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Colunas

Uma arquitetura para o mundo: JK e Oscar Niemeyer em BH

18/07/2026 às 07h44
Juscelino Kubitschek (esq.) e Oscar Niemeyer com maquete do Colégio Estadual Central (dir.), anos 1950. (Crédito: Arquivo Público Mineiro / montagem).

A mais ousada arquitetura brasileira do século XX brotou em Belo Horizonte, num quarto do antigo Grande Hotel (atual Edifício Maletta), como resultado da convergência de dois espíritos grandiosos: um forjado na cultura cosmopolita da então capital federal; o outro, na mais profunda tradição mineira. O encontro entre o arquiteto carioca Oscar Niemeyer e o diamantinense Juscelino Kubitschek, então prefeito da capital mineira, nos idos de 1940, deu origem ao revolucionário Conjunto Moderndo da Pampulha e selou uma parceria virtuosa e duradoura.

Croqui de Oscar Niemeyer para o Conjunto Moderno da Pampulha. (Crédito: A Obra de O. N., 1998).

Oscar Niemeyer tornou-se um dos maiores expoentes da arquitetura moderna mundial, e parte significativa de sua trajetória foi construída em Belo Horizonte graças ao apoio de Juscelino Kubitschek. Como prefeito da capital mineira (1940–1945), governador de Minas Gerais (1951–1955) e, posteriormente, presidente da República (1956–1961), JK ofereceu ao arquiteto oportunidades decisivas para desenvolver uma arquitetura capaz de romper com os modelos internacionais então predominantes. Nesse contexto, dezenas de projetos construídos testemunham a intensidade de uma parceria que fez da capital mineira um dos principais conjuntos da obra do arquiteto no país.

A visibilidade internacional dessa produção começou ainda em 1943, quando as obras da Pampulha eram uma novidade. Naquele ano, as construções do complexo foram apresentadas na exposição Brazil Builds: Architecture New and Old, realizada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). O catálogo que acompanhou a mostra difundiu a arquitetura moderna brasileira em vários países, tendo os edifícios da Pampulha entre seus principais destaques, inclusive na contracapa da publicação. Décadas mais tarde, em 2016, o reconhecimento dessa realização seria consolidado com a inscrição do Conjunto Moderno da Pampulha na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.

O Museu de Arte da Pampulha na contracapa do livro sobre a exposição “Brazil Builds: Architecture New and Old, 1652-1942”, realizada no MoMA, em 1943. (Crédito: MoMA).

Foi justamente ao conceber o conjunto arquitetônico da Pampulha que Niemeyer encontrou o campo ideal para desenvolver uma linguagem arquitetônica própria. Logo no início da gestão de Juscelino Kubitschek como prefeito, o arquiteto foi convidado a conceber um conjunto de edificações em torno da lagoa artificial, tendo entre suas principais obras uma igreja, um cassino, um clube e um salão de baile.

A Casa do Baile, desenhada em 1940, representou um momento decisivo dessa trajetória ao explorar de maneira arrojada as possibilidades plásticas do concreto armado. Sua marquise sinuosa, com formas livres até então pouco exploradas na arquitetura moderna, marcou uma ruptura com a predominância do ângulo reto e influenciou gerações de arquitetos brasileiros.

Integrada aos jardins tropicais concebidos por Roberto Burle Marx, a obra revelava uma concepção alargada de projeto, em que arquitetura e paisagem estabeleciam uma relação indissociável. Por outro lado, os painéis de azulejos, presentes em diversas obras de Niemeyer, reforçavam o diálogo com a tradição construtiva luso-brasileira e a integração entre arquitetura e artes plásticas. Na Casa do Baile, esses painéis são atribuídos ao artista Paulo Werneck, colaborador frequente do arquiteto.

Casa do Baile, inaugurada na Pampulha em 1942 e atual Centro de Referência de Arquitetura, Urbanismo e Design. Imóvel tombado. (Crédito: Acervo Belotur / PBH).

O próprio Niemeyer reconheceria a importância desse trabalho para a sua carreira, ao afirmar, no livro As curvas do tempo – Memórias (1998): “Para mim, a Pampulha foi o começo da minha vida de arquiteto. E com que entusiasmo a começava.”

A Igreja São Francisco de Assis, concluída em 1945, ampliaria ainda mais essa experimentação. Suas abóbadas em concreto armado, revestidas com mosaicos de pastilhas desenhados por Paulo Werneck, o painel de azulejos de Cândido Portinari e a integração com os jardins de Roberto Burle Marx transformaram uma pequena capela em uma das obras mais emblemáticas da arquitetura moderna mundial. Como explicou Niemeyer anos mais tarde, “era um protesto que eu levava como arquiteto, de cobrir a igreja da Pampulha de curvas, das curvas mais variadas, essa intenção de contestar a arquitetura retilínea que então predominava”.

Igreja São Francisco de Assis, projetada em 1943, uma das obras emblemáticas do Conjunto Moderno da Pampulha. Imóvel tombado. (Crédito: Beatriz Kalil Othero / BHAZ, 2023).

Além das formas sinuosas, o conjunto da Pampulha também marcou a história da arquitetura moderna pelo uso dos planos inclinados, especialmente na chamada cobertura “asa de borboleta”, solução adotada por Niemeyer no projeto do Iate Tênis Clube, em 1940. Concebida originalmente pelo franco-suiço Le Corbusier, essa cobertura, formada por duas lajes inclinadas de concreto que convergem para uma calha central, ainda era pouco explorada na arquitetura mundial daquele período.

Iate Tênis Clube, construído na orla da Lagoa da Pampulha e concluído em 1942. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2023).

O antigo Cassino da Pampulha, atual Museu de Arte da Pampulha, também idealizado em 1940 e inaugurado em 1942, assinala outro marco desse acervo vanguardista. Concebido como espaço de lazer e entretenimento, o edifício explora a transparência, a integração entre interior e exterior e a continuidade entre arquitetura e paisagem. Sua fachada é marcada pelas emblemáticas colunas metálicas verticais e inclinadas que sustentam a marquise de desenho irregular junto à entrada do prédio. Nesse edifício, Niemeyer articulou os jardins de Roberto Burle Marx e obras de importantes artistas modernistas, como August Zamoyski, José Pedrosa e Alfredo Ceschiatti, consolidando a Pampulha como uma síntese entre arquitetura, artes plásticas e paisagismo.

Museu de Arte da Pampulha, antigo Cassino, inaugurado em 1942. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2019).

Na década seguinte, já como governador de Minas Gerais, JK ampliou sua parceria com Niemeyer, possibilitando novas obras modernistas em Belo Horizonte, agora em diferentes programas arquitetônicos, como a Biblioteca Pública Estadual, construção abordada em artigo anterior desta coluna.

Biblioteca Pública Estadual, projetada em 1954 e concluída em 1961, junto à Praça da Liberdade. (Crédito: Circuito Liberdade).

O Banco Mineiro da Produção, hoje P7 Criativo, foi projetado em 1953 e inaugurado em 1959, sendo um dos marcos da arquitetura modernista da Praça Sete e de toda a cidade. A obra, implantada em uma das esquinas mais movimentadas da capital, destaca-se pela elegante forma arredondada e pelo contraste entre a fachada envidraçada e a outra, marcada pelas lâminas horizontais de concreto, elementos de proteção solar que também conferem identidade ao edifício.

Banco Mineiro da Produção, atual P7 Criativo, projetado em 1953 e inaugurado em 1959, na Praça Sete, Centro. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2024).

Já o Colégio Estadual Central, projetado em 1954 e inaugurado em 1956, Niemeyer mais uma vez explorou as formas arquitetônicas como essência da composição. A volumetria dos blocos que compõem o conjunto escolar, estruturado em concreto armado, apresenta soluções plásticas que remetem a objetos relacionados ao universo educacional, como a cantina, cuja forma se assemelha a uma borracha, e o auditório, com desenho que lembra um mata-borrão.

Colégio Estadual Central, na década de 1970, situado na Rua Fernandes Tourinho, n. 1.020. Imóvel tombado. (Crédito: Cartão-postal / reprodução).

A inovação proposta por Niemeyer não se restringiu aos edifícios públicos, abrangendo também obras emblemáticas da arquitetura residencial, que, embora nem todas tenham sido encomendadas diretamente pelas administrações de Juscelino Kubitschek ou por ele em caráter particular, tiveram proprietários que integravam o seu ambiente intelectual, político e artístico em Belo Horizonte.

Um dos primeiros exemplos foi a casa de João Lima de Pádua — primo de Sarah Kubitschek —, projetada em 1940 e concluída em 1943, na esquina das ruas Bernardo Guimarães e Araguari. A residência representou uma revolução na arquitetura residencial de Belo Horizonte ao introduzir uma nova organização espacial, na qual a casa se desenvolve em torno de um pátio central, solução até então inédita na cidade. Sua planta em “U” estabeleceu uma relação mais integrada entre os ambientes e os jardins, ao passo que os cobogós de concreto e a cobertura em “asa de borboleta” reforçaram a linguagem moderna da residência. Essa solução de cobertura, amplamente reproduzida em Belo Horizonte e em todo o Brasil, tornou-se um dos símbolos da arquitetura modernista.

A casa João Lima de Pádua ainda possui uma relação singular com a história cultural mineira: foi inicialmente ocupada por Helena Valadares e seu marido, o renomado escritor Fernando Sabino, antes da mudança do casal para o Rio de Janeiro, em 1944. Hoje, adaptada para uso comercial, permanece como um dos mais importantes exemplares residenciais de Niemeyer em Belo Horizonte.

Casa João Lima de Pádua, projetada em 1940 e construída em 1943, na esquina das ruas Bernardo Guimarães e Araguari. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2024).

Em 1943, Niemeyer projetaria para Juscelino Kubitschek uma residência de fim de semana na Pampulha. Inaugurada em 1945, a Casa JK aprofundou soluções já presentes na Casa João Lima de Pádua, como a integração entre interior e exterior e a organização dos ambientes em torno de um pátio interno. Implantada em um amplo terreno e integrada ao jardim de Roberto Burle Marx, a residência acompanha a inclinação natural do lote e apresenta soluções modernistas, como o mezanino — provavelmente o primeiro da cidade —, a cobertura em “asa de borboleta” e grandes painéis de vidro. Preservada com poucas alterações, hoje abriga o Museu Casa Kubitschek, dedicado ao modo de morar moderno das décadas de 1940 e 1950.

Casa JK, projetada em 1943 para o então prefeito Juscelino Kubitschek e construída na orla da Pampulha, atualmente abriga o Museu Casa Kubitschek. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2019).

Na década de 1950, a casa de Alberto Dalva Simão — conhecido e contemporâneo de Juscelino Kubitschek —, demonstraria a maturidade do percurso criativo de Niemeyer na arquitetura doméstica unifamiliar. Localizada próxima à Lagoa da Pampulha, a residência, concebida em 1953, explora uma cobertura plana e sinuosa que avança em todas as direções do pavimento social, formando amplas varandas e reforçando a integração entre arquitetura e paisagem. Os jardins ao redor da casa também foram originalmente projetados por Burle Marx.

Casa Alberto Dalva Simão, nas proximidades da Lagoa da Pampulha, projetada em 1953. (Crédito: Casa Cor 2013 / divulgação).

A arquitetura residencial desenvolvida pelo arquiteto carioca em Belo Horizonte não se restringiu às moradias unifamiliares, abrangendo também duas das mais icônicas construções multifamiliares verticais da cidade: o Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, e o Conjunto Governador Juscelino Kubitschek (Conjunto JK), ambas projetadas na década de 1950.

O Edifício Niemeyer, idealizado em 1953 e concluído em 1960, foi encomendado pelo casal Lúcia Machado de Almeida e Antônio Joaquim de Andrade e Almeida, que mantinham estreita relação com Juscelino Kubitschek durante sua gestão à frente da Prefeitura de Belo Horizonte. Com sua volumetria marcada pelas lâminas horizontais e pelo movimento ondulado, o edifício reforçou a busca do arquiteto por uma arquitetura escultural e expressiva, em oposição à costumeira rigidez dos volumes prismáticos dos prédios residenciais. No Edifício Niemeyer, os ladrilhos hidráulicos desenhados por Athos Bulcão revestem as fachadas, constituindo um dos elementos marcantes da obra.

Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, projetado em 1953 e concluído em 1960. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2022.)

Já o monumental Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, assinado por Oscar Niemeyer em 1951, apresenta uma linguagem mais sóbria e geométrica, marcada pela regularidade dos volumes. Idealizada por Juscelino para contribuir com a redução do déficit habitacional de Belo Horizonte, a obra previa moradias de qualidade a preços acessíveis. Sua execução, contudo, sofreu sucessivos atrasos, e o conjunto só foi concluído em 1970. Em sintonia com os princípios do modernismo, as duas torres e seus generosos pilotis foram planejados para abrigar, além dos 1.087 apartamentos, hotel, boate, cinema, teatro, complexo comercial e áreas de lazer, programa que, entretanto, não chegou a ser integralmente executado.

Conjunto JK, projetado em 1951 e inaugurado em 1970, na Praça Raul Soares. Imóvel tombado. (Crédito: Ulisses Morato, 2024).

Assim, ao longo de décadas, ao erguer o Conjunto Moderno da Pampulha e inúmeros edifícios públicos e privados de excepcional qualidade, Belo Horizonte consolidou-se como um dos principais laboratórios da arquitetura moderna brasileira. A parceria entre Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer transformou a paisagem da cidade, projetando-a no cenário internacional e constituindo uma das principais contribuições do país à cultura arquitetônica do século XX.

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
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Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

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