‘Cabeleleila Leila’: Salão de beleza surfa em meme com prática racista blackface

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Vídeo com modelo branca usando peruca crespa e maquiagem de tom mais escuto repercutiu negativamente (Reprodução/Twitter)

Um salão de beleza localizado na cidade de Indaial, em Santa Catarina, foi alvo de críticas nessa semana após divulgar um vídeo em que uma modelo branca veste uma peruca de cabelo crespo e aparentemente usa maquiagem de tom mais escuro para enegrecer a pele. O vídeo, uma reprodução do meme Cabeleleila Leila, seria “apenas uma brincadeira”, segundo o proprietário Diego dos Anjos, mas acabou rendendo uma onda de comentários negativos e levantou – novamente – a discussão sobre o blackface.

“Blackface não é engraçado, a gente tá em 2020. Usar peruca assim e se pintar de escuro além de ser extremamente escroto é racista”, comentou uma usuária no Twitter. Outras pessoas observaram que o feed do Instagram do salão “LD Beauty Services” é composto, majoritariamente, por pessoas brancas com cabelo liso ou ondulado, mas que, para “fazer piada, bota um black”.

Pedido de desculpas

Com a repercussão negativa do vídeo, o salão de beleza LD Beauty Services publicou um vídeo com o proprietário Diego dos Anjos e a modelo Giulia pedindo desculpas.

“A gente fez um vídeo na internet que era pra ser uma alegria, uma brincadeira, e virou isso que todo mundo já está sabendo. A gente veio aqui pra realmente pedir desculpas, se retratar diante de vocês. Não foi com intenção alguma, mas a gente entendeu o lado das pessoas que se ofenderam, no seu direito. A gente não está aqui para ofender ou magoar qualquer tipo de pessoa”, declarou Giulia.

“Nós somos seres humanos, nós temos o direito de errar. Aprendemos muito com isso que aconteceu. Esse vídeo jamais foi pra ofender, por alguma coisa de preconceito, nada gente, de coração”, disse Diego. “Eu amo seres humanos, indiferente de cor, indiferente de qualquer coisa. Eu amo o espírito, eu amo a energia que há dentro dele. Então não tem por que estarem falando que a gente é racista, vocês não conhecem nós”, continuou.

Confira o posicionamento completo:

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Oi, pessoal! Sou Diego dos Anjos e gravei esse vídeo com a intenção, única e exclusiva, de me retratar. Vim pedir PERDÃO! Perdão à todos que se sentiram ofendidos. Apesar de, para mim e Giulia ter sido apenas uma brincadeira, a princípio, após entender melhor, posso dizer que sim, eu sinto sua dor! Eu, como homossexual já passei por muitas situações em que me senti inferiorizado e marcas assim, são as que ferem a alma. Jamais faria, propositalmente, qualquer pessoa se sentir assim, pois sei o quanto dói. Hoje, foi um dia muito importante para mim/nós, dolorido, mas de muito aprendizado. Eu respeito a luta de vocês. E nós, me incluindo também como uma minoria, sabemos o quão árduo é o nosso caminho e o quanto lutamos pela nossa dignidade e direitos. Repito, em nenhuma hipótese pensei em desrespeitar alguém ou ferir a moral de alguém. Mais uma vez, eu estou aqui pedindo o perdão de todos e deixando claro, que mais do que nunca, todos os tipos que há sobre piadas maldosas disfarçadas de humor, serão, por mim, a partir de hoje, aniquiladas e eu prometo que levarei o meu aprendizado de hoje por toda a vida, e também, para todas as pessoas, que assim como eu, veem humor em algo que a nossa cultura, retrograda, nos ensinou a levar como “humor”. Finalizando, hoje, realmente aprendi na dor e, de todo o meu coração, espero que todos nós na vida cheguemos a um reconhecimento novo e aprofundado dessa também dor, causada pelas nossas condutas. De alma errante, mas em constante evolução, para almas também errantes ?

Uma publicação compartilhada por LD Beauty Services (@ldbeautyservices) em

Black Face

O vídeo publicado pelo salão de beleza se caracterizado por uma prática racista chamada blackface. “É o “nome dado para a caracterização de personagens do teatro com estereótipos racistas atribuídos aos negros. Na tradução literal do inglês, blackface significa ‘rosto negro’, em português”, explica o portal Geledés, referência na publicação de artigos referentes ao movimento negro.

“Os blackfaces surgiram no começo do século XIX nos Estados Unidos, como uma das atrações dos Minstrel Shows (shows de menestréis ou jograis), que eram bastante populares naquela época. Os atores brancos utilizavam carvão de cortiça e outras tintas para pintar os seus rostos de preto, com exceção dos olhos e lábios (estes eram realçados com uma coloração vermelha intensa)”, complementa a publicação.

A intenção da prática, ainda segundo Geledés, era “representar personagens afro-americanos, satirizando e ridicularizando de modo extravagante os negros que, normalmente, eram apresentados com personalidades pejorativas (como ignorantes, bêbados, vadios e etc)”.

Ao jornalista André Duchiade, do jornal O Globo, a professora de história da UFF (Universidade Federal Fluminense) Ynaê Lopes dos Santos explicou que “essa foi uma das práticas que ajudaram a criar uma imagem da população negra que não só a caracterizava esteticamente de forma não bela como a ligava a práticas criminosas, numa lógica que, infelizmente, se perpetua até os dias de hoje”.

“Para a população negra, a prática sempre foi vista como extremamente racista. No entanto, apenas na década de 1960, quando a luta dos negros pelos direitos civis se tornou mais intensa, a prática começou a ser vista como altamente preconceituosa não só entre a população negra”.

Moisés Teodoro
Moisés Teodoromoises.santos@bhaz.com.br

Repórter no BHAZ desde janeiro de 2020, além de Social Media e Fotógrafo desde abril de 2019. Formado em Publicidade e Propaganda no Centro Universitário UNA. Escreve no portal com foco nas editorias de Cidades e Variedades, além de fotografar em coberturas de grandes eventos.