Por que nos atacam?

andréia de jesus
(Clarissa Barçante/ALMG)

Por Andréia de Jesus

2021 foi um ano marcado por ataques a parlamentares negros, especialmente mulheres, nas casas legislativas Brasil a fora. No começo, eu me perguntava o porquê de tanta virulência. Para que despender tanta energia para nos atacar e distorcer nossas falas e Projetos quando tem tanta gente precisando de nossa atuação lá fora? A resposta é inevitável: há método nesses ataques.

Em novembro deste ano, foi para a votação em plenário na Assembleia Legislativa de Minas Gerais um importante Projeto de nossa autoria, fruto de uma articulação ampla com órgãos de Estado e com movimentos sociais do Estado de Minas Gerais. Era um projeto simples, que propunha que mulheres em situação de violência doméstica se tornassem público preferencial nos programas habitacionais do Estado.

Não é necessário muito esforço para compreender as razões que nos levaram a elaborar essa proposta. Os números da violência doméstica no Brasil têm crescido e, para garantir às mulheres mais pobres o rompimento desse ciclo, pensamos ser necessário garantir para elas as condições materiais necessárias para que elas pudessem encarar o futuro com dignidade e autonomia. A garantia do direito à moradia, obviamente, faz parte desse esforço.

Pois bem: naquele dia, a votação fluía normalmente e sem atropelos até que o Projeto de minha autoria entrou em votação. Foi o que bastou para determinados deputados acordassem de seu torpor secular e passassem a vociferar contra a proposição palavras de ordem contra o meu Projeto. Falou-se, como sempre, em Cuba, China, Venezuela, Coréia do Norte e ditadura comunista. Disseram que o Projeto criava divisões entre os brasileiros. Chegou-se a argumentar que o projeto não contemplava os homens em situação de violência, quando todo mundo sabe que a violência doméstica é uma violência de gênero e atinge as mulheres. A discussão avançou nesses termos completamente absurdos, até que o quorum caiu e o Projeto, um dos últimos da pauta, não foi votado. Vamos entrar em 2022 sem que as mulheres em situação de violência doméstica no Estado de Minas Gerais tenham garantido o seu direito à moradia garantido por lei apenas porque alguns deputados que não leram ou leram muito mal o Projeto decidiram desfilar publicamente seus delírios anticomunistas contra mim.

Estou contando essa história apenas porque esse tipo de atuação dos parlamentares da direita se tornaram tristemente comuns, não apenas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde eu atuo, mas em todo o país. O alvo são sempre os legisladores de esquerda ou centro-esquerda, mas temos percebido que, na maior parte das vezes, os ataques recaem sobre mulheres e, de forma especial, sobre mulheres negras. Nossas palavras são cotidianamente distorcidas e nossos Projetos e requerimentos são atacados sem nenhum argumento lógico, tornando o nosso mandato, que nos foi conferido pelo voto popular, mais difícil de executar. Mas porque eles fazem isso? Existe alguma racionalidade oculta por trás dessa gritaria sem sentido, dessas falas inflamadas e desconectadas da realidade?

Não há uma resposta pronta, mas podemos buscá-la nas eleições de 2018, que acabaram levando Jair Bolsonaro à presidência da república.

O projeto da direita e da extrema-direita para o país não é um projeto popular. Ele incorpora a total submissão aos ditames do Mercado e, com isso, perdas significativas para a população, como o sucateamento dos serviços públicos e o fim dos direitos trabalhistas e previdenciários. Como esse tipo de proposta não dá votos, a campanha de Bolsonaro inovou, fazendo da mentira e do pânico moral seus principais ativos na batalha eleitoral. Ao invés de propostas, a campanha do ex-capitão do exército apresentou à população uma série de inimigos imaginários que, infelizmente, mexiam com medos, rancores e preconceitos muito arraigados e profundos da população brasileira.

Esses inimigos eram pinçados em setores historicamente excluídos, mas que vinham experimentando avanços e um princípio de inclusão social no período anterior. Falamos aqui das mulheres, da população LBTQIA+, dos negros e negras. É necessário pontuar que os avanços experimentados por esses setores, ainda que tímidos, geraram imenso mal estar em setores da população e esse mal estar foi manipulado pela campanha de Bolsonaro de forma a se tornar em ódio. Não foi difícil explorar em campanha o machismo arraigado do homem que, de repente, viu a companheira ou a filha adquirir autonomia, seja por meio de programas como o bolsa família, seja pela maior discussão pública sobre temas como o feminismo, e confrontá-lo dentro de casa, onde outrora, ele se impunha como como chefe nomeado e constituído pelo poder patriarcal. Não foi difícil tirar do armário os racistas aborrecidos com as cotas nas universidades, que fizeram com que jovens negros e negras ocupassem postos de trabalho outrora reservados para pessoas brancas. Não foi complicado manipular a classe média branca incomodada com a presença de pretos e pretas nos aeroportos e transmutar seu racismo disfarçado em ódio explícito, exposto na rua em plena luz do dia. Foi tarefa simples dos marqueteiros manipular o incômodo homofóbico ou transfóbico com os avanços nos costumes, como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo gênero ou a autorização para a adoção do nome social das pessoas trans nos serviços públicos. Avanços legais ou comportamentais simples, mas que significaram dignidade para milhões de brasileiros e brasileiras, foram transformados pela retórica bolsonarista em espantalhos ameaçadores que, na verdade, blindaram a direita de expor seus verdadeiros objetivos durante a campanha eleitoral.

Observem que a maior parte das fakenews precisa incidir sobre mulheres, negros e negras ou população LGBTQIA+ para se espalhar, para encontrar terreno fértil. Campanhas de ódio atingiram diversas companheiras minhas de parlamento Brasil a fora e, talvez a mais massiva, a mais emblemática, uma das primeiras, tenha se dado contra uma mulher negra, LGBTQIA+ e favelada, que foi Marielle Franco, falecida em março de 2018, antes portanto da campanha presidencial, mas quando já se notava que a máquina de produzir mentiras da extrema direita já se encontrava funcionando a todo vapor.

Barbaramente executada, Marielle foi alvo de acusações mentirosas e racistas logo depois de seu terrível assassinato. Seu corpo não havia sequer esfriado quando começaram a brotar nas redes sociais notícias falsas e distribuídas massivamente, associando a vereadora ao tráfico de drogas e a outros crimes, sem que fosse apresentada sequer uma prova. Políticos e até uma juíza acabaram colaborando com a desinformação.

Passaram-se alguns meses entre os assassinatos de Marielle Franco (que, depois de executada, teve sua reputação injustamente atacada milhares de vezes) e a eleição de Bolsonaro, marcada por mentiras, já conhecidas por todos, onde o atual presidente não apresentou qualquer proposta real, deixando sua campanha a cargo da mentirada que circulava nos aplicativos de celular. Com Bolsonaro, também foram eleitos outros filhos e filhas das mesmas mentiras, com a promessa de lutar contra coisas que não existem, como a ideologia de gênero, a ameaça comunista ou a distribuição de mamadeiras eróticas nas creches brasileiras.

A esses filhos da mentira, sem propostas, que prometeram, quixotescamente combater esses inimigos imaginários enquanto combatem, de fato, os direitos, a dignidade e a subsistência de milhões de brasileiros, resta continuar espalhando a mentira e o ódio para seguirem fazendo parte do mercado eleitoral. E quem melhor do que deputadas pretas para encarnar esses inimigos?

Eu tenho plena consciência de que o ambiente parlamentar não foi forjado para mim. Sou uma mulher preta, periférica, fui empregada doméstica. Consegui chegar onde eu cheguei contra a corrente, que insistia em me arrastar para os lugares de sempre. Se a muitos já incomodava a empregada doméstica no aeroporto ou o filho do porteiro na faculdade, o que dizer de uma mulher preta na Assembleia Legislativa?

Por conta do meu corpo, por ser quem eu represento, fui uma das escolhidas pela extrema direita para personificar os inimigos imaginários que criaram para enganar a população. Sou inimiga sim do fascismo, daqueles que querem tirar os seus direitos, da mentira, daqueles que querem nos matar. Sou inimiga dos racistas, dos machistas, dos homofóbicos, do atraso. Mas não sou inimiga da população, como querem me desenhar para garantir seus votos em 2022.

Não vou permitir que me usem de espantalho para disseminar o ódio por nosso país, a troco de uns míseros votos. Eu e minhas companheiras estamos firmes na luta pela população, pela democracia e contra esses estelionatários políticos, que querem enganar a população. Vamos sim ocupar os espaços que não foram construídos para nós, mas que é nosso por direito. E amanhã seremos muitas, muitas mais.

Para os companheiros de esquerda, deixo também o meu recado: precisamos combater a violência política também em seus componentes de raça e de gênero, isso não é questão de menor importância. É dessa violência que o fascismo se alimenta, foi essa violência que levou o fascismo ao poder.

Gabinetonacomunicacao@gabinetona.org

A Gabinetona é um mandato coletivo construído por quatro parlamentares em três esferas do Legislativo. É representada pelas vereadoras Cida Falabella e Bella Gonçalves na Câmara Municipal de Belo Horizonte, pela deputada estadual Andréia de Jesus na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e pela deputada federal Áurea Carolina na Câmara dos Deputados, em Brasília.

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