Quando pensamos em ameaças à saúde em BH, no topo da lista costumam estar a poluição dos carros e as doenças causadas por microrganismos, como o vírus da gripe ou Dengue. Dificilmente alguém vai pensar em uma trepadeira linda de folhas verdes como culpada. No entanto, uma invasora silenciosa popularmente chamada Caratinga vem travando uma guerra invisível na nossa cidade . Trata-se da Dioscorea sansibarensis, uma espécie com flor da família do inhame, conhecida pelo nome comum de inhame de Zanzibar).
Originária da África e introduzida no Brasil provavelmente na década de 1970 por motivos estéticos, a caratinga encontrou na capital mineira um cenário perfeito para se alastrar. O grande problema? Ela cresce assustadoramente rápido (cerca de 40 centímetros por mês), sobe pelos troncos e sufoca a vegetação nativa quando bloqueia a luz do sol. Sem fotossíntese, as árvores enfraquecem, os galhos quebram e a biodiversidade do lugar adoece.
O problema não é só aqui!
BH não está sozinha na batalha. A caratinga é classificada internacionalmente como uma espécie exótica invasora de alto impacto. Em seu habitat natural (Tanzânia, Uganda e a ilha de Madagascar) ela vive em equilíbrio com os seres vivos do local e graças à alta concentração de toxinas como a dioscorina, partes da planta são usadas na proteção contra pragas.
O problema começa quando a Caratinga passa a habitar outros lugares. No Sudeste Asiático, por exemplo, países como Singapura enfrentam desafios idênticos aos de BH (https://www.nss.org.sg/events/forest-restoration-monitoring-programme/ ). Por lá, onde é chamada de planta Batman por causa do formato de asas de morcego das suas folhas, ela invadiu florestas tropicais densas, escalando árvores de mais de 25 metros, tirando a luz solar, o que pode levar a morte da vida local.
O efeito cascata
O impacto ambiental da caratinga gera um efeito dominó que afeta o clima urbano de Belo Horizonte de três formas principais:
Ilhas de Calor: Árvores nativas de grande porte funcionam como aparelhos de ar-condicionado naturais. Ao sufocar e matar essas árvores, a caratinga reduz a cobertura vegetal da cidade, agravando as ilhas de calor e tornando nossos dias e noites significativamente mais abafados.
Qualidade do Ar: Menos folhas saudáveis significam menor capacidade de filtrar os poluentes e o gás carbônico gerado pelo trânsito pesado de BH.
Umidade Relativa do Ar: A degradação da mata reduz a evapotranspiração (o processo pelo qual as plantas liberam vapor d’água), tornando o ar da cidade ainda mais seco, especialmente nos meses de inverno.
E onde entra a nossa saúde?
A saúde humana depende da saúde da natureza com um todo – animal , vegetal e ambiental, e este é um conceito que a medicina chama de Saúde Única (https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/u/uma-so-saude ). Assim, quando a caratinga desregula o microclima e degrada a vegetação das nossas matas, o reflexo nos hospitais é imediato:
Crises Respiratórias e Cardiovasculares: O ar mais seco, quente e poluído é o gatilho perfeito para o aumento de internações por asma, bronquite, rinite e problemas cardíacos na Grande BH.
Proliferação de Vetores: A perda da biodiversidade vegetal desequilibra a fauna local, ou seja os animais. Sem predadores naturais e com a degradação da mata ocorre a proliferação de mosquitos, escorpiões e roedores que migram em direção às nossas casas.
Os mutirões de cura da Floresta
O único registro oficial dessa planta no Brasil está justamente no coração de Belo Horizonte: na Reserva Ecológica do Museu de História Natural e Jardim Botânico (MHNJB) da UFMG, no bairro Santa Inês. Metade da área de 600 mil metros quadrados do museu já sofreu com a invasão. Como o uso de herbicidas químicos mataria também a vegetação nativa, a única solução eficaz é o trabalho de formiguinha, a retirada manual.
Há alguns anos, cientistas, funcionários e voluntários se mobilizam em mutirões periódicos (geralmente nos últimos sábados de cada mês) para arrancar a caratinga, batata por batata, folha por folha tentar controlar o alastramento da trepadeira ( são divulgados no instagram do museu e necessitam de inscrição prévia).
A experiência transforma não apenas a mata, mas também quem a protege. Para os estudantes que vivenciam a extensão universitária o impacto é profundo como me disse o graduando em Ciências Biológicas da UFMG, Mateus Vieira, que atua no projeto: “Participar desta atividade no Museu de História Natural é motivo de muita alegria e aprendizado. É gratificante contribuir para ações que promovem a educação ambiental e a conservação da natureza, levando conhecimento às pessoas e incentivando o cuidado com o meio ambiente. Fazer parte dessa iniciativa reforça meu compromisso com a construção de um futuro mais sustentável”, relatou ele.
Estes mutirões são mais do que um ato de jardinagem coletiva; são ações diretas para manter a saúde de todos, prevenindo doenças. Cada trepadeira arrancada no museu da UFMG é um sopro de ar puro e um grau a menos no termômetro que garantimos para o futuro da nossa cidade. Cuidar da nossa mata é, no fim das contas, cuidar de nós mesmos.
***Texto escrito com colaboração de Mateus H. Vieira (graduando de Ciências Biológicas na UFMG)










