Por definição, ela é um eletrodoméstico que serve para manter comida aquecida. Sempre teve muita utilidade em bares com estrutura mais simples, principalmente onde o dono frita, serve, atende e cobra a conta. Com a estufa ele pode fazer os preparos antes do bar abrir e mantê-los ali, ganhando agilidade no seu próprio serviço.
Mas o que levou tantos bares novos, com estrutura de equipe maior, a também trabalharem com estufa?
O mercado da nostalgia está em alta. Da moda ao bar. E aí é natural que coisas como estufa e balcão tenham caído novamente no gosto do brasileiro. Em BH, essa valorização do simples – ou do que parece simples – vem escalando nos últimos 10 anos. Dizem que a insegurança causada por tempos de muita mudança, fazem com que a humanidade precise se apegar às tradições, ao que é seguro. Vai ver é isso mesmo.
Atentos aos movimentos de mercado, empreendedores planejam seus estabelecimentos para entregarem essa impressão de memória afetiva. E é legítimo que o façam. Negócios existem para que as pessoas frequentem. Se o que vai fazer os clientes visitarem meu bar é ter comida exposta em uma vitrine quentinha, bora lá. E não é nem só a estufa que entra nesse resgate: Ambiente simples, azulejos, projetos em imóveis tombados, balcões, batidinhas e outros elementos compõem essa ambientação, digamos, raiz.

Outro motivo que vejo para o retorno triunfal da estufa é a economia do país estar capenga há tanto tempo. Com a queda constante do nosso poder de compra, muitas vezes nos vemos diante de uma escolha à mesa: Ou eu como ou eu bebo. O bar que trabalha com estufa tem maior flexibilidade para servir tamanhos diferentes de porções, possibilitando que os clientes consigam comer gastando menos (Mesmo que isso signifique dar menos bocadas). Fenômeno semelhante aconteceu há uns 13 anos quando tivemos um boom de espetinhos na cidade. De repente, por dez reais, você não mais passava o happy hour de barriga vazia.
E agora vemos de tudo: Temos bares onde a estufa atua como vice-presidente: É meramente decorativa. Pode até ter algumas coisas nela, mas o que é servido sai direto da cozinha. É a hype pela hype. Em outros bares, você acaba vendo o contrário: Tudo está na estufa. Isso também não funciona: Apesar de servir como vitrine, não é qualquer alimento que fica gostoso e bem preservado ali. E no meio disso tudo surgiu também a estufa fria. Embora a lógica traia a própria definição de estufa, apresenta certa razão de ser, devido à necessidade de se manter frias algumas preparações.
A estufa também reduz outros custos do estabelecimento, como cardápio. Se está tudo ali exposto, o bar não precisa mais investir em fotos e impressões de cardápios para que os consumidores saibam o que pedir. A própria aparência do rango já dá conta da função (ou não). Mas tal economia vem com uma responsa: Um ensaio fotográfico até pode dar uma enganada, mas seus olhos dificilmente serão traídos pelos comes que repousam na estufa.

E por fim, é preciso falar de outro personagem na cena que é o defensor dos bons costumes: Acha um grande absurdo que bares que inauguraram pós anos 2000 tenham estufa, como se essa fosse um direito de bares antigos, garantido pela constituição. Se consideram baluartes da boemia belo-horizontina e saem por aí carimbando os bares como RAIZ ou MODINHA. Ironicamente, esses defensores dos bons costumes agem como quem eles mesmos julgam: Veneram um eletrodoméstico, atribuindo à estufa algum tipo de símbolo da resistência. O freezer é até mais importante para o bar, mas você não vê ninguém fazendo post pra ele nas redes sociais. Pobre freezer.
Acho isso tudo uma grande besteira. Todo mundo deveria pode ter sua estufa feliz, a única coisa que um bar não deveria fazer é servir comida ruim. Para além da discussão de estufa, modinha e raiz, esse é o único pecado na gastronomia que ninguém deveria cometer.
Confira essa lista do Portal BHAZ de bares com estufa.
E abaixo você confere uma resenha do UBS sobre um dos bares com estufa mais clássicos da cidade: O Serrotinho’s:
















