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Colunas

As infinitas vozes de Eleonora Santos

28/05/2026 às 10h27
Foto: Acervo Pessoal

No dia 20 de junho, a Sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, recebe o lançamento de Infinitudes, livro que marca a estreia como escritora da economista mineira Eleonora Santos. Seria mais uma obra nascida do diagnóstico de uma doença grave, de uma mulher colocada diante da fragilidade da própria existência, e isso, por si só, já não seria pouco. Mas, Eleonora decidiu fazer diferente e não transformar a própria doença no centro da narrativa.

Depois de descobrir um linfoma folicular, enfrentar o medo da morte, a angústia da maternidade e os impactos físicos e emocionais da quimioterapia, ela escolheu deslocar o foco de si mesma para os outros.

Em vez de escrever um livro sobre a própria superação, passou dois anos ouvindo profundamente histórias de 20 pacientes com doenças linfoproliferativas crônicas, um conjunto de doenças hematológicas que atingem o sistema linfático e o sangue. Gravou mais de 40 horas de entrevistas, viajou pelo interior, criou vínculos com famílias com o objetivo de transformar relatos sobre dor, medo e finitude em um retrato coletivo sobre humanidade.

A ideia surgiu justamente durante o tratamento. Separada e mãe de dois filhos, o primeiro pensamento diante do diagnóstico foi o mesmo de tantas mulheres: “Se eu morrer, quem vai cuidar deles?”. Vieram os exames, a quimioterapia, a perda do cabelo, os lenços coloridos e o impacto inevitável de ver a doença deixando de ser hipótese para ganhar concretude diante do espelho.

Mas, em vez de permanecer centrada na própria travessia, Eleonora começou a perceber que existia algo maior naquela experiência. Inspirada pela escritora Svetlana Alexievich, autora de obras como Vozes de Tchernóbil, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher e O Fim do Homem Soviético, decidiu construir um livro de vozes. “Eu tenho que fazer a história do outro, porque eu tenho que ampliar o universo”, disse-me durante nossa conversa.

Segundo Eleonora, as histórias reunidas no livro não falam apenas sobre câncer ou doenças hematológicas. Falam sobre tudo o que a doença atravessa. Há mães lidando com o medo de não acompanhar o crescimento dos filhos. Jovens tentando compreender o próprio corpo enquanto a vida ainda deveria estar começando. Pacientes do interior enfrentando viagens longas e cansativas em busca de tratamento. Pessoas do SUS e da rede privada vivendo angústias semelhantes, apesar das diferenças sociais. Há quem fale da perda do cabelo, da vaidade ferida, da solidão dos corredores de hospital e da exaustão emocional de viver sempre à espera de um próximo exame.

Mas há também encontros inesperados. Eleonora conta que algumas entrevistas viraram relações. Uma adolescente do interior, por exemplo, mexeu tanto com ela que a autora se hospedou na casa da família e dormiu no quarto da menina durante a viagem. Em outros casos, voltou para rever pacientes, comer bolo, receber notícias da lagoa da cidade ou simplesmente continuar conversas interrompidas pelo fim da gravação.

A escolha de ouvir pacientes tão diferentes também foi intencional. Os médicos que acompanharam o projeto ajudaram a construir um retrato amplo da doença, reunindo pessoas atendidas pelo SUS e pela rede privada, homens e mulheres, jovens e idosos. Nem todos sabiam sequer pronunciar corretamente o nome da própria condição. Alguns conviviam com linfomas agressivos. Outros enfrentavam doenças hematológicas raras e crônicas.

Em comum, havia algo impossível de medir em exames: o impacto emocional de viver sob a sombra da incerteza.

Nem todas as histórias terminaram bem. Algumas pessoas entrevistadas morreram antes do lançamento do livro. E essa talvez seja uma das decisões mais honestas de Infinitudes: não transformar o adoecimento em uma narrativa simplificada de vitória. A autora conta que queria rejeitar a lógica da “superação obrigatória”. Nem todos conseguem ser fortes o tempo inteiro. Nem todos saem curados. Nem todos encontram sentido rapidamente. Porque todos são humanos.

De acordo com a escritora, ao longo da construção do livro surgiram questões que ultrapassaram os protocolos médicos: o impacto da doença na identidade, os rearranjos familiares, a espiritualidade como tentativa de sustentação emocional, o desconforto social que ainda cerca a palavra câncer e a sensação de vulnerabilidade diante de um corpo que deixa de obedecer às certezas cotidianas.

A ideia é que Infinitudes funcione como identificação e acolhimento para quem atravessa o adoecimento. Para familiares e cuidadores, como possibilidade de enxergar medos muitas vezes silenciosos. E para quem nunca viveu um diagnóstico grave, como um convite à empatia. Não a empatia abstrata, mas aquela construída quando alguém realmente escuta o outro.

Talvez por isso o livro tenha recebido esse nome. Para que fale menos sobre finitude e mais sobre as infinitas formas de permanecer humano mesmo quando a vida muda completamente.

Justo por isso que eu recomendo fortemente que você siga, leia e escute Eleonora Santos. Porque, em tempos em que tantas narrativas sobre dor terminam aprisionadas no próprio espelho, ela escolheu transformar a própria travessia em espaço de escuta para os outros. E isso muda tudo.

P.S. Por cinco meses estive longe deste espaço por inúmeras questões pessoais. Mas não deixei de encontrar mulheres maravilhosas e histórias que merecem ser contadas, lidas e ouvidas. E agora elas estão de volta, quinzenalmente, às quintas-feiras.

Nalu Saad

Nalu Saad tem 38 anos de jornalismo e já atuou em impresso, internet, rádio e TV. É speaker TEDx como ativista pela saúde mental das crianças e adolescentes, jornalista amiga da Criança pela ANDI Comunicação e Direitos da Criança e integra a Rede Jornalistas pela Primeira Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. É escritora com cinco livros publicados, quatro infantis.

Nalu Saad

Jornalista

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