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Dia do Hip Hop: batalhas de rap movimentam a cena cultural em Contagem

11/08/2026 às 15h26
Dia do Hip Hop: Batalhas de rap movimentam a cena cultural em Contagem
Contagem conta com diferentes batalhas de rap semanais. (Reprodução/Ronnie Von da Costa)

Movimento de resistência e expressão coletiva, o Hip Hop é celebrado nacionalmente nesta terça-feira (11). Formada por cinco elementos – DJ, MC, Breaking, Grafite e Conhecimento –, a cultura está presente, sobretudo, nas praças, ruas e periferias, mas também ocupa grandes palcos e movimenta a indústria fonográfica. Em Contagem, na Grande BH, ela se manifesta por meio de encontros semanais, oficinas, batalhas de rima e rodas de conversa, além de atuar como ferramenta de identidade, expressão e transformação social para a juventude.

Entre os símbolos da cena Hip Hop no município estão as batalhas de rap. De segunda a sábado, diferentes coletivos promovem encontros em diversas regionais da cidade, que se transformam em espaços de lazer, socialização e valorização da cultura. Uma das pioneiras é a Segunda Rap, criada em 2015 por Welberth Batista, conhecido como Tinga ou Oze, e reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Contagem.

Como o próprio nome indica, o movimento ocorre às segundas-feiras, no bairro Eldorado, e segue o formato de conhecimento, no qual os MCs devem desenvolver suas rimas a partir de um tema sorteado. Além de promover reflexões sobre questões políticas e sociais, como racismo, cidadania e saúde pública, a batalha também serviu como ponto de partida para a trajetória de expoentes do rap mineiro e nacional.

Movimento crescente

Este é o caso de Wanessa Rodrigues, de 32 anos, conhecida na cena como Nega Ruiva. Natural de Bocaiúva, no Norte de Minas, a trajetória da MC, campeã estadual e representante de Minas Gerais no Duelo Nacional em 2022, está diretamente ligada ao início das batalhas em Contagem.

Entre o fim da década de 1990 e os anos 2010, o movimento Hip Hop no município se fortalecia por meio de shows e grupos de MCs, que ajudaram a consolidar a cena e abrir espaço para novos artistas. Em Belo Horizonte, por exemplo, as batalhas já ganhavam força desde 2007, com a criação do Duelo de MCs pelo coletivo Família de Rua. Atualmente, a competição é considerada uma das principais referências do freestyle rap no Brasil.

“Como eu era iniciante, ainda não tinha coragem de entrar em batalhas maiores. Na época, morava na regional do Barreiro, mas acabei migrando para Contagem. Foi aí que conheci a Segunda Rap e a batalha de conhecimento. Com o tempo, fui interagindo com o pessoal e participando de outras competições, como a Batalha da Glória, que acontecia na Praça da Glória e hoje não existe mais”, contou em entrevista ao BHAZ.

Nega Ruiva explica ao BHAZ que, com o passar dos meses, novos coletivos e batalhas ganharam força na cidade, como a Batalha da Jabu, do Icaí Vera, e a Batalha do AB. “A gente começou com um número pequeno de pessoas, na Praça do Iria. Como havia alguns shows, além da batalha, isso chamava a atenção da comunidade próxima, na região do Marimbondo, onde o pessoal não tinha opções de lazer propriamente. Com isso, a galera foi entendendo a importância de não deixar as batalhas de rima acabarem”, relatou.

A MC ressalta, no entanto, que o movimento enfrentou resistência e precisou lidar com a repressão policial antes de conquistar respeito e reconhecimento do poder público. “O pessoal começou a buscar informações sobre como se portar diante de uma operação ou abordagem policial. Isso gerou uma união entre os coletivos e fortaleceu o movimento Hip Hop em Contagem. Isso foi fundamental, porque é muito difícil descentralizar, embora vários movimentos estejam crescendo na Grande BH. Se o pessoal não se une, acaba ficando para trás”, disse.

Para ela, a experiência nas batalhas do município foi essencial não apenas para sua formação como MC, mas também para seu desenvolvimento pessoal. Como participa de competições de conhecimento, é necessário estudar diferentes assuntos e temas. “Você tem que ter domínio sobre aquilo que está sendo dito. Contagem foi uma grande escola para mim e, todas as vezes que tenho alguma competição, posso olhar de cima do palco e ver os mesmos rostinhos torcendo para mim. Lá, eu construí uma família que segue me apoiando”, refletiu.

Segunda Rap

Segundo Welberth Batista, de 33 anos, idealizador da Segunda Rap, o coletivo surgiu após ele passar uma temporada em Florianópolis, em 2014, e conhecer a Batalha da Alfândega, realizada no Centro Histórico da cidade. Morador de Contagem, ele contou que, até então, o município contava apenas com eventos promovidos por grupos de rap, como o Mão Única.

“Eram muitos shows, né? Eu vivia muito a cultura nesses eventos, com o Breno Ras, por exemplo, que é integrante do X Sem Peita. E aí, quando fui para o Sul e conheci a batalha de conhecimento lá, pensei em trazer isso para minha quebrada, né? Para o povo periférico próximo a mim”, disse.

Tinga ressalta ainda que fazia questão de promover esse formato de duelo. De acordo com ele, na chamada batalha de sangue, os MCs recorrem a ataques verbais, críticas e ironias para superar o adversário, que é “atingido” por bons argumentos e rimas fortes.

“No conhecimento, o MC precisa mostrar conhecimento e estudar o tema para rimar. Então, seria mais do que uma batalha de ideologia, porque não é só chegar, rimar e falar qualquer coisa. Tem que aprender a dialogar. Além disso, seria uma forma de promover a paz e unir a galera da região. Historicamente, a batalha de sangue levantou muita rivalidade em diferentes bairros e muita guerra entre tribos”, contou.

O produtor ainda relembra a resistência policial que enfrentou ao longo dos anos para manter os encontros semanais. Desde que foi criada, a Segunda Rap ocorreu em, pelo menos, quatro lugares e, há três anos, ela está localizada no Espaço Popular do Eldorado. “O Hip Hop mudou a minha caminhada. No início, foi bem difícil, mas conseguimos conquistar o nosso espaço. Antes, era enquadro da guarda toda segunda”, explicou.

Além das batalhas de conhecimento, que reúnem entre 70 e 100 pessoas, a Segunda Rap promove shows, grafitagem e recitação de poesias. A ideia é abrir espaço e o microfone para diferentes talentos da região. “Essas atividades vão alternando e gostamos de trazer shows mesmo para o evento. Nós temos b-boy também… De levinho, vamos criando conexões toda segunda-feira”, afirmou.

O evento também promove, semanalmente, uma ação de arrecadação de 1 litro de leite de caixinha para doação.

Segunda Rap
Dia:
segunda-feira
Horário: 19h30
Local: Espaço Popular do Eldorado
Endereço: R. Portugal, 370 – Eldorado, Contagem

Batalha da Jabu

Fundada em 2016, a Batalha da Jabu completa neste ano uma década de existência, consolidada como um símbolo de resistência e democratização cultural em Contagem. O coletivo nasceu da necessidade de jovens periféricos que, devido ao alto custo do transporte público, não conseguiam acessar as batalhas de Belo Horizonte.

O movimento teve início de forma orgânica na Praça da Jabuticaba, onde os encontros para rimar e jogar baralho sob as árvores batizaram o grupo e deram origem a um dos polos mais importantes da cultura Hip Hop na região. “A galera ficava lá na Praça da Jabuticaba, debaixo das árvores de jabuticaba, rimando, jogando baralho, jogando truco, fazendo um rolezinho ali na praça mesmo. E foi assim que foi surgindo a Batalha da Jabu”, contou Mary Bertolacini, coordenadora de comunicação do coletivo.

Apesar do surgimento na Praça das Jabuticabas, hoje o encontro semanal é realizado na Praça Tiradentes. Atualmente, a Jabu é um coletivo profissionalizado que atua como a seletiva oficial de Contagem para o Duelo de MCs Nacional, fruto de parcerias com a Família de Rua e editais estaduais.

Com uma estrutura de governança que prioriza a liderança feminina, o projeto expandiu suas frentes para incluir artes visuais, dança e educação, contando com DJ e grafiteira residentes que promovem oficinas em cada edição. “Uma das nossas pautas mais importantes da Jabu atualmente é trazer mesmo as mulheres para esse local de honra, de preservação e de respeito dentro do Hip Hop”, contou.

O ambiente é planejado para ser inclusivo e familiar, atraindo desde crianças a idosos, com um foco especial em fomentar a participação de mais mulheres MCs nas rimas.

Batalha da Jabu
Dia:
terça-feira
Horário: 19h30
Local: Praça Tiradentes
Endereço: R. Cel. João Camargos, 30 – Centro, Contagem

Batalha do Eldorado

A Batalha do Eldorado surgiu em 2019 como um braço da Segunda Rap, já que promove batalhas de sangue e foi idealizada pela mesma organização. Segundo o jornalista e integrante do movimento Helder Lopes, de 27 anos, a batalha começou próximo à Estação Eldorado do Metrô. Porém, como enchia bastante, acabou encontrando resistência. “Foi uma forma de trazer uma nova modalidade e movimentar mais a cena durante a semana. É também uma maneira de conseguirmos fazer conexões com outros duelos da cidade e trazer um público maior”, disse.

A Batalha do Eldorado ocorre às quintas-feiras e, assim como a Segunda Rap, é realizada no Espaço Popular do Eldorado. Em média, segundo Helder, o movimento reúne 150 pessoas na praça e diferentes elementos do Hip Hop.

“Quando a gente olha para os cinco elementos, falando do conhecimento também, que envolve a Segunda Rap, a gente tem espaço para a poesia. Então, acaba a primeira fase de rimas e todos os poetas que quiserem mandar uma poesia têm o seu espaço. Pode ser a capela ou com beat; é o poeta quem escolhe. No pós-batalha também tem os meninos do passinho, que gostam do breaking e do passinho de BH. O DJ toca o beat, e eles vão dançando e fazendo a sua performance. Então, rola super uma mistura”, explicou.

Para o jornalista, a importância das batalhas está no fortalecimento da cena de Contagem e no fortalecimento cultural. “Antigamente, eram poucos os movimentos que aconteciam. Hoje, a gente já tem praticamente todos os dias. Acho que é a conexão de pessoas, porque toda semana tem pessoas novas lá, querendo saber como funciona o movimento. Aí acaba que uma pessoa chama outra, sabe? Então, eu acho que é mais essa multiplicação de pessoas que estão ali pelo movimento mesmo, querendo conhecer, querendo saber mais”, finalizou.

Batalha do Eldorado
Dia:
quinta-feira.
Horário: 19h.
Local: Espaço Popular do Eldorado
Endereço: R. Portugal, 370 – Eldorado, Contagem

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Classificação etária: Livre
Entrada: Gratuita

Ana Magalhães

Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi estagiária do Jornal Estado de Minas e do programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Repórter do BHAZ desde agosto de 2024.
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Estagiário do BHAZ

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