O El Niño que está se intensificando no Oceano Pacífico pode se tornar o mais forte desde 1950 e provocar mudanças nos padrões de temperatura e chuva em Minas Gerais. A previsão foi apresentada pela Defesa Civil Estadual nesta terça-feira (20), durante encontro com jornalistas na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte. Segundo o órgão, os efeitos do fenômeno podem atingir diferentes setores, como saúde, agricultura, pecuária, energia e economia.
De acordo com Romero Wanzeler, meteorologista do Centro de Inteligência em Defesa Civil de Minas Gerais (Cindec-MG), as projeções indicam temperaturas entre 1°C e 2°C acima da média em todo o estado. Os efeitos, porém, não devem ser iguais em todas as regiões: enquanto parte do território mineiro pode enfrentar períodos de estiagem e chuvas abaixo do esperado, outras áreas estão sob maior risco de temporais.
Durante a apresentação, o meteorologista afirmou que as projeções mais recentes apontam uma probabilidade entre 80% e 90% de o fenômeno alcançar a categoria superforte. O período entre a primavera e o verão, incluindo dezembro, janeiro e fevereiro, concentra a preocupação com possíveis impactos mais expressivos sobre as temperaturas e as precipitações.
Onde pode fazer mais calor em Minas?
As maiores anomalias de temperatura, de acordo com os modelos climáticos apresentados pela Defesa Civil, são esperadas no Norte de Minas, no Noroeste e no Triângulo Mineiro. Nessas regiões, o calor acima da média pode agravar a perda de umidade do solo e aumentar a pressão sobre a disponibilidade de água.
No Sul, no Sudeste, no Campo das Vertentes e na Zona da Mata, a tendência também é de temperaturas acima do padrão climatológico, com anomalias geralmente em torno de 1°C.
O cenário aumenta a preocupação com episódios prolongados de calor e com a ocorrência de períodos de baixa umidade relativa do ar. Segundo Wanzeler, as temperaturas elevadas também podem ampliar o risco de incêndios florestais e o desconforto térmico da população.
Norte de Minas pode ter estiagem; outras regiões estão sob risco de temporais
A previsão para as chuvas é heterogênea. O Norte, o Noroeste e o Vale do Jequitinhonha podem enfrentar atraso no início do período chuvoso, além de precipitações abaixo da média. A situação pode favorecer veranicos, estiagens e déficit hídrico.
Em contrapartida, os modelos apontam possibilidade de chuvas acima da média no Triângulo Mineiro, no Sul e Sudoeste do estado, na Zona da Mata e na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Nessas áreas, a preocupação é com a concentração das precipitações em temporais, que podem provocar enxurradas, alagamentos, inundações e deslizamentos de terra. Os eventos representam um desafio adicional para os centros urbanos, sobretudo em áreas vulneráveis a desastres hidrológicos e geológicos.
O meteorologista ressaltou que as projeções representam tendências médias para determinados períodos, e não significam que uma região terá chuva acima ou abaixo da média durante todos os meses. O acompanhamento contínuo das condições atmosféricas será necessário para atualizar os cenários e orientar as ações de prevenção.
Risco depende das vulnerabilidades de cada região
O coordenador estadual de Defesa Civil, coronel Paulo Rezende, afirmou que os efeitos do El Niño exigem um monitoramento que considere as características de cada município. Segundo ele, o fenômeno climático, isoladamente, não determina a ocorrência de um desastre. O risco aumenta quando as condições climáticas encontram vulnerabilidades locais.
“Na verdade, a gente faz um monitoramento porque o risco varia. O risco, eu lembro, não é o fenômeno climático, é quando ele encontra vulnerabilidade”, explicou.
Rezende citou as diferenças entre Juiz de Fora, onde o risco geológico é uma das principais preocupações, e Ubá, onde enxurradas e inundações representam ameaças importantes. Já no Norte de Minas, os riscos estão associados principalmente à seca, à falta de água e ao calor extremo.
Por isso, segundo o coordenador, os municípios precisam mapear as áreas vulneráveis e elaborar planos de contingência para evitar que sejam surpreendidos por desastres.
A Defesa Civil também destaca a necessidade de preparar as comunidades que vivem em áreas vulneráveis, especialmente aquelas onde a ocupação desordenada do solo aumenta a exposição a deslizamentos e outros eventos. Para Rezende, o trabalho precisa envolver não apenas os agentes de defesa civil, mas também profissionais de assistência social, psicologia e redes de acolhimento.
El Niño pode afetar saúde e economia
Além dos riscos associados às chuvas intensas e à estiagem, o aumento das temperaturas pode ter reflexos em diferentes atividades. Na saúde, o calor prolongado e a baixa umidade podem intensificar o desconforto térmico e agravar os efeitos da exposição a condições climáticas extremas.
Na agricultura e na pecuária, a irregularidade das chuvas e a perda de umidade do solo podem prejudicar a produção e aumentar a demanda por água. Já os setores de energia e economia podem sofrer efeitos relacionados às condições climáticas, embora a dimensão desses impactos dependa da evolução do fenômeno e das particularidades de cada atividade.
Defesa Civil anuncia preparação e investimento
Entre as medidas de preparação, Rezende destacou a mobilização de quase mil agentes municipais em diferentes regiões de Minas Gerais. A Defesa Civil realiza reuniões de atualização duas vezes por semana para compartilhar informações meteorológicas com as equipes regionais e os coordenadores municipais.
O objetivo é fazer com que os profissionais que atuam diretamente nas cidades recebam as informações com antecedência e consigam orientar a população. Na prevenção aos efeitos da estiagem, o Estado prepara um contrato para a distribuição de água por caminhões-pipa. Segundo o coronel, a assinatura estava prevista para a semana seguinte ao encontro, como parte das medidas de enfrentamento ao El Niño.
Rezende também informou que a Defesa Civil conseguiu captar mais de R$ 90 milhões em recursos no último ano, provenientes de diferentes fontes. Segundo ele, o dinheiro permitiu ações como a instalação do Centro de Inteligência, a distribuição de viaturas, o treinamento de agentes regionais e o fortalecimento da rede de distribuição de ajuda humanitária.
O coordenador ressaltou que a preparação para eventos climáticos extremos depende de investimentos e articulação entre diferentes áreas do governo, incluindo infraestrutura, saúde e agricultura.
A integração é importante porque os efeitos do fenômeno ultrapassam a atuação direta da Defesa Civil. Enquanto o órgão fornece informações sobre a previsão do tempo e os riscos associados, outras áreas podem avaliar as consequências para suas respectivas políticas públicas, como a ocorrência de doenças relacionadas às condições climáticas e os impactos sobre a produção agropecuária.
Como a população pode se proteger?
Rezende também pediu que a população não minimize os alertas emitidos pela Defesa Civil. Segundo ele, muitos acidentes poderiam ser evitados com atitudes simples, como evitar deslocamentos durante temporais e não tentar atravessar ruas alagadas ou cursos d’água.
O coordenador citou casos de mortes em períodos chuvosos envolvendo pessoas que entraram em áreas inundadas ou tentaram atravessar cursos d’água, mesmo diante dos riscos. “Na nossa experiência de Defesa Civil, a gente sabe que a maioria dos óbitos são por causa de minimizar o potencial do risco, do não acreditar que aquilo pode tirar a vida da pessoa”, afirmou.
A orientação é acompanhar os avisos oficiais, respeitar as recomendações de segurança e conhecer os riscos existentes na região onde se mora. Uma das ferramentas disponíveis é o serviço de alertas por SMS. Para receber as mensagens, o morador deve enviar o CEP da residência para o número 40199. O sistema permite o envio de avisos relacionados à área cadastrada.
Também há alertas enviados diretamente aos celulares em situações de risco, por meio da tecnologia de transmissão de emergência. Segundo a Defesa Civil, a população deve levar essas notificações a sério e evitar comportamentos que possam colocar vidas em perigo.
Quando o El Niño deve perder força?
As projeções apresentadas pela Defesa Civil indicam uma possível transição gradual a partir do outono de 2027. Para o trimestre de abril a junho do próximo ano, os modelos apontam a possibilidade de retorno às condições de neutralidade no Oceano Pacífico equatorial.
Até lá, o monitoramento regionalizado será importante para acompanhar a evolução das temperaturas, das chuvas e dos riscos associados ao fenômeno em Minas Gerais.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. A interação desse aquecimento com a atmosfera influencia a circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.










