápio cresceu 40% em pouco mais de um ano. Certa de que é um movimento que veio para ficar, ela é taxativa sobre a necessidade de os negócios acompanharem o gosto da clientela. “O empreendedor está enxergando esse nicho, esse novo hábito alimentar; é preciso estar alerta à leveza da comida”, aconselha.
“Muitos [que fazem uso das canetas] procuram o restaurante. Eu sou ativa, vou à mesa, converso, eu quero saber como foi a experiência. E a pessoa diz: ‘aqui, a gente pode ter essa tranquilidade, porque eu não vou perder minha canetinha, meu Mounjaro’”, conta Nina, bastante orgulhosa.
Para José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo e Inteligência da Abrasel, o empreendedor que enxergar essa demanda como uma oportunidade vai conseguir agregar valor e fazer com que o cliente se torne fiel.
“Um outro fator importante é pensar que esse indivíduo é influenciador. Quando uma turma pensa em ir para algum lugar, ele pode ser decisivo, se o restaurante não tem uma oferta que o contemple. Já vimos isso acontecer com os veganos, por exemplo. Sem um cardápio eclético, você corre o risco de perder vendas”, alerta.
Ulysses Reis, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da SBS Strong Business School, também enxerga o movimento como uma chance de determinados negócios se destacarem em meio à ascensão de um novo público. “Eu acho que, em termos de diferencial competitivo, pode ser muito bom, porque elas vão estar à frente”, diz.
Ele lembra que o custo do tratamento, que inclui a consulta médica e as canetas, ainda é alto e inacessível para uma importante parcela da população, mas destaca que, quando as canetas se popularizarem, já ter produtos a serem oferecidos pode fazer toda a diferença. “Eu acho uma boa jogada, porque essas empresas já terão conquistado parte do público e poderão ser referência”, destaca.
Em março, a patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, caiu, o que permite, a partir de agora, que outras empresas farmacêuticas produzam a mesma medicação após autorização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Há uma semana, a Anvisa aprovou a primeira caneta brasileira. O medicamento Ozivy é uma versão sintética do mesmo princípio ativo do Ozempic e será produzido pela EMS.

Mais proteínas
Se o esforço das pessoas que fazem uso das canetas emagrecedoras está em comer menos, os médicos lembram que a ingestão de proteínas, para manutenção de massa magra, é essencial. Aliado ao treino de força, esses nutrientes são importantes na estratégia de perda saudável de peso.
“Qualquer processo mais acelerado promove perda de estoques de energia, de gordura, mas também do músculo, que não é poupado. Por isso, também é importante um bom aporte proteico”, explica o endocrinologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG Felipe Leão.
Fernando Junior, proprietário do Porcão, uma das mais famosas churrascarias de BH, localizada no bairro São Bento, região Centro-Sul, lembra que muita gente que utiliza medicamentos como Ozempic ou Mounjaro acaba priorizando dietas hiperproteicas que as carnes oferecem. “A proteína ganhou ainda mais importância”, comemora. No caso do restaurante, ele garante que isso acelerou os movimentos que já vinham fazendo. Por lá, a presença desse público começou a ficar mais perceptível no ano passado, com alguns clientes buscando “refeições mais equilibradas e cortes menores”.
“Criamos opções mais flexíveis para o almoço durante a semana, como as parrillas individuais e compartilháveis, com cortes de aproximadamente 150 g acompanhados de dois acompanhamentos, em valores mais acessíveis”, conta Fernando. “Não vejo como uma ameaça ao setor, mas como uma evolução do consumidor. E os restaurantes que entenderem isso vão sair mais fortes”, completa.
Essa flexibilidade em implementar alterações que possam agradar a uma parte do público, por menor que seja, é uma decisão elogiada por Renato Lana, analista de negócios do Sebrae. No entanto, qualquer mudança, segundo ele, carece de planejamento.
“O empreendedor precisa ter controle e uma proposta de comunicação. Se ele não calcula o custo da mercadoria vendida e não tem marketing para atrair esse público, ele fica perdido. A receita de sucesso de qualquer negócio é gestão de estoque, operação e experiência do cliente”, aconselha.

Geração saúde e menos álcool
Os clientes que fazem uso das canetas emagrecedoras não estão sozinhos na busca por uma vida mais saudável. A procura por alimentos menos calóricos já era uma tendência que empreendedores vinham notando nos últimos anos, sobretudo por parte das novas gerações. Dessa mudança no perfil de consumo, nem mesmo as bebidas escapam.
“Existe uma geração mais nova que, de forma geral, tem consumido menos álcool. E os que consomem bebem menos cerveja e preferem bebidas mistas”, conta Eduardo Murta, proprietário do Galpão Flor do Campo, localizado no Santa Efigênia, região Centro-Sul de Belo Horizonte.
“A Geração Z já não bebe tanto quanto a nossa. Por exemplo, quando postamos as opções de comida para o ‘público Mounjaro’, alguns clientes passaram a pedir mais opções de bebidas não alcoólicas”, revela André Calixto, proprietário do bar O Quinteiro, que agora já planeja lançar esse tipo de drink. “Na nossa cabeça isso não entrava no início”, confessa.
Embora esses sejam uma minoria entre os clientes, o empresário entende que é necessário se adequar e, com isso, já passou a investir mais em outras opções, como, por exemplo, cervejas long neck sem glúten. “É um nicho que vem crescendo. Pode parecer pouco, 10%, mas, no final, se for pensar em termos de faturamento mensal, já é uma porcentagem grande”, calcula.
Rod tem a mesma percepção dos colegas. A procura por cervejas de baixa caloria e drinks mais leves também aumentou no boteco que gerencia na Pampulha. “Tem a ver com as canetas emagrecedoras, claro, mas tem a ver também com o próprio mercado, com as novas gerações voltadas para a saúde, para o cuidado com o corpo”, reflete.

O que os empreendedores testemunham na “ponta”, a indústria já consegue perceber em larga escala. Mário Marques, presidente do Sindibebidas, entidade que representa as empresas fabricantes em Minas Gerais, credita às canetas emagrecedoras e aos hábitos mais saudáveis das novas gerações uma mudança no perfil de consumo e na queda.
“Há uma queda muito grande no consumo [das bebidas]. A gente estima em torno de 10%. Tem a ver ainda com a geração Z, que bebe menos e opta por bebidas não alcoólicas”, complementa.
Para tentar evitar prejuízos, Mário conta que a indústria vem desenvolvendo um trabalho de investir mais em ready-to-drink, cervejas zero, vinho e até a caipirinha mineira, que, segundo o empresário, são de menor teor alcoólico. “Essas não só não caíram, como cresceram [as vendas]. Isso tem alavancado a perda que a gente teve”, revela.
A abstinência cada vez maior de álcool, de fato, é identificada pelas pesquisas e, entre os jovens, a redução é ainda mais significativa. Levantamento realizado pela Ipsos-Ipec mostra que 64% dos adultos afirmaram não ter bebido em 2025; em 2023, eram 55%. Entre pessoas de 18 a 24 anos, o número subiu de 46% para 64% e de 47% para 61% entre pessoas de 25 a 34 anos.
A estudante de enfermagem Brenda Silva, de 26 anos, tem esse perfil. Ela conta que, nas baladas, passou a preferir cervejas sem álcool e drinks gelados. A opção dela tem a ver com a vida mais saudável que já experimenta há dois anos. Com os treinos, a jovem emagreceu 8 quilos em três meses. “Era o que eu precisava. Diminuir a quantidade de bebida, inclusive, me dá mais disposição para treinar”, revela.
Clínicas: procura em alta
Aos 38 anos, a personal Marcella Arnaut se viu arrasada pelos efeitos do sobrepeso após uma gravidez. Triste e sem conseguir emagrecer com dieta e treinos, ela recorreu a um especialista, que indicou o uso da tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro. O medicamento imita os efeitos de dois hormônios produzidos naturalmente pelo intestino, adiando o esvaziamento do estômago e reduzindo de forma drástica os picos de fome e a compulsão alimentar.
“No começo eu tive bastante preconceito, mas percebi que, naquele momento, eu precisava de ajuda. Eu já emagreci 28 quilos. Minha autoestima voltou. Ninguém me segura”, celebra Marcella.
A personal é parte de um universo cada vez maior de pessoas que estão fazendo uso desses medicamentos. Em 2025, segundo o Conselho Federal de Farmácia, a procura pelas canetas aumentou 88%. Pesquisa do Instituto Locomotiva identificou que, de um em cada três domicílios no país, há pelo menos um morador usando Mounjaro, Ozempic, Wegovy ou Saxenda, as marcas mais populares disponíveis no mercado.

Daniel Carmo é médico, especialista em nutrologia, e há quatro anos trabalha com performance e emagrecimento. A procura pelos tratamentos de combate à obesidade, segundo ele, já vinha crescendo, mas, com as canetas, deu um salto. Na clínica onde atende, no bairro Ouro Preto, região da Pampulha, a demanda por essas aplicações aumentou de forma considerável no último ano.
“Foi proporcional. À medida que a tecnologia e a medicação foram evoluindo, a procura acompanhou. A nossa estimativa é de um crescimento de 80%”, revela.
Para o médico Daniel Carmo, a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Saintária de novas canetas deve fazer com que o número de pessoas interessadas aumente ainda mais. Segundo a Anvisa, entre pedidos em processo de análise e aguardando o início dos testes, são 17 novos fabricantes. “Com outras marcas podendo produzir, isso vai abrir portas para as pessoas de baixa renda, porque o preço tende a ser mais acessível”, prevê.

Sobre a concorrência de canetas não legalizadas, vindas do Paraguai, por exemplo, ou usadas sem acompanhamento médico, Daniel chama a atenção para os riscos que essas atitudes podem representar.
“O uso da caneta é parte de um tratamento e todo trratamento deve ser individualizado. Não é um livro de receita. Existem protocolos que devem ser seguidos. Se a pessoa começa a comer menos nutrientes necessários, isso pode acarretar queda de cabelo, por exemplo. Daí as pessoas acham que é pela caneta, mas é pela falta de nutrientes”, explica.
Ulysses Reis, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da SBS Strong Business School, explica que haja uma expectativa de queda de valor ao longo do tempo. A tendência é que qualquer produto lançado, após a fase inicial, que vai de seis meses a um ano, tenha uma baixa em torno de 30% a 45%. Depois, tende a cair ainda mais, pela metade.
“Chamamos isso de curva de adoção. Vários competidores vão entrar no mercado, o custo de lançamento e produção caem. Então, vai ficar bem mais viável para muita gente”, destaca.
Academias: estratégia para não ‘secar’
As academias de Belo Horizonte também vêm experimentando uma boa procura desse público. A necessidade de manutenção da massa magra, que pode ser comprometida com o uso das canetas, obriga os pacientes a uma rotina regular de treinos de força.
“Um dos grandes vilões do uso das canetas é a perda de massa magra. Se a pessoa não fizer nada, a gente brinca que ela derrete, literalmente”, esclarece Gustavo Fleming, membro da diretoria do Sindicato dos Estabelecimentos de Natação, Ginástica, Recreação e Cultura Física de Minas Gerais.
“Num processo de perda acelerada de peso, há perda de gordura, mas também de músculo, que não é poupado. É importante a prática de atividade física, principalmente resistida, que é a musculação”, orienta o endocrinologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Felipe Leão.
É justamente essa estratégia de cuidado que tem, em parte, aumentado o interesse de muitas pessoas pelas academias. Diogo Fiorini, gerente da Bodytech Savassi, acompanha bem de perto esse movimento.
“Os estudos trouxeram dados de que as pessoas perdem entre 30% e 50% do peso total em massa magra, então, quer dizer que, no indivíduo que perdeu 20 quilos, provavelmente, entre 7 e 10 quilos são de massa magra”, conta Diogo. “A gente tem percebido uma procura maior das pessoas pela musculação, pela importância da manutenção da massa magra”, reforça.

Diferente do que o senso comum pode imaginar e as previsões apontavam, as canetas não concorrem, mas, pelo contrário, fortalecem o mercado das academias, que já vinha crescendo, em média, 15% ao ano, segundo o setor. Para além da manutenção da massa magra, outro fator, segundo Gustavo Fleming, tem sido determinante para esse público procurar ou se manter firme nos treinos pesados.
“Antes, sem as canetas, o alcance de resultado era muito mais difícil. A pessoa treinava meses e não conseguia um resultado tão bom e parava. A caneta acaba sendo mais um motivador. Na hora em que ela perde peso, acaba se motivando mais a fazer mais atividade física e a continuar treinando mais vezes”, explica.
A servidora Fernanda Souza, de 37 anos, é uma dessas pacientes. Ela não frequentava academias há mais de dez anos. Chegou a pesar mais de 90 quilos e hoje está com 76. Com o uso da semaglutida, princípio ativo do Wegovy, se matriculou em uma e agora treina quase diariamente.
“A caneta me deu um incentivo a mais para voltar, já que eu sabia que eu ia perder peso. Apenas de outubro para cá, foram 7% de gordura a menos, fora o ganho de massa magra, que era o objetivo que eu estava buscando na musculação”, conta.
Para o professor universitário Júlio Fernando, de 34 anos, que, desde a adolescência, também não pisava em uma academia, os treinos de força ajudaram na modelagem do “novo corpo”. Durante seis meses, ele fez uso do Mounjaro e saiu dos 108 para os 83 quilos.
“Mesmo perdendo 25 quilos, eu percebo que não tenho tantas dobras, tantos sinais de excesso de pele, de um emagrecimento praticamente forçado. A atividade física me ajudou a fazer com que o meu corpo fosse diminuindo também em proporção até chegar nesse estágio em que eu estou hoje”, explica Júlio, que agora está de bem com a própria aparência. “Minha autoestima era bem baixa, não me sentia atraente e nem bonito. Agora, passei a gostar mais de fotos e de me ver no espelho”, confessa.

Um trabalho estratégico pode fazer com que determinadas academias se sobressaiam em relação às concorrentes, segundo o especialista, se entenderem esse movimento como uma oportunidade de negócio.
“Quem customizar, tiver a ideia de investir em mão de obra e equipamentos para esse público e anunciar a importância de um processo como esse para conseguir bons resultados com o corpo, vai sair na frente”, aposta Ulysses Reis, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da SBS Strong Business School.
Lojas de vestuário
Além da saúde, o emagrecimento proporcionado pela aplicação das canetas emagrecedoras, como ficaram conhecidos os medicamentos injetáveis para controle da obesidade e do diabetes, mexe com as medidas do corpo. Essa redução do peso dos clientes tem impactado o setor do vestuário, sobretudo as lojas com foco nos clientes “plus size”.
“Houve, sim, uma mudança, embora não brusca, de cerca de 10%. Os remédios estão se popularizando agora e, com a queda da patente, a gente acredita que ainda vai ser um pouco mais afetado, ainda mais que a minha loja hoje é uma loja 100% plus”, conta Nádia Puglia, proprietária da Loja Xica Bella, no bairro Jaraguá, região da Pampulha.
Com o uso das canetas, o que o segmento tem registrado não chega a ser uma perda importante de faturamento, mas uma ‘necessidade grande’ de renovar o estoque com peças menores. A mudança de consumo começou a ser notada em janeiro. Muitas clientes começaram a comprar modelos, inclusive, diferentes com elastano.
“Mesmo essas mulheres perdendo peso, elas vão precisar de peças. A que veste G4 vai vestir um G3, G2, talvez chegue até a um tamanho G, então, a gente vai ter que se adaptar a essa nova mudança do mercado”, projeta Nádia.

Movimento reforçado pela experiência de Juliana Gouveia, proprietária da Daju Moda, na Savassi. Ela conta que, mesmo as pessoas que estão reduzindo o tamanho por causa das canetas, continuam ainda no plus size, mas admite que compram em menor quantidade. Essa redução impacta o caixa da loja. O faturamento, em decorrência apenas da queda na compra por clientes que passaram a usar as canetas, teve uma baixa de 5%. No caso das roupas com modelagem slim, a redução foi de 10%.
“Elas continuam como clientes, mas compram menos. Quando elas estão emagrecendo, não querem investir, porque estão contando sempre que vão emagrecer mais”, explica.
Para ajustar essa queda de faturamento, Juliana diz que a saída foi adotar algumas estratégias. A primeira foi ampliar a numeração. “Se antes eu trabalhava desde o 44, a gente voltou a trabalhar com número 38”, conta. Outra decisão foi começar a comprar menos peças com tamanhos maiores. “Nós não eliminamos os tamanhos maiores, 52, 54, mas estamos adquirindo quantidades menores”. Uma mudança que também vem sendo sentida no contato com os fornecedores dos produtos. “Eles já não estão fazendo mais essas numerações maiores e estão aumentando a grade dos tamanhos menores”, conta.

Solange Fraga, de 70 anos, é uma dessas clientes que passaram a usar medidas menores de roupa. A correspondente bancária engordou após a morte do marido, mas, em dezembro do ano passado, começou tratamento médico com o uso de Ozempic. Ela saiu dos 102 quilos para 79. “Me sinto muito feliz. De tamanho G2, passei a usar G. Minhas roupas antigas eu tenho que dar para alguém”, brinca.
O impacto desse setor tem a ver com a lógica de preço de custo e venda, que não é necessariamente proporcional em muitas lojas, como explica Ulysses Reis, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da SBS Strong Business School. Uma mesma peça, por exemplo, tamanho 44, que custa 30 reais, a partir dos tamanhos 46 ou 48 pode sair pelo dobro do valor para lojistas e para os clientes. Com a escolha por peças menores, cai a margem de lucro dos empresários.
“Não será de uma hora para outra que essas lojas terão que rever suas coleções e lançamentos. Mas penso que, em algum momento, algumas que se posicionam de forma diferente, em termos de novos cortes e peças individuais, vão conseguir se sobressair. Afinal, quem está pagando caro pelo Mounjaro vai exigir uma marca que gere autoestima e elegância”, aposta.











