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Nada nosso, tudo deles: a quem serve a escala 6×1?

22/05/2026 às 13h23 - Atualizado em 26/05/2026 às 12h49
Foto: José Cruz / Agência Brasil

Quantos aniversários, dias das mães, dos pais, quantos natais já foram perdidos pelos trabalhadores brasileiros que precisam trabalhar na escala 6×1? E quantas dessas pessoas conseguiram, de fato, ascender socialmente e mudar sua própria realidade graças ao trabalho? Lá em Brasília, tem gente dizendo que não se pode permitir que o povo trabalhe menos, porque, assim, segundo eles, o país vai falir e as pessoas vão deixar de ter ganhos. Mas em décadas dessa jornada desumana, quantas pessoas realmente conseguiram aumentar seus ganhos folgando apenas um dia na semana? Quem conseguiu, o fez graças a um esforço descomunal, até injusto se comparamos com a vida desses que defendem os ricos e trabalham na escala 4×3 – no máximo.

A conta não fecha para quem vive nessa escala. Enquanto a direita e o centrão discutem uma suposta redução de lucros, quem acorda às quatro ou cinco da manhã sabe que o debate é sobre a vida real da maior parte da população brasileira. É sobre perder datas importantes, sobre chegar em casa sem energia para brincar com os filhos, viver mais dentro do ônibus e do trabalho do que na própria casa. É sobre não ter tempo nem para lavar as próprias roupas. Não à toa, a última pesquisa da Quaest mostrou que quase 70% dos brasileiros defendem o fim da escala 6×1.

Mas, mesmo diante desse recado tão claro da população, parte do Congresso Nacional (os supostos representantes do povo) insiste em caminhar na direção contrária. Em vez de discutir dignidade, descanso e qualidade de vida, tentaram avançar com uma proposta que empurra o fim da escala 6×1 para daqui a dez anos, aumenta a possibilidade de jornadas de até 52 horas semanais e ainda reduz o FGTS de 8% para 4%. Na prática, é como dizer ao trabalhador brasileiro que ele precisa trabalhar mais, descansar menos e aceitar menos direitos. Tudo isso enquanto o discurso oficial fala em modernização e liberdade econômica.

Só que o Brasil real não funciona dessa forma. A realidade está no caixa do supermercado, no hospital público, na padaria que abre antes do amanhecer, no ônibus lotado das quatro, cinco e seis da manhã. É gente que sustenta o país com o próprio corpo e que já vive no limite do cansaço.

O mais revoltante é perceber que, mais uma vez, o Congresso representa uma elite muito específica e distante da maioria da população. Digo isso porque quem defende jornadas de até 52 horas certamente não é quem passa horas em pé numa fábrica ou atrás de um balcão, nem quem enfrenta dupla jornada entre trabalho e casa.

Os representantes do atraso seguem tratando direitos trabalhistas como obstáculos, quando deveriam enxergá-los como o mínimo de dignidade. O trabalhador brasileiro não está pedindo privilégio. Está pedindo tempo para viver. Tempo para descansar, estudar, estar com a família, cuidar da saúde mental e física.

Defender o fim da escala 6×1 não é radicalismo. Radical é achar normal o povo viver exausto para sustentar um sistema que concentra lucro no topo e cansaço na base.

E talvez seja justamente isso que mais incomode: quando o povo começa a exigir não apenas sobreviver, mas viver com dignidade. Pedir vida em abundância (ou ao menos, que não seja em conta gotas).
E aí eu pergunto: quem está defendendo a população? Quem está defendendo quem acorda cedo, pega fila no SUS, enfrentam ônibus lotados e vivem contando moedas até o fim do mês?

Quando o Congresso se mobiliza mais rápido para proteger interesses dos ricos do que para garantir dignidade ao trabalhador, o recado que fica é cruel: o povo se sente abandonado e com a sensação é que os direitos estão indo por água abaixo.

Lohanna França

Lohanna (PV) foi a vereadora mais jovem e mais votada da história de Divinópolis em 2020. Em 2022, foi eleita deputada estadual com mais de 67 mil votos. Tem formação em Bioquímica e experiência como professora.

Lohanna França

Email: [email protected]

Deputada estadual

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