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Suicídio entre idosos: um sofrimento silencioso que precisamos enxergar

10/08/2026 às 10h56
Suicídio entre idosos: um sofrimento silencioso que precisamos enxergar
(IMAGEM ILUSTRATIVA: Banco de Imagens/Pixabay)

Envelhecer não é sinônimo de perder a vontade de viver. Ainda assim, muitas pessoas idosas enfrentam lutos, doenças, dores persistentes, limitações físicas, redução da renda, afastamento do trabalho e mudanças profundas na rotina. Quando esse sofrimento é considerado uma consequência “normal” da idade, importantes pedidos de ajuda podem permanecer invisíveis.


O suicídio entre pessoas idosas é um grave problema de saúde pública, especialmente entre os homens. Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2021, a taxa de suicídio entre os homens aumentou progressivamente conforme a idade, chegando a 18,1 mortes por 100 mil habitantes entre aqueles com 70 anos ou mais. Isso não significa que o suicídio seja uma das principais causas gerais de morte nessa faixa etária, mas revela uma vulnerabilidade que não pode continuar sendo ignorada.

Um dos fatores mais relacionados ao risco de suicídio é a depressão, que ainda costuma ser confundida com uma suposta “tristeza natural do envelhecimento”. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 5,9% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com depressão, enquanto os problemas de saúde mental nessa fase da vida permanecem frequentemente não reconhecidos e não tratados. Envelhecer pode trazer perdas e dificuldades, mas desesperança, sofrimento intenso e perda permanente do interesse pela vida não devem ser tratados como normais.

Na pessoa idosa, a depressão nem sempre aparece apenas como tristeza ou choro frequente. Ela também pode se manifestar por apatia, irritabilidade, cansaço, isolamento, abandono de atividades antes prazerosas, alterações do sono ou do apetite, dificuldades de concentração, queixas constantes de memória e dores sem explicação suficiente. Frases como “sou um peso”, “não sirvo mais para nada” ou “seria melhor não estar aqui” precisam ser acolhidas com seriedade.

Não existe uma única causa para o comportamento suicida. O risco pode surgir da combinação entre depressão, doenças crônicas ou incapacitantes, dor persistente, perda de autonomia, uso prejudicial de álcool, dificuldades financeiras, aposentadoria, viuvez, conflitos familiares, violência, negligência, solidão e ausência de uma rede de apoio. Nenhum desses fatores determina isoladamente que alguém tentará tirar a própria vida, mas a presença simultânea de vários deles exige atenção redobrada.

A aposentadoria, por exemplo, não representa apenas o encerramento de uma atividade profissional. Para algumas pessoas, especialmente homens que construíram sua identidade em torno do trabalho e do papel de provedor, ela pode produzir perda de renda, redução das relações sociais, diminuição da autoestima e sensação de inutilidade. O luto pela morte de um companheiro ou de amigos, por sua vez, também pode aprofundar o isolamento e a percepção de que o mundo está ficando cada vez mais vazio.

A solidão não é simplesmente estar fisicamente sozinho, mas sentir que não existe alguém disponível para escutar, compreender ou compartilhar a vida. A Organização Mundial da Saúde destaca que o isolamento social e a solidão atingem cerca de um quarto das pessoas idosas e constituem importantes fatores de risco para problemas de saúde mental. Visitas, telefonemas, convivência comunitária, grupos sociais, atividades culturais e oportunidades de participação podem proteger a saúde emocional e devolver sentido à rotina.

Também precisamos combater a ideia de que falar sobre sofrimento é sinal de fraqueza. Muitas pessoas idosas cresceram em contextos nos quais emoções, depressão e saúde mental raramente eram discutidas, sobretudo entre os homens. Por isso, em vez de dizer “você precisa reagir”, “isso é falta do que fazer” ou “na sua idade deveria agradecer por estar vivo”, é necessário oferecer presença, escuta respeitosa e disposição para buscar ajuda junto com ela.

Quando uma pessoa idosa começa a se isolar, demonstra desesperança, fala frequentemente sobre morte, abandona o autocuidado ou manifesta o desejo de desaparecer, esses sinais não devem ser tratados como chantagem ou busca por atenção. O mais indicado é conversar em um ambiente tranquilo, ouvir sem julgamentos e incentivar a procura por atendimento profissional. Em situações de risco imediato, a pessoa não deve permanecer sozinha e precisa ser encaminhada rapidamente a um serviço de saúde.

A depressão possui tratamento, inclusive na velhice. O cuidado pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico e psiquiátrico, uso de medicamentos quando indicado, fortalecimento da rede de apoio, atividades físicas adaptadas, participação social e retomada gradual de experiências que proporcionem prazer, autonomia e sentido. Quanto mais cedo o sofrimento for reconhecido, maiores serão as possibilidades de recuperação e de reconstrução da qualidade de vida.

Esse cuidado também é um direito. O Estatuto da Pessoa Idosa determina que o Estado deve proteger a vida e a saúde, garantindo um envelhecimento saudável, digno e assegura atenção integral pelo Sistema Único de Saúde. Portanto, oferecer cuidado psicológico e psiquiátrico à pessoa idosa não é favor, luxo ou gentileza: é parte do direito à saúde, à dignidade e à proteção da vida.

A ajuda pode ser buscada nas Unidades Básicas de Saúde, nos Centros de Atenção Psicossocial, nas UPAs, nos prontos-socorros e nos hospitais. Em uma situação de emergência, deve-se procurar o SAMU pelo número 192 ou outro serviço de urgência. O Centro de Valorização da Vida também oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas pelo telefone 188. A procura por ajuda não elimina imediatamente todos os problemas, mas pode interromper um momento de crise e abrir caminhos que a pessoa, sozinha e em sofrimento, já não consegue enxergar.

Enxergar o suicídio entre pessoas idosas exige abandonar a crença de que tristeza, solidão e desesperança são partes inevitáveis do envelhecimento. Toda pessoa, independentemente da idade, precisa sentir que continua sendo importante, ouvida, respeitada e pertencente a algum lugar. Caso você tenha se reconhecido ou identificado alguém próximo nas situações apresentadas, talvez este seja o momento de oferecer acolhimento e buscar apoio psicológico, médico ou psiquiátrico.

Com afeto,

Letícia Faleiro | CRP-MG 04/33265

Professora e Psicóloga Clínica

Letícia Faleiro

Letícia Faleiro é psicóloga graduada e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Psicologia Clínica Existencial e Gestáltica e pós-graduada em Gestão Estratégica de Pessoas. Ela atua como psicóloga clínica há mais de 15 anos, é professora universitária e cofundadora do Instituto Florere. Tem ainda formação continuada na abordagem fenomenológica em intervenções em crise, lutos atípicos, teoria do apego e psicofarmacologia.

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