O Clube da Esquina, um dos movimentos musicais brasileiros mais importantes, pode se tornar um Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais. O Ministério da Cultura liberou, em dezembro, a captação de R$ 1,6 milhões com objetivo de viabilizar o processo, mas a informação só foi divulgada nesta semana. Ao BHAZ, o produtor musical Robertinho Brant que, em parceria com a produtora Quinta Arte, é um dos idealizadores da iniciativa, deu mais detalhes.
Em entrevista ao BHAZ, Robertinho explicou que o processo para que o clube se torne um patrimônio terá duração de 18 meses, período dedicado à elaboração de um dossiê detalhado para o registro do patrimônio imaterial. “O nosso objetivo é oficializar o Clube da Esquina como um movimento musical. Esse reconhecimento é extremamente necessário, pois aquele grupo, formado por jovens de Belo Horizonte e do interior de Minas, marcou história na música. É a nossa grande paixão, faz muita falta e está sendo revisitado, especialmente diante do atual contexto político e cultural”, destacou.
Surgido na década de 1960, entre as ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro Santa Tereza, região Leste de Belo Horizonte, o Clube da Esquina nasceu da amizade entre Milton Nascimento e os irmãos Márcio e Lô Borges. O movimento musical, que também contou com nomes como Toninho Horta, Beto Guedes, Fernando Brant, Wagner Tiso, Tavinho Moura e Ronaldo Bastos, ficou eternizado por sua inovação e influência. Além disso, foi responsável pela criação de dois álbuns icônicos que marcaram a história da música brasileira: ‘Clube da Esquina’ e ‘Clube da Esquina 2’.
“Os discos são o símbolo desse encontro, algo celebrado não apenas nacionalmente, mas também no âmbito internacional. Em 2024, o disco ‘Clube da Esquina’ ficou entre os 10 melhores discos de todos os tempos, lista criada pela revista norte-americana Paste Magazine. E, em 2022, foi eleito o melhor disco da história brasileira pelo podcast Discoteca Básica. Então, esse legado precisa ser mantido”, afirmou o produtor musical.
Dinheiro será destinado à preservação da memória
Conforme Robertinho, a captação de R$ 1,6 milhões para que o clube se transforme em um patrimônio imaterial será viabilizada pela iniciativa privada, prevista pela Lei Roaunet. Esse valor será destinado a atividades voltadas à preservação, documentação e promoção do Clube da Esquina, como oficinas, exposições e campanhas educativas. “Nós queremos envolver esse processo de registro no tecido da sociedade. Já estamos criando módulos de oficinas para serem oferecidas em escolas estaduais e municipais, misturando as músicas do movimento à cidadania, direitos humanos, consciência ambiental e liberdade. Nós queremos chegar nas crianças e nos jovens para que haja a preservação do Clube”, disse.
Além dos módulos das oficinas, Robertinho tem trabalhado na produção de dois discos duplos de estúdio, que desencadeou o concerto ‘As Cores do Clube da Esquina’, apresentado em junho do ano passado e que contou com os membros do movimento e artistas convidados. “Quando você torna um bem cultural em patrimônio imaterial existem várias salva-guardas que precisam ser criadas, justamente para ser a ponte entre e o passado e o futuro para não deixar morrer. E, desde que fiz esse concerto, percebi que ainda há milhares de brasileiros comovidos pela música do Clube”, explicou.
Além do processo, que busca tornar o Clube um patrimônio, que corre no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), Robertinho afirmou ao BHAZ que pretende fazer o pedido de registro ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) nos próximos meses.
“Se ambos os procedimentos acontecerem simultaneamente, seria maravilhoso. Afinal, embora o Clube da Esquina tenha nascido em Minas, ele faz parte da riqueza cultural do Brasil como um todo. Além disso, seria um passo essencial para que o movimento seja reconhecido no âmbito mundial pela Unesco, algo que tenho a pretensão de fazer. A importância do Clube não se limita ao nosso país; ela alcança o mundo inteiro. Lá fora, as pessoas reconhecem e valorizam esse legado”, finaliza.
O BHAZ entrou em contato com o Ministério da Cultura para saber mais detalhes sobre a liberação da captação.
Veja a nota da pasta na íntegra:
O Ministério da Cultura (MinC) informa que o proponente do projeto Dossiê e Registro – Clube da Esquina como patrimônio cultural de Minas Gerais está apto a realizar a captação de recursos via Lei Rouanet, na área de patrimônio cultural. Todas as informações sobre projetos da Lei Rouanet estão disponíveis no Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic): https://aplicacoes.cultura.gov.br/comparar/salicnet/. Com o Nº do Pronac: 2416155 é possível encontrar os dados referentes ao projeto inserido no segmento patrimônio cultural no estado de Minas gerais.
A Pasta ressalta ainda que a Lei Rouanet funciona por demanda espontânea da sociedade. As propostas são apresentadas em plataforma digital pelos produtores culturais e são avaliadas pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) — constituída por representantes da sociedade civil ligados às áreas culturais e das entidades vinculadas ao MinC. Caso cumpra as exigências da Lei, é recebida a autorização de captação de recursos junto aos investidores — pessoas físicas e jurídicas —, para a execução do projeto. Em troca do apoio, os investidores são beneficiados com renúncia fiscal. O Salic e a equipe do MinC acompanham os projetos em execução para ajudar a detectar desvios e riscos precocemente, permitindo a adoção de medidas preventivas e corretivas oportunas. O objetivo é garantir a transparência e eficiência no uso dos recursos públicos destinados à promoção cultural. Após o término do projeto, o proponente precisa prestar contas de tudo o que foi realizado.











