Quando ouvimos falar sobre o El Niño, o fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, costumamos focar somente nos impactos meteorológicos: secas severas em algumas regiões, tempestades e inundações em outras. Mas, eventos como esses podem gerar efeitos muito além dos estruturais e atingir diretamente a nossa saúde. Quando toma proporções de um “Super El Niño”, como está previsto para os próximos meses, a preocupação e os cuidados devem ser redobrados.
O El Niño convencional aquece as águas entre +0,5°C e +2,0°C acima da média histórica enquanto o Super El Niño ocorre quando esse aumento de temperatura ultrapassa a marca de +2,0°C (podendo chegar a valores superiores a +2,5°C), isto é, super aquecimento das águas no oceano. Os impactos desses fenômenos em Minas Gerais devem ser ondas de calor intensas, atraso no período chuvoso e temporais severos com alta concentração de água. Como o nosso estado fica em uma região de transição geográfica, os efeitos podem variar nas diferentes regiões mineiras.
As oscilações drásticas de temperatura e umidade funcionam como um acelerador de riscos à saúde humana, então é muito importante prevenir-se contra este fenômeno que vai atingir todo o nosso planeta.
Os riscos
Dengue, Zika e Chikungunya: o calor acelerado diminui o tempo de ciclo de reprodução de mosquitos como o Aedes aegypti. Além disso, nas áreas chuvosas, o acúmulo de água multiplica os criadouros. Nas áreas de seca, o armazenamento improvisado e incorreto de água pela população pode gerar o mesmo problema.
Leptospirose e Gastroenterites: enchentes frequentes aumentam a exposição à urina de roedores na água e na lama, além de contaminarem as redes de água potável, elevando surtos de diarreia infecciosa.
Infartos e AVCs: sob temperaturas muito altas, o corpo sofre vasodilatação severa e o suor excessivo causa desidratação rápida. O sangue torna-se mais viscoso, aumentando a pressão arterial e fazendo com que o coração trabalhe mais, o que aumenta o risco de coágulos, arritmias e acidentes vasculares.
Insuficiência Renal: a falta de hidratação adequada sob calor severo sobrecarrega os rins, gerando quadros agudos de falha renal, especialmente em idosos.
Nas regiões castigadas pela estiagem prolongada, o ar seco retém poluentes e poeira em suspensão na atmosfera. Isso atua como um gatilho imediato para crises de asma, bronquite, bronquiolite (em bebês) e quadros severos de influenza.
Pequenas mudanças de hábito são essenciais
Hidratação rigorosa e monitorada: não espere sentir sede para beber água. Idosos e crianças perdem a sensibilidade da sede mais rápido. Monitore a cor da urina (ela deve estar clara). Evite o excesso de bebidas alcoólicas e cafeína, que aceleram a desidratação.
Adequação de horários ao ar livre: evite atividades físicas intensas ao ar livre entre 10h e 16h. Em dias de umidade muito baixa, utilize umidificadores de ar ou toalhas molhadas nos quartos e abuse do soro fisiológico para lavagem nasal.
Inspeção doméstica semanal: tire 10 minutos por semana para checar calhas, pratos de vasos de plantas e tampar hermeticamente caixas d’água ou baldes e tambores de reserva de água. Lembre-se: o calor faz o mosquito se desenvolver muito mais rápido.
Cuidados com alimentos e água: em locais afetados por enchentes ou desabastecimento, consuma apenas água filtrada ou fervida. Lave muito bem frutas e verduras. Com o calor extremo, alimentos estragam na metade do tempo; evite consumi-los fora de casa se duvidar da refrigeração.
Para quem quiser se aprofundar no assunto deixo uma listinha de consulta:
- Organização Mundial da Saúde (OMS / WHO): Relatórios de monitoramento sobre Mudanças Climáticas e Doenças Tropicais Negligenciadas.
- Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz): Estudos do Observatório de Clima e Saúde e do Cidacs/Fiocruz sobre o impacto de temperaturas extremas e arboviroses na população brasileira.
- Instituto Nacional de Meteorologia (INMET): El Niño está de volta
- OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde): Alerta epidemiológico regional de dengue e controle de vetores relacionados ao El Niño nas Américas.










