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Sobre cachaça, Alvorada e tradições

Sobre cachaça, Alvorada e tradições

27/06/2024 às 08h51
Casa Alvorada, uma brilhante collab entre a Cachaçaria Lamparina e o Café Jetiboca.

São vários os sinais: A apreciação da comida armazenada em estufa, a valorização do ambiente de mercearia, o retorno ao centro da cidade e toda a atual confusão da utilização da palavra raiz. Vivemos uma era de resgate das nossas tradições.

E não é de agora: Acredito que pelo menos nos últimos 10 anos Belo Horizonte tem tentado contar melhor sua história e valorizar um pouco mais seu comércio e suas tradições, se valendo também do título de “capital dos bares”.

O curioso é que um dos nossos principais elementos culturais ainda não participa como protagonista desse resgate: A cachaça. Com tantos anos de preconceito para superar, parece que a estrada ainda será longa. Afinal de contas, pensa comigo: cachaceiro é xingamento, cervejeiro é profissão.

Os primeiros haters da pinga apareceram em 1649, na figura da própria Coroa Portuguesa. Eles simplesmente proibiram a comercialização da bebida, porque o sucesso do destilado de cana foi tão grande, que a importação de vinhos portugueses sofreu um acentuado declínio.

Ainda que nossa bebida tenha sido símbolo da luta pela independência do Brasil mais à frente, em meados do século XIX a elite voltou a rejeitar a cachaça, relegando-a ao status de bebida de segunda. Essa rejeição vem em um momento onde a tal elite tentava se aproximar de hábitos e produtos europeus, rejeitando elementos culturais de origem brasileira (Apesar de parecer muito com os dias atuais, estamos falando de 1800 e tanto).

Uma porção de linguiça acompanhando ótimos rótulos de cachaça, na Casa Alvorada.
Uma porção de linguiça acompanhando ótimos rótulos de cachaça, na Casa Alvorada.

E essa rejeição se mantém. Nas mesas dos bares que visitamos, cervejas artesanais de produções diversas: Receitas belgas, ingredientes raros e harmonizações complexas. É comum também encontrar gin, tão difundido pela fama de destilado menos calórico, que vem sempre acompanhado de ervas, especiarias e espumas doces. O vinho está presente com uma seleção (ainda que tímida) de garrafas escolhidas por um sommelier – que os casais escolhem sempre a segunda mais barata, pra não parecer que estão tão pobres assim.

E a cachaça? Quando muito vemos 3 opções de dose, incluídas ali no final do cardápio e que atraem a atenção somente dos mais ávidos pela farra ou dos que buscam punir o aniversariante puxando um “Vai virar sim!”.

Apesar disso, essa não é uma crítica aos bares. O comerciante tem todo o direito de vender aquilo que tende a sair mais. Trabalhar com produtos nobres que tem pouca saída é sempre um risco. Mas ao mesmo tempo, se não existem boas opções de cachaça no cardápio, uma nova era de interessados não será formada. É a velha história do ovo e da galinha, e é por isso que saí tão satisfeito da Casa Alvorada.

Eu feliz com uma porção de torresmo e um drink à base de cachaça, na Casa Alvorada.
Eu feliz com uma porção de torresmo e um drink à base de cachaça, na Casa Alvorada.

Na minha visão, a Casa Alvorada presta um belo serviço à sociedade belo-horizontina, trazendo luz à segunda bebida mais consumida no país. Não que eles tenham descoberto a cachaça, óbvio que não. Mas talvez sejam a única casa em BH com condições de influenciar o público jovem quanto ao bom, consciente e interessante consumo da cachaça.

Essa condição de influência vem desde a fundação da Casa: Ela é uma collab, um feat, uma junção de trapos (como queiram chamar), entre dois negócios de BH: O Café Jetiboca e a Cachaçaria Lamparina. Ambos os negócios estão entre os primeiros a participar do processo de revitalização do Mercado Novo. O Jetiboca, inclusive, faz parte da “Família Viela”, dona de belíssimos projetos como o Juramento, Cozinha Tupis e Forno da Saudade. A Cachaçaria Lamparina peitou a briga da cachaça primeiro, e segue bem em alta tendo criado um dos drinks prontos mais queridos da cidade atualmente: O Marvadeza.

Viram um no outro sinergia maior que apenas o compartilhamento de copos lagoinha, uma vez que um café e um bar ocupam muito bem o mesmo espaço: Um abre cedo e o outro fecha tarde.

Ter um bar onde todos os drinks têm a cachaça como estrela é um risco na própria essência. Mas com o sucesso e relevância adquiridos no primeiro ano, podemos dizer que a Casa Alvorada encontrou seu lugar na cidade.

Algumas das várias cachaças servidas na Casa Alvorada.
Algumas das várias cachaças servidas na Casa Alvorada.

Quando passarem por lá, não deixem de pedir O Mochica, drink que mais gostamos. Feito pela mixologista Laiz Andrade, ele é a união da cachaça Dama da Noite com manga, coentro e gengibre. Delicioso. Outra boa ideia é contar com a ajuda dos funcionários para escolher um rótulo de pinga local que lhe interesse para beber como se deve: Pequenas bicadas de tempos em tempos, sem engolir tudo de uma vez. Intercale com uma água e um petisco, para limpar o paladar. Além de contribuir para o resgate de um elemento cultural relevante nosso, você estará fazendo um bem a si mesmo. Tenho certeza de que você vai gostar de ser cachaceiro.

Quer aprender mais sobre cachaça? Em julho acontece mais uma edição da Expocachaça. Veja detalhes aqui.

Editado por: Pedro Costa

Pedro Costa

Deixou a carreira de gerente comercial para se dedicar totalmente a sua paixão: O universo da gastronomia. À frente de bares e projetos do ramo, é belo-horizontino com o maior orgulho possível, cozinha por gosto e também por obrigação e não dispensa uma boa festa.
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Email: pedrobcosta@live.com

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