Minas Gerais deve sentir de perto os reflexos do El Niño ainda este ano. Com 82% de chance de se consolidar até julho e 96% de persistir até o início de 2027, o fenômeno promete alterar o regime de chuvas e elevar as temperaturas no estado. Por estar em uma área de transição climática, Minas apresenta baixa previsibilidade, mas especialistas alertam que a irregularidade deve marcar os próximos meses.
O climatologista Glauber Ferreira, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), explica que o fenômeno influencia os padrões climáticos em diferentes partes do mundo e que, pensando no Brasil, tem efeitos clássicos, como a redução das chuvas nas regiões Norte e Nordeste e o aumento das precipitações no Sul do país.
Segundo o especialista, em Minas, o El Niño costuma aumentar as chuvas no Sudoeste, enquanto o Norte e o Nordeste do estado podem enfrentar estiagem e atraso no período chuvoso. Embora o calor deva subir em quase todo o território, cidades de maior altitude podem sentir menos esse aumento térmico.
“As temperaturas também tendem a subir em grande parte do território, embora municípios localizados em altitudes mais elevadas sintam menos essa mudança. Além disso, o fenômeno pode atrasar o período chuvoso nas regiões Central, Norte e Nordeste. Porém, vale lembrar que os impactos não são homogêneos em todo o estado, já que Minas é bastante diversificada”, ponderou.
Terá ‘Super El Niño’?
Neste mês, análises de agências meteorológicas internacionais, que mostraram números alarmantes na temperatura das águas do Oceano Pacífico, levantaram a possibilidade da formação de um “Super El Niño”, que poderia ser o mais intenso desde 1877, há cerca de 150 anos. Vídeos publicados na internet apontaram possíveis extremos climáticos e catástrofes no mundo e no Brasil, como secas severas na Amazônia e no Nordeste, além de tempestades no Sul e aumento do calor e da seca no Sudeste e Centro-Oeste.
No entanto, conforme Glauber, ainda não é possível afirmar que será um fenômeno forte ou intenso, embora as previsões indiquem que ele também não deve ser fraco. O climatologista afirmou que há quatro categorias de intensidade de El Niño, associadas ao nível de aquecimento do oceano: fraco, moderado, forte e muito forte.
“A partir do trimestre entre setembro, outubro e novembro, os centros internacionais têm apontado probabilidade em torno de 30% para as últimas três categorias. Pensando estatisticamente, temos uma probabilidade muito baixa de que o evento seja fraco, porque ela é menor que 10%. Ou seja, ele deve ser, no mínimo, moderado”, disse.
Já a partir do trimestre entre novembro, dezembro e janeiro, o especialista afirmou que a probabilidade de um evento muito forte sobe para 37%. “Porém, a gente está falando de novembro, né? Isto é, de seis meses para frente. Por isso, essas previsões precisam ser atualizadas para termos uma confiabilidade maior. Fazer uma previsão assim envolve muitas incertezas e limitações”, afirmou.
Fenômeno requer atenção dos órgãos públicos
Em conversa com o BHAZ, Glauber chama a atenção para o fato de que, independentemente da intensidade do fenômeno, ele já apresenta impactos significativos no país. “Não se trata de fomentar alarmismo, mas para dizer que estão focando muito no grau do El Niño, quando, na verdade, estamos falando de um fenômeno natural que, mesmo com intensidade maior ou menor, exige atenção”, completou.
Nessa quinta-feira (21), o portal MetSul divulgou que especialistas garantem que o mundo não irá vivenciar uma catástrofe global como ocorreu entre 1877 e 1878. Segundo o órgão, o evento climático, naquela época, alterou os padrões de chuva nos continentes, causando secas severas e inundações que resultaram na morte de milhões de pessoas.
Porém, em 2026, ainda conforme o MetSul, o cenário é diferente, sobretudo pelos avanços tecnológicos, que possibilitam antecipar a formação do fenômeno com meses de antecedência e permitem que medidas preventivas sejam tomadas por governos, pela comunidade internacional e por agricultores. Outro fator é que, nos últimos 150 anos, o comportamento da atmosfera global se transformou.
O climatologista do Inmet orientou que as medidas de mitigação dos efeitos podem ser adotadas pela sociedade civil e orgãos públicos. “Por exemplo, em relação a elevação da temperatura e da redução da umidade, o recomendado é que as pessoas se hidratem, alimentem bem e evitem o sol nos horários de pico. Agora, já sobre os efeitos maiores, associados a enchentes, inundações ou secas, exigem um esforço conjunto dos governos, além da regulação entre a Defesa Civil e órgãos de monitoramentos dos reservatórios para a revisão dos planos de contingência”, finalizou.










