São vários os sinais: A apreciação da comida armazenada em estufa, a valorização do ambiente de mercearia, o retorno ao centro da cidade e toda a atual confusão da utilização da palavra raiz. Vivemos uma era de resgate das nossas tradições.
E não é de agora: Acredito que pelo menos nos últimos 10 anos Belo Horizonte tem tentado contar melhor sua história e valorizar um pouco mais seu comércio e suas tradições, se valendo também do título de “capital dos bares”.
O curioso é que um dos nossos principais elementos culturais ainda não participa como protagonista desse resgate: A cachaça. Com tantos anos de preconceito para superar, parece que a estrada ainda será longa. Afinal de contas, pensa comigo: cachaceiro é xingamento, cervejeiro é profissão.
Os primeiros haters da pinga apareceram em 1649, na figura da própria Coroa Portuguesa. Eles simplesmente proibiram a comercialização da bebida, porque o sucesso do destilado de cana foi tão grande, que a importação de vinhos portugueses sofreu um acentuado declínio.
Ainda que nossa bebida tenha sido símbolo da luta pela independência do Brasil mais à frente, em meados do século XIX a elite voltou a rejeitar a cachaça, relegando-a ao status de bebida de segunda. Essa rejeição vem em um momento onde a tal elite tentava se aproximar de hábitos e produtos europeus, rejeitando elementos culturais de origem brasileira (Apesar de parecer muito com os dias atuais, estamos falando de 1800 e tanto).

E essa rejeição se mantém. Nas mesas dos bares que visitamos, cervejas artesanais de produções diversas: Receitas belgas, ingredientes raros e harmonizações complexas. É comum também encontrar gin, tão difundido pela fama de destilado menos calórico, que vem sempre acompanhado de ervas, especiarias e espumas doces. O vinho está presente com uma seleção (ainda que tímida) de garrafas escolhidas por um sommelier – que os casais escolhem sempre a segunda mais barata, pra não parecer que estão tão pobres assim.
E a cachaça? Quando muito vemos 3 opções de dose, incluídas ali no final do cardápio e que atraem a atenção somente dos mais ávidos pela farra ou dos que buscam punir o aniversariante puxando um “Vai virar sim!”.
Apesar disso, essa não é uma crítica aos bares. O comerciante tem todo o direito de vender aquilo que tende a sair mais. Trabalhar com produtos nobres que tem pouca saída é sempre um risco. Mas ao mesmo tempo, se não existem boas opções de cachaça no cardápio, uma nova era de interessados não será formada. É a velha história do ovo e da galinha, e é por isso que saí tão satisfeito da Casa Alvorada.

Na minha visão, a Casa Alvorada presta um belo serviço à sociedade belo-horizontina, trazendo luz à segunda bebida mais consumida no país. Não que eles tenham descoberto a cachaça, óbvio que não. Mas talvez sejam a única casa em BH com condições de influenciar o público jovem quanto ao bom, consciente e interessante consumo da cachaça.
Essa condição de influência vem desde a fundação da Casa: Ela é uma collab, um feat, uma junção de trapos (como queiram chamar), entre dois negócios de BH: O Café Jetiboca e a Cachaçaria Lamparina. Ambos os negócios estão entre os primeiros a participar do processo de revitalização do Mercado Novo. O Jetiboca, inclusive, faz parte da “Família Viela”, dona de belíssimos projetos como o Juramento, Cozinha Tupis e Forno da Saudade. A Cachaçaria Lamparina peitou a briga da cachaça primeiro, e segue bem em alta tendo criado um dos drinks prontos mais queridos da cidade atualmente: O Marvadeza.
Viram um no outro sinergia maior que apenas o compartilhamento de copos lagoinha, uma vez que um café e um bar ocupam muito bem o mesmo espaço: Um abre cedo e o outro fecha tarde.
Ter um bar onde todos os drinks têm a cachaça como estrela é um risco na própria essência. Mas com o sucesso e relevância adquiridos no primeiro ano, podemos dizer que a Casa Alvorada encontrou seu lugar na cidade.

Quando passarem por lá, não deixem de pedir O Mochica, drink que mais gostamos. Feito pela mixologista Laiz Andrade, ele é a união da cachaça Dama da Noite com manga, coentro e gengibre. Delicioso. Outra boa ideia é contar com a ajuda dos funcionários para escolher um rótulo de pinga local que lhe interesse para beber como se deve: Pequenas bicadas de tempos em tempos, sem engolir tudo de uma vez. Intercale com uma água e um petisco, para limpar o paladar. Além de contribuir para o resgate de um elemento cultural relevante nosso, você estará fazendo um bem a si mesmo. Tenho certeza de que você vai gostar de ser cachaceiro.
Quer aprender mais sobre cachaça? Em julho acontece mais uma edição da Expocachaça. Veja detalhes aqui.
















