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Colunas

Os bondes e a nossa (des)memória urbana e arquitetônica

13/11/2025 às 07h47 - Atualizado em 15/01/2026 às 20h37
Bonde elétrico na Rua da Bahia, esquina com Av. Augusto de Lima, cerca de 1910, em frente ao antigo Grande Hotel (atual Ed. Maletta). (Crédito: Arquivo Público Mineiro / colorizada).

Em incontáveis cartões-postais antigos, os charmosos bondes elétricos — símbolo de modernidade no transporte público — compuseram a paisagem urbana de Belo Horizonte, junto a ruas e avenidas ladeadas pela exuberante arquitetura dos antigos casarões, palácios e templos, além das estações e abrigos criteriosamente projetados para o embarque e desembarque de passageiros. Fosse uma cidade mais afeita à sua memória, como Lisboa ou Milão, a capital montanhesa teria preservado mais do que fotografias dessa ancestral estrutura de transporte e, assim, não teríamos perdido o bonde da memória urbana e arquitetônica.

Na capital mineira, os bondes circularam entre 1902 e 1963. No auge desse importante serviço urbano, os trilhos espalhados pela cidade chegaram a atingir a incrível extensão de 73 km, alcançando bairros distantes das estações centrais, como Pampulha, Gameleira, Santo Antônio, Floresta e Renascença.

Cruzar a cidade nos bondinhos era mais do que um simples ir e vir na azáfama do dia a dia. O ritmo cadenciado dessas viagens permitia transcender a mera locomoção mecânica, possibilitando desde autênticos passeios arquitetônicos com a brisa no rosto até a busca do par amoroso, como bem descreveu o notável memorialista mineiro Pedro Nava em seu precioso Balão Cativo:

Esses trajetos eram extremamente românticos e permitiam aos namorados passar e repassar nas casas das eleitas janelando; multiplicar essas passagens mediante trajetos retomados quando os via Bahia e via Afonso Pena se encontravam nos abrigos.

E foi nesse antológico cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia, mencionado por Nava, que se escreveu um dos mais interessantes capítulos dessa memorável experiência dos trilhos em Belo Horizonte. Para essa esquina, na extremidade do Parque Municipal, o arquiteto Francisco Izidro Monteiro projetou a nossa primeira estação de bondes — uma autêntica pérola arquitetônica em estilo eclético, de esmerada ornamentação — que se tornou uma referência no primeiro eixo cultural da cidade, a Rua da Bahia. Em 1910, ano seguinte à sua inauguração, a estação recebeu uma esmerada torre central, onde se instalou o segundo relógio público da cidade.

Cartão-postal dos anos 1910 da Estação de Bondes da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia (Parque Municipal). (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Não por acaso, o icônico Bar do Ponto, local de encontro de muitos jornalistas, políticos e escritores da cidade, recebeu seu nome em referência àquela bela estação situada na esquina oposta, que foi um ponto fervilhante de embarque, desembarque e baldeações das linhas da cidade. Aliás, uma das mais glamourosas linhas foi a da Rua da Bahia, que passava por locais emblemáticos da vida cultural e boêmia da cidade, tais como o próprio Bar do Ponto, o Cine Odeon, o Teatro Municipal, o Bar Trianon, os cafés Paris e Estrela, as livrarias Francisco Alves e Itatiaia, além das redações dos grandes jornais e revistas.

Registro de 1920: bonde em frente à edificação que abrigou o Palácio Hotel e, no térreo, o icônico Bar do Ponto — onde hoje se encontra o prédio do Othon Palace. (Crédito: Arquivo Público Mineiro / Colorizada).

Com a ampliação das linhas e da quantidade de bondes, a municipalidade construiu, em 1926, na mesma esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua da Bahia — desta feita no canteiro central da avenida, em frente à estação existente — um elegante abrigo de passageiros em estilo eclético, nitidamente inspirado na sobriedade neoclássica. O movimentado abrigo, projetado por Ildeu Ramos de Lima, destacava-se por suas 20 colunas toscanas, que sustentavam uma cobertura plana de concreto cujo teto possuía pinturas e ornatos.

O abrigo de passageiros do canteiro central da Av. Afonso Pena, na esquina com a R. da Bahia, em 1930. (Crédito: B.H., de Curral del Rei à Pampulha / Colorizada).

No final da década de 1930, a centralidade da cidade deslocou-se para a Praça Sete, acompanhando o sistema de transporte público. O local passou a abrigar, em 1937, duas estações de bondes no canteiro central da Avenida Afonso Pena, uma de cada lado da praça. Os tempos eram outros, e a estética arquitetônica também: as novas estações foram concebidas pelo ilustre arquiteto Raffaello Berti, em linhas modernizantes do estilo Art Déco. Nesse momento, a cidade criava dois novos marcos urbanos ligados ao seu sistema de bondes.

O novo centro nevrálgico da capital, que secundarizou a velha estação da Afonso Pena e o seu bar vizinho, foi narrado com um poético lamento pelo jornalista Astoupho Gazolla, da Revista Bello Horizonte, em junho de 1937:

O Bar do Ponto morreu. Coitado do Bar do Ponto! Foram os bondes que o mataram. Os mesmos bondes que lhe deram vida. Eles não quiseram mais saber do Bar do Ponto. Foram morar na Praça 7. O Bar do Ponto estava velho e feio. A praça 7 é moça e bonita. E tem pirulito e cinema. E, também um círculo grande, onde os bondes brincam de roda. De ciranda, cirandinha…

Abrigo de bondes da Praça Sete, no canteiro central da Av. Afonso Pena, em 1937. (Crédito: Biblioteca Nacional – Revista da Semana / Colorizada).

Pouco tempo depois, em 1950, a despeito de suas extraordinárias qualidades construtivas e arquitetônicas, as duas estações da Praça Sete foram demolidas para ceder espaço ao fluxo cada vez maior de veículos movidos a combustão — era o início da avassaladora cultura automobilística na cidade! Assim, as linhas de bonde passaram a contar com duas novas estações na Praça Rio Branco, erguidas no estilo modernista que se impunha na cidade no período pós-Pampulha. No início dos anos 1960, após a desativação completa do sistema de bonde em BH, essas estações também foram demolidas.

Cartão-postal do final dos anos 1950, destacando, em primeiro plano, uma das estações de bondes da Praça Rio Branco e a Av. Afonso Pena toda arborizada com fícus. (Crédito: Cartão-postal / Colorizada).

Contudo, antes de sucumbir por inteiro, o sistema de bondes em BH ainda veria a implantação de nova iniciativa modernizante pelo poder público municipal. Em 1947, a mais antiga estação da capital — a que ficava em frente ao Bar do Ponto — foi demolida para dar lugar a outra, mais ampla, que adotou a estética da curva. A nova estação foi construída logo em seguida, com projeto modernista do arquiteto mineiro Tarcísio Silva, formado pela Escola de Arquitetura de Belo Horizonte. Posteriormente, por seu valor histórico e arquitetônico, a estação foi poupada da extinção, pois foi tombada pelo patrimônio cultural do município. Atualmente abriga o Centro de Atendimento ao Turista, Sesc Mercado das Flores.

Estação construída nos anos 1950, no lugar da antiga estação de bondes da Av. Afonso Pena com a R. da Bahia, atual Centro de Atendimento ao Turista – Sesc Mercado das Flores. (Crédito: Sesc MG / Reprodução).
Nos trilhos da utopia

Em 30 de junho de 1963, os bondes circularam pela última vez na capital mineira, enterrando de vez a longa e fascinante trajetória desse meio de transporte. Lamentavelmente, pouco nos restou dessa época de ouro. Além da estação da Av. Afonso Pena com a R. da Bahia, temos apenas outro remanescente — um dos bondes da linha Padre Eustáquio —, que está exposto no pátio do Museu Histórico Abílio Barreto.

No entanto, temos que lembrar que as utopias nos movem para o futuro, ainda que no sentido de resgatar o nosso passado. Sendo assim, seria salutar imaginarmos que o bonde do museu voltasse aos trilhos urbanos e — parafraseando Rômulo Paes — tornasse a subir Bahia e descer Floresta. Na verdade, ampliando a utopia, poderíamos, a partir do bonde remanescente, fabricar uns quatro similares, distribuindo suas peças históricas entre os novos veículos. Para vislumbrarmos tal imaginação, a imagem simulada abaixo cumpre bem esse papel!

Foto modificada por IA, simulando o retorno do bonde do Museu Abílio Barreto à Rua da Bahia (com calçamento de pedra), diante do sobrado da antiga Livraria Francisco Alves. (Crédito: Ulisses Morato).

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato

Email: ulisses.phd@gmail.com

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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