Parece clichê

Foto: Luara Colpa

Parece clichê, mas, quando uma pessoa que você conhece desencarna, ficamos ao primeiro momento puxando na mente os momentos vividos. Mesmo não sendo um amigo tão próximo, quem sabe aquele dia em que a pessoa saiu da festa pra comprar bebida, eu não tivesse ido junto ao invés de ficar lavando a louça?

Quem sabe aquele dia louco eu não tivesse ficado rindo junto ao invés de ir embora dormir?

Vão passando algumas situações e a vontade era ter remendado a estória.

A gente olha e deseja o conforto, o bem, a leveza… E segue o fluxo natural: Aguarda o próximo… O próximo amigo, ou quase amigo, ou amigo do amigo, que a qualquer sopro… Vira estrela.

E a gente que mal tem tempo de respeitar o luto alheio, de velar um companheiro de vivência terrena… A gente que produz e trabalha, e vende a nossa força de trabalho ao capital, despedimos da lembrança que deve durar alguns segundos, e a tal da vida “segue”.

Parece que, toda vez que isso acontece, a gente lembra o tanto que somos mesquinhos, pequenos, desorganizados e superficiais. Devíamos ter dado um sorriso bonito pra pessoa, devíamos ter olhado no olho, perguntado se podia ajudar com a sacola de compras, poderíamos ter dado atenção àquela história cansativa, mas importante à pessoa…

No mundo da velocidade, estamos tão imersos em sermos desconfiados, produtivos e astutos, que ser singelo é uma falha, um produto errado no sistema.

Pois que sejamos exatamente a falha!

Que desaceleremos.

Que saibamos dar atenção, que sejamos menos competitivos no trabalho, que sejamos mais tranquilos com os amigos. Que os tratemos bem.

Que tenhamos paciência com os nossos pais que a cada dia envelhecem, e com nossos avós então nem se fala!

Que voltemos um quarteirão e possamos acenar para o guarda, para o segurança, o faxineiro, o jardineiro, a caixa do supermercado, que antes de botar as compras na mesa dela, a gente diga bom dia e olhe nos olhos.

Que o sorriso prevaleça: para o motorista, o trocador, o colega de trabalho, o chefe!

Que a velocidade não nos alcance, que haja tempo para um vinil, um café, um mochilão, um reencontro.

Que cada abraço seja intenso, revolucionário!

Que o “muito obrigada” ao garçom tenha contato visual… Que os tios saibam que são amados, que os primos sequer titubeiem… Que os irmãos sejam extensão do corpo, e que os pais estejam em nossas agendas para experimentar o que não viveram, nem que seja um caldo de cana e uma coxinha engordurada do centro da cidade num dia de chuva. Para eles reclamarem que você só come porcaria nessa vida…

E rirmos.. Da coxinha, da chuva, da vida.

Que a gente dê a mão para um amigo(a) do mesmo sexo na rua, sem receio dos olhares homofóbicos e sorria logo após. E que, na hora do sorriso, entre o dente do outro apareça o chiclete verde, pra dizermos “Você é feio demais!”…

E rirmos de novo dessa bobagem.

Vamos topar uma viagem com quase-amigos, vamos nos conhecer, vamos evitar falar mal do outro… E do outro… Combinar elencar qualidades naquela pessoa ali que está em ascensão no trabalho, no novo líder do movimento, sem inveja.

Vamos ligar para o(a) ex e dizer que tá tudo ok, que a ferida curou, que sobrou carinho de uma época boa, e que desejamos sorte, amor, vida nova, ternura!

Que paremos de expor o camarada vacilão “nos corredores”, mas puxemos uma cadeira, sentemos e de frente dialoguemos. Sujeitos a perdoar e a sermos perdoados.

Vamos tentar ser um tiquinho mais otimistas – no entanto lúcidos.

E que nos organizemos, nos entendamos enquanto uma classe que precisa estar unida para sobreviver. E que venha a paz entre nós!

Parece clichê, mas às vezes a morte existe pra nos lembrar que as mãos têm função além de digitar nesse teclado medíocre!

Gratidão por essa passagem (que é aqui) e pelo retorno tranquilo – privilégio de ninguém – no único ato realmente democrático: Partir!!!

Que não a partida, mas a vida: Seja inteira leve!!

Foto: Luara Colpa
Foto: Luara Colpa

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Luara Colpa
é brasileira, tem 29 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.

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Luara Colpa

Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.