Max Souza é um jovem negro e periférico que, seguindo na contramão dos esteriótipos, ingressou na faculdade e tornou-se estudante de psicologia. Entretanto, passou a viver o conflito de dois sonhos: o estudo e a música. Percebendo que a música também é um estudo, a segunda opção tornou-se a primeira. Assim, Max construiu seu primeiro álbum de forma independente. Antes disso, porém, lançou o single ‘Sangue, Suor e Lágrimas’ – canção que retrata o genocídio e marginalização da população negra. A canção foi selecionada para concorrer em um festival nacional de novos talentos do rap ao lado de grandes nomes da música brasileira: Emicida, Criolo, Rael e Marechal. Agora, o jovem está concorrendo para estar entre os cinco finalistas do Sons da Rua.

Eu acredito que a cena mineira e principalmente a de Belo Horizonte está vivendo um momento muito forte de potencialização. Finalmente a gente está tendo uma visibilidade maior“, contou Max ao Cultura de Rua. Ele cita ainda outros nomes daqui como DV Tribo, Well e Mão Única, que, segundo ele, estão tendo mais respeito, tanto da galera daqui, quanto do público de fora. “Aqui realmente reina esse ditado de que santo de casa não faz milagre“. Entretanto, para o rapper, de 24 anos, essa cena está mudando. “Essa oportunidade de ir pra fora mostrar o meu trabalho gera responsabilidade mas é um resultado do reconhecimento que o rap mineiro vem tendo“.

Sua experiência no rap começou em 2007. Assim como outros nomes que abraçaram o gênero na terra do pão de queijo, seu primeiro contato foi através das batalhas de MC’s no Viaduto Santa Tereza. Mas foi em 2012 que ele decidiu se dedicar à música. “Tem uma música do Jay Z que fala que a gente morre duas vezes: fisicamente e depois quando a última pessoa que lembra de você morre. E a forma de se tornar eterno que ele fala é fazendo o seu nome se perdurar através da música

Essa ideia foi o incentivo que Max precisava após passar por uma experiência que quase resultou em sua morte. “Eu lembro do Sabotage, TuPac, Notorious Big, que são pessoas que até hoje a gente lembra e de certa forma estão vivas ainda“. Dessa forma, Max sentiu a necessidade de construir a sua obra e eternizar-se na memória das pessoas. Contudo, o artista, que nasceu e cresceu em Contagem – até mudar-se para a Capital devido aos estudos – pretende dedicar-se à música, mas não abandona o desejo de se graduar na universidade.

Reprodução/YouTube
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Sons da Rua

Em meio aos seus sonhos, o festival Sons de Rua tornou-se uma grande oportunidade. O objetivo do concurso é descobrir novos talentos da música e uni-los a artistas já renomados do rap nacional, dando oportunidade para novos compositores e intérpretes mostrarem suas obras através do rap.

Max foi selecionado através do clipe do seu primeiro single e foi convidado a fazer um show na capital paulista juntamente aos outros nove selecionados. Agora, eles concorrem para tornar-se um dos cinco finalistas escolhidos pelo público a se apresentar no mesmo palco dos artistas convidados.

É um sonho antecipado“, conta o artista, que diz estar empolgado com a chance de dividir o palco com Emicida, Criolo, Marechal, Rael e Thaíde. “Estou me preparando e vou estar preparado até lá“. A votação acontece pela internet (vote aqui). Além de Max, outros dois finalistas também representam Minas Gerais: a dupla NaFé, de Três Corações, e MC Mestiço, de Uberaba. O show dos finalistas e artistas convidados irá acontecer na Arena Corinthians, em São Paulo, no dia 12 de novembro.

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Jovens convidados a participar do clipe da canção Sangue, Suor e Lágrimas (Divulgação/Lucas Santos)
Sangue, Suor e Lágrimas

O primeiro single de Max Souza foi composto há quatro anos a pedido do movimento social ‘Levante Popular da Juventude’. A canção foi escrita especificamente para um ato contra o genocídio da população e juventude negra. Posteriormente, Max se envolveu em outros projetos como a produção cultural e a batalha de MCs, e a composição acabou ficando de lado.

Entretanto, após esse tempo, o rapper foi incentivado pela cantora Sarah Guedes a resgatar a música. E, com a participação da cantora, gravaram a canção e o clipe. “Eu vi que a música ainda tinha muito potencial, força e relevância”.

A luta do rapper é para haver mudança na visão da sociedade e do próprio povo negro, mostrando que é possível ser bem mais do que foi estabelecido indiretamente até mesmo pela própria cultura. “Devido à escravidão, a gente tem essa cultura de nunca sermos donos de nós mesmos“.

A mídia é um exemplo citado por ele como uma ferramenta que propaga essa visão limitada. “Quando a gente vai ver na televisão, não vemos nenhum empresário negro, só empregada, segurança, bandido, escravo. Eles estão afirmando de certa forma para as crianças que elas não podem ser nada além disso e eu vi que posso ser mais”.

Alter Ego

Diante de seu processo de empoderamento, Max compôs a faixa “alter ego”, que deu origem ao seu primeiro disco oficial de mesmo nome. No EP, com cinco faixas, o artista explora este processo de auto conhecimento, afirmação e domínio de si, reconhecendo suas potencialidades e limitações. O “outro eu” narrado na obra surge dessa construção de outro alguém a partir do aprofundamento em si mesmo.

O álbum foi composto sem muitos recursos financeiros. A produção aconteceu graças ao produtor musical Celson Ramos, que acreditou no potencial do músico. “O Max não só tem chance como acho que merece estar no mercado, porque em vista do que está tendo aí, eu acho que o Max é uma das grandes promessas que temos para 2017“, garantiu.

Max Souza vê no rap uma válvula de escape. “Na minha caminhada, sempre vi o rap falando de crime ou ‘tretas’ muito pesadas e eu nunca fui nem de um e nem de outro”. Diferentemente dessas ideias, as letras de artista tratam em sua maioria de conflitos, vivências e reflexões particulares. “Eu componho como uma necessidade mesmo, é mais um desabafo“.

O lançamento do álbum acontece no dia 18 de novembro, às 22h, no Soleá Tablao Flamenco (Rua Sergipe, 1199, Savassi – Belo Horizonte/MG).

Jéssica Munhoz

Jessica Munhoz é redatora do Portal Bhaz e responsável pela seção Cultura de Rua.

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