A combinação de condições meteorológicas adversas, sobrecarga de trabalho do piloto e falhas na avaliação dos riscos contribuiu para a queda do helicóptero do Corpo de Bombeiros que matou seis pessoas em outubro de 2024, na região de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais. As conclusões estão no relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que analisou a ocorrência.
Segundo o documento, a aeronave decolou com visibilidade inferior aos limites mínimos exigidos para o voo visual e, durante o trajeto, entrou em condições meteorológicas que dificultavam a percepção do ambiente externo. A investigação também identificou sinais de desgaste físico e mental dos pilotos, além de problemas na coordenação da equipe e nos treinamentos operacionais.
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O acidente aconteceu em 11 de outubro de 2024, quando a tripulação retornava de uma missão de busca por uma aeronave desaparecida na região de Ouro Preto. O helicóptero, modelo BK117 C-2, transportava quatro militares do Corpo de Bombeiros e dois profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Todos morreram.
Clima e relevo dificultaram a percepção dos pilotos
De acordo com a investigação, as condições meteorológicas na região de Ouro Preto eram piores do que aquelas registradas na base da Unidade Aérea Pública (UAP), em Belo Horizonte. A visibilidade horizontal no momento da decolagem foi estimada em aproximadamente 180 metros, valor considerado insuficiente para a operação sob regras de voo visual (VFR).
A tripulação havia localizado uma aeronave desaparecida na Serra do Amolar. Como o terreno não permitia o pouso do helicóptero, os profissionais aterrissaram em um trevo rodoviário próximo. A equipe aeromédica seguiu por terra até o local do acidente, onde constatou a morte do piloto da aeronave procurada. Depois, os seis tripulantes se reuniram para retornar à base.
Com a piora do tempo, a equipe chegou a permanecer em solo, aguardando uma possível melhora das condições meteorológicas. O relatório aponta que o piloto em comando demonstrou desconforto com a alternativa de deixar parte da equipe junto à aeronave enquanto aguardava. Esse comportamento pode ter contribuído para a decisão de retomar o voo mesmo diante da deterioração do tempo.
Durante o trajeto, a baixa visibilidade e as características do relevo favoreceram uma possível ilusão visual. Segundo o Cenipa, uma reentrância na superfície rochosa, em meio a formações meteorológicas densas, poderia ter sido interpretada pelos pilotos como uma abertura livre de obstáculos.
A aeronave acabou atingindo a serra. Com o impacto, os tanques se romperam e houve derramamento de combustível. O atrito com as rochas e a energia da colisão são apontados como fatores que provavelmente provocaram a ignição e o incêndio.

Sobrecarga de trabalho e sinais de fadiga
O relatório do Cenipa também destaca o acúmulo de responsabilidades do piloto em comando (PIC) do helicóptero, que, além das escalas regulares de voo, havia assumido a chefia da área de manutenção da UAP do Corpo de Bombeiros. Ele também participava da organização de um grande evento institucional, o que ampliou suas atribuições administrativas.
Relatos colhidos durante a investigação indicaram que o piloto apresentava sinais compatíveis com um possível quadro de estafa. Pessoas próximas mencionaram queixas frequentes de dor de cabeça, lapsos de memória, cansaço e preocupações com o excesso de tarefas. Também havia relatos de que ele continuava trabalhando durante períodos destinados ao descanso.
O copiloto também apresentava indícios de desgaste físico e mental, segundo informações obtidas pela equipe de investigação. O documento aponta que a sobrecarga e a fadiga podem comprometer a atenção, a memória, a tomada de decisões e a capacidade de reagir a situações inesperadas.
Para o Cenipa, a centralização das decisões no piloto do helicóptero do Corpo de Bombeiros, que estava no comando, e a confiança do copiloto em sua experiência reduziram as chances de uma avaliação independente dos riscos. A participação limitada dos demais integrantes da equipe na gestão da segurança também foi considerada um fator contribuinte.
A investigação identificou ainda falhas nos processos de treinamento. Embora os pilotos tivessem um programa formal previsto, os treinamentos periódicos não eram executados conforme o planejamento. As instruções priorizavam atividades específicas de salvamento, enquanto procedimentos convencionais, como pousos e decolagens, recebiam menos atenção. Também foi apontada a ausência de treinamento periódico de gerenciamento de recursos da equipe (CRM) para todos os tripulantes.
Busca durou 12 horas e terminou com seis mortes
O helicóptero PR-UEA, modelo BK117 C-2, participava de uma operação de busca por outra aeronave desaparecida na região de Ouro Preto quando ocorreu o acidente, em 11 de outubro de 2024.
Após cerca de 12 horas de buscas, os destroços foram localizados em uma serra íngreme. Os seis ocupantes morreram no local. A tripulação era formada pelos militares capitão Wilker Tadeu Alves, tenente Victor Sterling, sargento Wellerson e sargento Gabriel, além do médico Rodrigo Trindade e do enfermeiro do Samu Bruno Sudário.
O relatório aponta que a decisão de decolar com visibilidade abaixo dos limites regulamentares, a entrada em condições meteorológicas inadequadas, as dificuldades de percepção do relevo e a sobrecarga de trabalho estão entre os fatores que contribuíram para a tragédia. A investigação também identificou aspectos organizacionais relacionados à cultura de cumprimento da missão e à gestão dos riscos operacionais.
Após o acidente, o Corpo de Bombeiros reestruturou as escalas de sobreaviso, abriu processos seletivos para ampliar o quadro de tripulantes e remanejou profissionais que acumulavam funções administrativas complexas. A corporação também adotou medidas para revisar os procedimentos e os treinamentos, ampliar a capacitação em gerenciamento de recursos de equipe e fortalecer a segurança de voo.









