Enquanto os debates e os avanços relacionados à proteção dos animais avançam aqui e em todo o mundo, no Brasil, ainda são realizados cerca de mil rodeios e vaquejadas anualmente. De acordo com dados do Calendário Nacional de Rodeios, São Paulo lidera o ranking de eventos desse tipo, seguido por Minas Gerais, Paraná e Goiás. Enquanto isso, o Ceará é líder isolado em números de vaquejadas anuais.
Os rodeios, assim como as vaquejadas, representam grandes fontes de lucro, alimentadas por uma indústria que investe pesado na exploração dos animais. Eles chegam a ser vendidos por milhões de reais, dependendo da genética e desempenho na arena.
Mas a busca pela alta performance e pelo lucro custam caro aos animais. A montaria forçada, nos rodeios, e a perseguição, nas vaquejadas, causam muita dor e estresse. Eles sofrem com hemorragias, fraturas, rupturas de tendões, traumatismos cranianos, danos internos e ferimentos na cauda e no pescoço.
Apesar de muitos defenderem o rodeio e a vaquejada como manifestações culturais, entendemos que manter tradições que envolvem maus-tratos e violência contra seres vulneráveis não condiz com a evolução da nossa sociedade. Assim como ocorreu com o uso de animais nas apresentações de circo, é necessário acabar com todo tipo de exploração animal e promover mudanças que estejam alinhadas aos avanços da conscientização social e da proteção e bem-estar de todos os seres.
As duas práticas também são, por vezes, classificadas como esportivas. Porém, tratam-se de atividades muito mais voltadas ao espetáculo. O que atrai o público não é a habilidade dos atletas, mas o enfrentamento entre o peão e o animal.
Eu classifico os rodeios e vaquejadas como espetáculos de tortura. O estresse causado pelo show de fogos na abertura já seria motivo suficiente para manter os animais longe das arenas. Além disso, há os gritos do locutor, os aplausos da plateia, os canhões de luz, a música alta, a restrição de espaço… E a tortura segue nos rodeios com o uso das esporas e do sedém, corda que fica presa à barriga do animal durante todo o tempo. Nas vaquejadas, por sua vez, a derrubada do animal ao puxarem seu rabo é um maltrato ainda mais evidente.
Todas essas atrocidades, somadas à lógica das “apresentações” e às constantes viagens, evidenciam o sofrimento dos animais e tornam essas práticas insustentáveis e condenáveis.
Nos espetáculos de crueldade em que os animais têm comportamentos agressivos estimulados, sofrem todos: os animais, os peões e o público. No início desse mês, um trágico acidente marcou uma competição de rodeio na cidade de Nova Ubiratã, em Mato Grosso. O peão José Thaysson, de 20 anos, morreu na arena após ser arremessado do animal que, em seguida, pisou em sua cabeça. A plateia presenciou essa cena terrível. Recentemente, na Festa do Peão de Passos, no Sul de Minas, um touro escapou da arena e atingiu o público, gerando um enorme tumulto e ferindo três pessoas.
Infelizmente, o fato de serem eventos populares e rentáveis tornam a crítica e a extinção dessas atividades cruéis muito desafiadoras. Mas a violência contra os animais em rodeios e vaquejadas é evidente demais para ser ignorada. Por isso, em 2021, propus a proibição desses eventos em Belo Horizonte.
Enquanto debatíamos o projeto de lei na Câmara Municipal, fui fortemente pressionado e recebi ameaças de pessoas ligadas à “pecuária do pulo”. Não foi fácil. Mas persistimos no nosso propósito até aprovarmos a Lei Municipal 11.320/2021, que proíbe a realização de qualquer evento que envolva crueldade ou maus-tratos aos animais, na capital mineira. Fazem parte da proibição não só os rodeios e vaquejadas, mas também os eventos como touradas e rinhas de galos e de cães.
Quem descumprir a determinação pode ser multado, ter o licenciamento de suas atividades suspenso por até dois anos, e, em caso de reincidência, pagar multa em dobro.
Diante de tantos maus-tratos e riscos à vida dos animais, tenho grande satisfação em ser o autor dessa lei que proíbe os eventos que maltratam os animais na nossa cidade. Acreditamos que é fundamental vivermos nossos valores e darmos exemplo de tolerância zero à crueldade. Portanto, queremos inspirar outras cidades a proibirem também. Nosso sonho é ver eventos como rodeios e vaquejadas totalmente relegados aos livros de história.
Como presidente da Comissão de Meio Ambiente, Defesa dos Animais e Política Urbana, da Câmara Municipal de BH, sigo trabalhando para promover uma sociedade mais justa e compassiva, onde o respeito pelos animais seja prática cotidiana.








