A Polícia Federal (PF) indiciou 17 pessoas suspeitas de participar de um esquema de mineração ilegal na Serra do Curral, em Belo Horizonte. Entre os investigados está o presidente da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Henrique Moreira Sousa. Outras pessoas ligadas aos empreendimentos irregulares na Serra do Curral são suspeitas de crimes ambientais, associação criminosa, lavagem de dinheiro e até corrupção ativa e tráfico de influência para favorecer interesses do grupo em órgãos ambientais..
O inquérito da PF, ao qual o BHAZ teve acesso, foi construído a partir da Operação Parcours e aponta o envolvimento de empresários, servidores públicos, consultores e geólogos em um esquema que teria fraudado documentos ambientais para manter a extração de minério de ferro na Mina Granja Corumi.
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O inquérito foi instaurado a partir de uma requisição do Ministério Público Federal para apurar a extração irregular de minério em área tombada da Serra do Curral. Segundo a Polícia Federal, a Operação Parcours é um desdobramento da Operação Rejeito, que investiga um esquema mais amplo de crimes ambientais, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo empreendimentos minerários na região. As duas investigações compartilham provas e apontam conexões entre os grupos investigados. Pela Rejeito, outras 34 pessoas foram indiciadas, somando 51 ao todo.
As investigações indicam que instrumentos como o Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD) e o Plano de Fechamento de Mina (PFM) foram utilizados pela mineradora Empabra para simular a recuperação ambiental da área, enquanto a exploração mineral continuava. O faturamento do grupo poderia chegar a R$ 2,3 bilhões.
Danos ambientais e acusações
De acordo com o relatório da Polícia Federal, a atividade causou impactos na Serra do Curral, incluindo a destruição da nascente do Córrego Taquaril, abertura de cavas além dos limites autorizados, supressão de vegetação e possíveis danos ao lençol freático.
A investigação também aponta que relatórios técnicos teriam sido elaborados para ocultar a lavra ilegal, enquanto servidores da ANM e integrantes de órgãos ambientais teriam favorecido a mineradora por meio da aprovação de pareceres e da omissão em fiscalizações. Consultores também atuariam como intermediários entre a empresa e agentes públicos.
A PF cita ainda a Fleurs Global Mineração como responsável pelo beneficiamento e pelo escoamento do minério extraído ilegalmente. Os 17 indiciados respondem por crimes como organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, crimes ambientais e usurpação de bens da União.
Esquema teria mirado outras áreas da Serra do Curral
A Polícia Federal afirma que o esquema não se restringia à Mina Granja Corumi. Segundo a investigação, o chamado “Projeto Taquaril” previa a exploração de outras áreas tombadas e embargadas da Serra do Curral para abastecer uma unidade de beneficiamento de minério, em um plano que dependia da expansão da atividade minerária na região.
O relatório também sustenta que a organização buscava influenciar decisões de órgãos responsáveis pelo licenciamento e pela fiscalização ambiental e mineral. Conforme a PF, o grupo pretendia obter pareceres e autorizações favoráveis e teria atuado para impedir o avanço do projeto de criação do Parque Nacional da Serra do Curral, medida que poderia inviabilizar os empreendimentos previstos para a área.
Decisões da Justiça vem determinando o futuro da Serra do Curral
Em março deste ano, a Justiça Federal determinou uma multa de R$ 4 milhões à Agência Nacional de Mineração (ANM), por descumprir uma ordem judicial do final de 2018, que proibia novos direitos minerários na Serra do Curral. De acordo com o Ministério Público Federal, as investigações mostraram que, mesmo ciente da proibição, o órgão autorizou, pelo menos, quatro novos empreendimentos na região, nos últimos anos. A decisão também proíbe qualquer nova atividade minerária na região.
A Justiça também determinou a suspensão de 57 processos administrativos voltados para a região da Serra do Curral. Em caso de descumprimento, uma multa, de 1 milhão de reais, poderá ser aplicada à agência reguladora.
A decisão também envolveu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que teria reduzido a área tombada do Pico Belo Horizonte, passando de, aproximadamente, 42 hectares para apenas 9 hectares. A Justiça entendeu que qualquer retirada de proteção deve ser acompanhada de um processo administrativo rigoroso e um decreto do presidente da República -o que não aconteceu.
Com a anulação, o perímetro original da área de proteção, definido, em 2016, pelo próprio Iphan, ficou assegurado, evitando a “mutilação da paisagem e a destruição do meio ambiente”.
Já no último dia 23, a Justiça Federal determinou que o licenciamento do Complexo Minerário Serra do Taquaril, na Serra do Curral, em Minas Gerais, não pode avançar sem a aprovação técnica do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A decisão atende a pedidos apresentados pelo Ministério Público Federal (MPF).
Com a sentença, a Taquaril Mineração S.A. (Tamisa) está impedida de realizar qualquer retirada de vegetação na área até que o órgão federal analise e autorize formalmente os impactos ambientais do empreendimento sobre o bioma Mata Atlântica.
O dizem os citados na investigação da PF?
Em nota enviada ao BHAZ em abril de 2025, a Tamisa afirmou “que não há qualquer fato novo que justifique novo pedido liminar, uma vez que a licença ambiental está suspensa e que qualquer mudança de entendimento do IBAMA sobre a matéria em discussão no processo não afeta o que já foi decidido, nem desfaz atos com base nele praticados.”
Em nota publicada neste domingo (28), a Agência Nacional de Mineração (ANM) afirmou que atuou no processo judicial envolvendo a Mina Granja Corumi estritamente dentro de suas competências legais e em cumprimento às determinações da Justiça. Segundo o órgão, sua participação se restringiu à análise técnica e à fiscalização previstas na legislação, sem qualquer atuação fora dos limites institucionais. A agência também ressaltou que decisões relacionadas ao empreendimento foram submetidas ao Poder Judiciário, responsável pela condução do processo.
A ANM ainda informou que permanece à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários e reafirmou o compromisso com a legalidade, a transparência e a cooperação institucional. A agência destacou que continuará adotando as medidas cabíveis no âmbito de suas atribuições legais e regulatórias, acompanhando os desdobramentos do caso.
Sobre o possível envolvimento do presidente da ANM, Mauro Henrique Moreira Sousa, a agência alega que a atuação dele sempre esteve “voltada ao acompanhamento institucional do processo e ao cumprimento das competências legais da ANM”, afim de “viabilizar a adequada instrução do processo administrativo, permitir a análise técnica pelas unidades competentes da Agência e dar cumprimento às determinações emanadas da Justiça Federal”.
O BHAZ também procurou a Fleurs Global Mineração e a Empabra, citadas na investigação, e aguarda retorno.









