Home Notícias BH Não cobrança do imposto sindical divide sindicatos ouvidos pelo Bhaz

Não cobrança do imposto sindical divide sindicatos ouvidos pelo Bhaz

Com a reforma trabalhista em vigor, desde o último sábado (11), os sindicatos terão um difícil desafio pela frente: o de se sustentarem. Isso porque a contribuição sindical deixará de ser obrigatória, passando a ser opcional. Anteriormente, o pagamento era realizado uma vez ao ano, por meio de um desconto na folha de pagamento que equivalia a um dia de salário do trabalhador.

O Bhaz conversou com alguns representantes de sindicatos para saber qual a perspectiva deles em relação ao futuro das instituições que defendem. Para a presidenta do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, Alessandra Melo, “a situação é bem difícil”, como ela mesmo define. Ela afirma que “ainda não consegue vislumbrar” o que pode ser feito para manter a arrecadação do sindicato. “A situação está complicada, mesmo sendo um sindicato bem enxuto, com apenas cinco funcionários”, ressalta.

A não obrigatoriedade da contribuição sindical representará uma perda significativa à agremiação, conforme afirma Alessandra: “Com a verba da contribuição, nós conseguimos nos manter durante metade do ano”. Alessandra ressalta que despesas já foram cortadas no sindicato, mas que isso não é suficiente para garantir a continuidade, visto que o número de associados não é muito grande.

O desafio dos sindicatos se manterem e o de trazerem novos associados é analisado como um ponto positivo da reforma trabalhista para Wanderson Rocha, professor da rede pública de Belo Horizonte e um dos diretores do Sindicato dos Trabalhadores da Educação da Rede Pública Municipal de BH (Sind-Rede BH). “Nesse ponto da reforma, nosso sindicato não será atingido, pois nós não recebemos o imposto sindical. Pelo contrário, nós o repassamos aos trabalhadores que são e os que não são associados”, disse.

Wenderson (Sind-Rede BH) e Valéria (Sinpro) acreditam que desafio maior será para conseguir novos associados para compensar perda de receita (Maick Hannder/Bhaz + Divulgação/Sinpro)

Atrelamento dificulta negociação com o governo

Para o professor, a cobrança sindical acaba tornando algumas centrais dependentes do governo e isso dificulta a negociação dos direitos. “A aprovação da reforma trabalhista é um bom exemplo, pois várias centrais sindicais poderiam ter se esforçado mais para barrar o projeto defendido pelo governo federal”, enfatiza. “Nosso sindicato é contrário aos diversos aspectos modificados pela reforma trabalhista, mas no ponto que tange ao imposto somos favoráveis. Os sindicatos vão ter que se virar para aumentar sua base e, com isso, conseguir enfrentar os empresários e, no caso dos servidores públicos, os governos”, afirmou.

Na linha de conquistar novos associados, o Sindicato dos Jornalistas pretende realizar eventos como festas e arrecadação coletiva. Porém, Alessandra acredita que o “futuro dos sindicatos não é nada promissor”, conforme define. “Teremos o desmonte da classe trabalhadora assalariada e tudo isso é um plano do grupo que tomou de assalto o comando do país com uma pauta que não tem compromisso com o povo”, afirma.

Valéria Morato, presidente do Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (Sinpro-MG) e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB-MG), classifica a reforma trabalhista como “uma maneira de acabar com a organização dos trabalhadores”. Nessa linha, ela acredita que os sindicatos que não possuem um corpo jurídico eficiente, devido à falta de recursos, enfrentarão dificuldades para se manterem.

Entre os principais aspectos negativos da reforma, ela acredita que a possibilidade do patrão negociar diretamente com o empregado é muito ruim. “Sabemos que, isoladamente, o trabalhador não possui força para conquistar algo perante seu patrão. Por isso, faz-se necessário reafirmarmos a importância de mantermos-nos unidos enquanto sindicalizados”, opina.

“Ruim com o sindicato, pior sem ele”, diz sindicalista

Devido a não contribuição obrigatória do imposto sindical, Valéria ressalta que o Sinpro-MG tem realizado campanhas com o intuito de estimular professores a se sindicalizarem. “Durante o mês de novembro, estamos conversando pessoalmente com cada professor e apresentando a necessidade de eles se unirem ao sindicato. A resposta tem sido muito boa. Além disso, eles estão dispostos a nos ajudar com a contribuição do extinto imposto em março do ano que vem”, conta.

Valéria propõe, ainda, uma reflexão: “Atualmente, o mundo do trabalho é outro, pois o trabalhador é mais especializado. Por isso, precisamos nos readequar. Mas, isso não significa que os direitos devem ser retirados. A luta precisa continuar, para que alternativas possam ser encontradas”, concluiu.

Assim como Wenderson, Geraldo Volgal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos (Sindmet), é contrário a cobrança do imposto sindical. “Esse maldito imposto nos atrela ao governo, mas ao mesmo tempo nós precisamos dele para garantir nossa manutenção”, disse. Com a não cobrança, Geraldo acredita que os sindicatos precisarão se reestruturar. “Sindicatos de gabinete passarão dificuldades, pois é preciso atuar cada vez mais”, enfatizou.

Com o intuito de tentar a revogação da reforma trabalhista, Geraldo afirma que novas greves serão realizadas. “Precisamos ocupar as ruas, todos os trabalhadores precisam se mobilizar neste momento que enfrentamos. O canalha do Michel Temer quer nos iludir falando que com essa reforma haverá geração de emprego. É tudo balela”, resaltou.

Sobre o futuro do Sindmet Geraldo afirma que está sendo realizada uma campanha para adesão de novos trabalhadores. “Atualmente, temos 10% da nossa base sindicalizada. Queremos aumentar esse número para 30%. O trabalhador precisa ter em mente que ruim com o sindicato, muito pior sem ele”, concluiu.

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Vitor Fórneas

Vitor Fórneas

Jornalista no Portal Bhaz

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