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Um viaduto, um poeta e um memorialista

01/05/2026 às 09h26 - Atualizado em 01/05/2026 às 12h02
O Viaduto Santa Tereza, ícone de BH, no início dos anos 1930. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Em 1962, ao refletir sobre as possibilidades de apreciação do cenário urbano da capital mineira em seus primórdios, o poeta Carlos Drummond de Andrade elegeu o Viaduto Santa Tereza e o exaltou, em A Bolsa e a Vida, como um lugar privilegiado para as suas saudosas lembranças:

O melhor ponto para contemplar-te será o terraço de um edifício da Avenida Afonso Pena? A praça do Cruzeiro, o alto da serra do Curral? Prefiro o arco modesto do viaduto, miradouro da memória, onde tentei às vezes restaurar o romantismo, para consumo próprio e desprazer da polícia.

Esse prodígio da engenharia, construído com uma elegante estrutura de concreto armado, além de figurar na paisagem urbana da capital mineira desde 1929 como um dos seus mais relevantes símbolos, exerceu grande fascínio sobre poetas e escritores, que o escolheram como cenário para registros pessoais que entraram para a história da cidade. Resgatemos aqui, portanto, memoráveis passagens de dois dos mais notáveis escritores mineiros com o viaduto: o próprio Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava.

Esculturas em homenagem aos escritores Carlos Drummond de Andrade (esq.) e Pedro Nava (dir.), instaladas na Rua Goiás, esquina com a Rua da Bahia, de autoria de Leo Santana. (Crédito: Amanda Dias / BHAZ).

Quando Drummond inaugurou o “alpinismo urbano” — expressão cunhada pelo escritor Humberto Werneck — ao escalar um dos arcos do Viaduto Santa Tereza, a vista panorâmica que o poeta teve da cidade naquela aventura nas alturas foi certamente a de maior coesão estética de sua paisagem, então composta essencialmente por edificações em estilo eclético, que definiram a Belle Époque mineira.

Postal com o Viaduto Santa Tereza e seu entorno, marcado pela arquitetura eclética dos anos 1930. Uma das últimas paisagens arquitetônicas homogêneas de BH. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

A partir dali, a cidade viveria, ato contínuo, um turbilhão de linguagens arquitetônicas que se sobreporiam, formando uma paisagem que perderia a homogeneidade e a “pureza” dos seus primórdios, sendo inclusive mote para evocações nostálgicas de escritores que por aqui viveram, sobretudo aqueles da geração modernista.

Por outro lado, paradoxalmente, talvez tenha sido a própria ideia de progresso trazida pelo viaduto, marcada por sua ousadia formal e estrutural, que tenha exercido tanto magnetismo junto a esses modernistas. Lembremos que escritores de gerações posteriores, já num cenário arquitetonicamente multifacetado, repetiram o alpinismo nos arcos do Santa Tereza, inaugurado pelo poeta itabirano.

Humberto Werneck, em seu livro O Desatino da Rapaziada, relatou: “Uma noite, quando se equilibrava no ponto mais alto do arco do viaduto, Drummond recebeu voz de prisão e desafiou o guarda a ir prendê-lo nas alturas. O homem julgou mais prudente relaxar a prisão”. Esse episódio, ocorrido no fim dos anos 1920, com o viaduto recém-inaugurado, pode ser considerado o batismo literário dessa notável peça urbana, que, a partir dali, passou a povoar o imaginário dos belo-horizontinos sob novas perspectivas.

Um dos principais memorialistas do Brasil, o mineiro Pedro Nava, que integrou a geração de modernistas de Belo Horizonte, juntamente com Drummond, também viveu intensamente a cidade que escolheu para estudar medicina nos anos 1920, sobretudo o eixo cultural-boêmio da Rua da Bahia. Os escritos de Nava, em obras publicadas na década de 1970, como Beira-Mar, Balão Cativo e Chão de Ferro, compõem um extraordinário mosaico de experiências e imagens, indispensável para a compreensão da fervilhante cidade literária daquela época. Em Beira-Mar, Pedro Nava assim descreveu a peripécia de Drummond nos píncaros do viaduto:

Essa estrutura de cimento armado comporta um grande vão e é levantada por enormes arcos de concreto que tem largura por cerca de metro. Sua altura é vertiginosa. Pois esse era o caminho escolhido pelo poeta de minha geração quando ia tarde para sua casa, na Floresta. Em vez de pista ponte escolhia suas parábolas de sustentação e passava por cima delas aos ventos vendo rolar embaixo os trens da Central.

Postal dos anos 1930: Viaduto Santa Tereza, projetado pelo engenheiro Emílio Baumgart, e, em segundo plano, o Edifício Chagas Dória, projeto do arquiteto Alfredo Carneiro Santiago, que levou novos ares arquitetônicos ao local. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Nos anos 1970, ao revisitar seus lugares de afeto na metrópole montanhesa, Nava também eternizaria o Viaduto Santa Tereza, deixando-se fotografar ao caminhar por ele em direção ao Bairro Floresta, onde residira em vários endereços. Ao produzir esse registro, com seu grave semblante, talvez ele estivesse querendo dizer: neste momento de dolorosa coleta dos cacos das minhas paisagens pretéritas, o viaduto ainda está aqui para me amparar.

Na década de 1970, envolto a uma paisagem de arranha-céus, Pedro Nava atravessou o Viaduto Santa Tereza em busca das suas reminiscências no Bairro Floresta. (Crédito: Acervo Antônio Sérgio Bueno).

Inaugurado em 1929, com projeto do engenheiro Emílio Baumgart, o Viaduto Santa Tereza incorporou elementos da linguagem art déco em sua arrojada estrutura de concreto armado — uma das pioneiras de Minas Gerais —, tornando-se um símbolo da capital. Sua imagem estampou inúmeros cartões-postais ao longo de quase um século de existência, permanecendo incólume diante das substanciais transformações arquitetônicas ao seu redor e servindo como uma poderosa âncora da memória urbana do Centro.

Postal de 1947: Viaduto Santa Tereza e, ao fundo, com projeto do arquiteto Roberto Capelo, o Conjunto Sulacap-Sulamérica recém-inaugurado no local do antigo prédio dos Correios, um retrato da aceleração das metamorfoses arquitetônicas em BH. (Crédito: Cartão-postal / Reprodução).

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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