E-mail revela que Flamengo sabia de ‘gambiarras’ elétricas no Ninho

fãs prestam homenagem às vítimas do incêndio no ninho do urubu
Dez jovens morreram após um incêndio provocado por um curto-circuito no CT (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Nove meses antes do incêndio que tirou a vida de dez atletas da categoria de base do Flamengo, o clube já sabia dos riscos oferecidos pela instalação elétrica do Ninho do Urubu. Trocas de e-mails divulgadas pelo UOL revelam que o curto-circuito em um dos aparelhos de ar-condicionado do CT (centro de treinamento), que provocou o acidente em 2019, poderia ter sido evitado.

As mensagens enviadas pelos responsáveis pelo CT aos dirigentes do Flamengo mencionavam “não conformidades” e “gravidades” na estrutura do Ninho do Urubu e apontavam para uma situação “de alta relevância e grande risco”. Os e-mails foram enviados após uma inspeção feita por um técnico de segurança do trabalho do clube no local.

O relatório técnico desenvolvido após a inspeção continha dez imagens que mostravam a precariedade das instalações elétricas no Ninho, ressaltando o que são chamadas de “gambiarras” no quadro elétrico atrás do alojamento da base, onde o curto-circuito ocorreu.

“Conforme a avaliação do Sr Adilson e relatório anterior, a situação é de alta relevância e grande risco, ficando este de apresentar uma proposta ao Sr. Luiz Humberto para atendimentos emergenciais de alguns pontos: quadro elétrico (poste ao lado do refeitório), disjuntores e fiação no jardim, quadro elétrico atrás do alojamento da base”, alertou o relatório enviado ao gerente de administração do Flamengo, Luiz Humberto Costa Tavares, e a outros dois funcionários, no dia 11 de maio de 2018.

‘Não serão tratadas’

A observação final feita no relatório evidencia a decisão do clube de não lidar com os problemas elétricos no Ninho do Urubu naquele momento. “As irregularidades abaixo não serão tratadas no momento, pois, conforme informação, o local será demolido e substituído por novas instalações até o final do ano de 2018, deixando claro que caso haja fiscalização e autuação o argumento mesmo que evidente não justifica a irregularidade, ficando a critério do órgão fiscalizador a penalidade ou intervenção”, diz a conclusão.

A observação partiu de uma convicção de que o Flamengo cumpriria o objetivo de fazer um novo CT para a base e substituir todas as instalações elétricas ainda em 2018, o que não aconteceu. No dia 12 de maio de 2018, o gerente Luiz Humberto, que recebeu o relatório, repassou o documento ao diretor executivo de administração do Ninho do Urubu, Marcelo Helman.

“Sá achou por bem solicitar que o Adilson (engenheiro eletricista que fez a instalação elétrica do CT – que você conhece) acompanhasse para verificar a real situação e elaborasse, caso seja necessário, um primeiro orçamento para colocarmos as instalações elétricas em dia. Após o envio desse primeiro orçamento, pediremos outros mais para compor quadro de concorrência”, diz um trecho do e-mail.

A empresa que fez a inspeção enviou um orçamento para fazer os reparos em até 10 dias, por R$ 8.550, e chegou a emitir notas fiscais após ser contratada, mas o trabalho nunca foi feito. Após pagar pelo serviço e não recebê-lo, o Flamengo não providenciou os reparos e os problemas elétricos continuaram. Os jovens continuaram expostos às “não conformidades” da estrutura até fevereiro do ano seguinte, quando o incêndio tirou a vida dos dez “Meninos do Ninho”.

Edição: Aline Diniz
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.

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