FBC: Cria do Duelo de MCs de BH mostra suas raízes e lança hoje com Vhoor o álbum ‘Baile’

FBC
FBC abriu as portas de sua residência no bairro Cabana, em BH, e contou sobre suas raízes na música (Moisés Teodoro/BHAZ)

Dificilmente um belo-horizontino que curte hip hop nunca ouviu falar do FBC. Reconhecido como Fabricio para uns, e Padrim para outros, o rapper é um dos maiores campeões do Duelo de MCS de Belo Horizonte, tendo batido ponto no evento desde a sua segunda edição, lá em 2007. Hoje (12), FBC lança um novo álbum, “Baile”, em parceria com o produtor Vhoor, e abre as portas de sua “quebrada” e de sua vida pessoal para o BHAZ.

Como grande parte dos moradores da região metropolitana de Belo Horizonte, Fabricio Soares Teixeira é um desses que nasceu em um hospital da capital, mas passou grande parte da vida em Santa Luzia, município da Grande BH com mais de 220 mil habitantes.

Lá foi a origem para tudo o que forma o rapper que ouvimos hoje: o apelido, os primeiros contatos com a música e a vivência que se refletiu nas letras de suas rimas. “Eu morei no São Benedito até os meus 19 anos, lá eu frequentava a escola Raul Teixeira, que foi onde eu montei a minha primeira banda”.

FBC mora, atualmente, no bairro Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte
(Moisés Teodoro/BHAZ)

Banda de rock e clássicos da música

“Era uma banda que fazia covers do Nirvana, eu tocava bateria, e também tocava na Renovação Carismática, numa igreja católica. Aí eu comecei a mexer com música mesmo, tocar e trabalhar com instrumento”, conta FBC.

Mas, antes de se tornar um trabalho – e que Fabricio via como um hobby -, a música para o cantor começou como mera apreciação durante a infância, por conta de seu tio Nereu. “Onde eu morava o pessoal sempre gostou de fazer churrasquinho no fim de semana, e meu tio tinha uma coleção de vinis”.

“Ele ia nos churrascos e tocava os grandes clássicos da música mundial, como Beatles, Michael Jackson, James Brown, e os clássicos nacionais também, como Caetano, todos da Jovem Guarda… Ele era muito fã da Jovem Guarda. Então a música sempre esteve perto de mim porque eu sempre gostei de cantar, sempre fui muito de cantar”.

‘A música é igual um sorriso’

FBC deixa claro que esses grandes cantores o influenciaram como artista. “Eu acho que você gostar de música, independentemente do gênero, é o que nos torna músicos. O que nos torna profissionais na área é gostar de musica boa. E musica boa não tem essa de idade, lugar ou língua, a musica é a vibração, a energia, a musica é igual a um sorriso”, define.

“Tudo isso me formou, todas essas bandas, esses autores, esses intérpretes, todos esses gêneros musicais me formaram. Por isso hoje eu acredito que eu posso fazer o que eu quiser. Não consigo ser um tenor, uma Gal Costa, mas eu consigo cantar, compor, tocar, tá ligado? Qualquer coisa que eu quiser”.

FBC toma um suco no Bar e Lanchonete Petisco, um dos seus lugares favoritos do bairro onde mora
(Moisés Teodoro/BHAZ)

Música na infância e significado de ‘FBC’

Na infância, Fabricio deu a oportunidade para o seu lado artista na 4ª série do Ensino Fundamental, na Escola Municipal Profª Maria da Glória de C. Veado. “Eu escrevi um rap e a gente apresentou essa música no poliesportivo, nós cantamos e dançamos ela”.

Ainda na infância, foi o momento em que o apelido, ou melhor, a sigla de seu nome, surgiu. “Perto da minha casa tinha o ‘Fliperama da Preta’, e tinha uma máquina lá que chamava ‘Fatal Fúria’. E nela o recorde do jogo ficava gravado com 3 letras, aí todo mundo fazia a mesma coisa, se o cara chamava Tiago, colocava ‘THG'”.

“O cara que chamava Eduardo colocava ‘Edu’, e eu chamava Fabricio e colocava ‘FBC’. Aí surgiu ‘FBC’, bem na minha infância. Eu fui crescendo e esse apelido pegou na região, aí eu puxava ele pelos bairros vizinhos, onde eu estudava, e quando eu fui no duelo [de MCs] também marquei como FBC”.

Duelo de MCs

Aos 17 anos, em 2006, FBC lançou sua primeira música com De La Rima, intitulada “Navio Negresco”. “Ela foi para o YouTube, tinha um mano que cantava com a gente que a voz dele era bem boa, aí fez até um barulhinho no começo, só que a maturidade de menino novo não deixou dar certo e acabou”, conta.

Já no ano seguinte, em 2007, o Duelo de MCs entrou na vida de Fabricio como quem não quer nada: até então, FBC conhecia pouco da cultura de hip hop, e não entendia o conceito das batalhas. “Eu era funkeiro, tocava bateria, mas o rolê nosso era ouvir funk, axé, a gente ouvia o que estava tocando na rádio”.

“Eu lembro que a primeira pessoa que me falou que eu tinha uma vocação para o freestyle foi um cara lá de Santa Luzia. Um dia a gente estava voltando da aula, e na época Bento XVI tinha acabado de ser papa, aí fiz uma paródia sobre isso com uma música dos Engenheiros do Hawaii, zoei lá, e o cara falou: ‘Você tem um dom. Tá rolando tal movimento em tal lugar’”.

O tal movimento era nada menos do que o Duelo de MCs de Belo Horizonte, que tinha acabado de surgir. “No primeiro dia já coloquei meu nome para mandar um freestyle, eu perdi no par ou ímpar e mandaram eu começar. Aí eu mandei a rima, ‘vim da periferia, sou de Santa Luzia, tamo na correria…’ aquela coisa clichezona do cara que vem de onde eu vim”.

FBC no terraço de sua casa, no bairro Cabana do Pai Tomás (Moisés Teodoro/BHAZ)

‘Entendi o que era a batalha’

“Aí o cara acabou com a minha vida, e eu estava naquela situação vendo todo mundo rindo da minha cara, daí eu fiquei bolado. Só que na volta eu já destruí ele, e todo mundo gritou, ficaram perguntando ‘quem é esse cara?’. Todo mundo depois foi me cumprimentar e aí eu gostei e entendi o que era a batalha”, relembra.

A partir daí, o Duelo de MCs se tornou a segunda casa de FBC. O artista conta que participou de todas as batalhas, que acontecem quinzenalmente, até meados de 2014 a 2015. “No decorrer do que foi acontecendo o duelo, eu fui conhecendo a cultura hip hop, entendendo a música, sabendo quais são os pilares, os gêneros, entendendo a moda e os movimentos sociais”.

À medida que o Duelo de MCs foi crescendo, até se tornar o “Duelo Nacional”, a batalha revelou grandes talentos brasileiros, como Djonga, Orochi, Hot e Oreia, Douglas Din e, entre eles, FBC. “Da época eu era um dos três maiores campeões da batalha, tem isso registrado até hoje”, conta.

Caminho até a música solo

Mesmo sendo um dos maiores campeões da competição e tendo tocado em uma banda, Fabricio demorou um pouco para tornar a música uma profissão. No ano de 2015, ele fundou o grupo DV Tribo, que contava com Hot e Oreia, Clara Lima, Djonga e CoyoteBeatz.

O grupo ficou ativo até o ano de 2018, mesmo ano em que FBC decidiu viver apenas da música e começou a trabalhar em projetos solo. “Acho que antes eu fazia porque era uma coisa que eu sabia fazer, as pessoas sempre me falavam ‘você é bom nisso’. Tentei trabalhar de muitas outras coisas e elas não deram muito certo.

“Eu fui faxineiro na PUC, eu varri rua em BH durante um ano e pouco, fui ‘meia colher’ de pedreiro, fui copeiro na noite, já fiz um tanto de coisas”, relembra o rapper. FBC entrou com o pé direito em sua carreira solo com o lançamento do álbum “S.C.A” (Sexo, Cocaína e Assassinatos), no dia 26 de outubro de 2018.

FBC tem o nome do álbum ‘S.C.A’ tatuado na mão direita (Moisés Teodoro/BHAZ)

Melhor álbum brasileiro

À época, o disco acabou sendo elegido como um dos 5 melhores álbuns brasileiros de 2018, em uma votação promovida pela Red Bull. Nas 10 faixas, Fabricio decidiu falar sobre a realidade da vida na periferia e o desejo pelo alcance de status, que muitas vezes é atravessado pelas desigualdades.

‘Padrim’

O segundo álbum de estúdio de FBC veio em 2019, no dia 15 de novembro. “Padrim” causou alvoroço nas redes sociais, pois o rapper conseguiu mobilizar para que várias pessoas, incluindo famosos como Marília Mendonça e Mano Brown, postassem a data de lançamento do disco.

Fabricio conta que a pandemia acabou atrapalhando a divulgação do álbum em shows e eventos presenciais. No entanto, “Padrim” ganhou o status de disco de ouro em junho deste ano. “Desprezado disco de ouro. Obrigado galera. Na moral amo estar com vocês”, agradeceu FBC em seu Twitter.

‘Best Duo’

Antes mesmo de lançar Padrim, FBC já tinha uma carta na manga, mas que ganhou as plataformas de streaming somente no ano passado. “Best Duo” (em português, “Melhor Dupla), é um álbum em parceria com uma das integrantes do grupo Fenda, a cantora Iza Sabino.

“Eu gosto muito de ouvir as músicas e quando eu lanço um trabalho, eu já quero fazer mais, porque eu quero ouvir. Acho que é difícil eu achar uma coisa que eu quero ouvir, e quando eu não acho, eu quero fazer para eu ouvir aquilo que eu quero ouvir”, reflete o rapper.

‘Outro Rolê’… para a Europa

E ele não parou por aí! Ainda neste ano, FBC lançou um projeto junto ao produtor e beatmaker belo-horizontino Vhoor. Para esse trabalho, Fabricio teve a oportunidade de viajar para a Europa e gravar as seis músicas nos estúdios de lá, e assim nasceu o “Outro Rolê”, que conta com os beats e as acapellas isoladas de cada faixa.

Durante a experiência visitando a Suíça, a Alemanha e a Holanda, o rapper conta que a viagem foi “flores” somente no início. Isso porque ele pôde se deparar com uma visão discriminatória que muitos europeus têm sob os brasileiros.

“Lá que eu entendi o que é ser brasileiro, é esse povo que trabalha tanto, que carrega alegria de viver, de cantar, de dançar, mas que é visto de uma forma tão discriminatória. Eu entendi que lá o nosso nome traz em si uma carga muito pesada, que o brasileiro é o bandido, é o traficante, era muito sinistro”.

Entrega de corpo e alma

Fabricio diz que, dentre seus álbuns, ele não tem favorito, e olhando para a qualidade deles, é possível entender quando o artista brinca que “não se escolhe um filho”. “Sinceramente eu não consigo dizer qual é o meu melhor trabalho, eu gosto de todos, em todos eu me entreguei e fiz de corpo e alma”.

FBC no terraço de sua casa no bairro Cabana do Pai Tomás (Moisés Teodoro/BHAZ)

Baile – Uma Ópera Miami

Fechando o ano com chave de ouro, FBC embarca num novo projeto, e acompanhado novamente de Vhoor. Ambos lançam, nesta sexta-feira (12), o “Baile”, um álbum que segue o estilo “Miami Bass” e que conta a história de “Pagode”, o personagem principal das músicas.

Para além da história de Pagode, a história da parceria entre Fabricio Soares e Victor de Oliveira explica bem o rumo escolhido para este novo álbum. Vhoor conta ao BHAZ que a partir do trabalho feito em “Outro Rolê”, ambos tiveram uma sinergia que levou à criação da música “De Kenner”, lançada no ano passado, e que já dava indícios do que a nova era de FBC traria.

“A Michelle, esposa do Fabricio, estava no Twitter e acabou vendo alguém compartilhando uma música minha. Ela mostrou pro FBC, ele perguntou de quem era, e acabou encontrando meu perfil. Aí ele me seguiu no Instagram e chamou para a gente fazer alguma coisa junto”, relembra Vhoor.

Vilarinho: ponto em comum

O rapper conta que o que lhe chamou a atenção no trabalho de Vhoor foi o fato de nunca ter ouvido alguém produzir da maneira como ele faz. “A sonoridade que o Vhoor faz é uma música super de pista, que flerta muito com a música brasileira, com o funk, com a música de periferia, e me lembra da minha juventude na Vilarinho”.

A Vilarinho é um ponto em comum para a vida de ambos, uma vez que Vhoor morou na famosa avenida da região de Venda Nova durante sua infância. Enquanto isso, a quadra da Vilarinho era ponto de encontro de Fabricio e seus amigos durante a adolescência.

Vhoor e FBC (Divulgação/Wanderley Vieira)

“Quando a gente trombou e se conheceu, ele foi passando as referências dele e eu acabei vendo que era isso mesmo, nós bebemos da mesma fonte que é a Zona Norte”, afirma FBC. Vhoor complementa: “Vimos que era uma linha de raciocínio parecida, que é o resgate da música brasileira dos anos 2000, que nos influenciou muito, e também da música periférica de BH”.

Um ano depois, Baile!

Todas essas referências resultaram em Baile, após um 1 ano de estudos e trocas dentro do estúdio. A dupla define o álbum tanto como uma ressignificação do Miami bass, quanto um tributo às raízes do ritmo.

“Quando a gente estava conversando sobre de onde a gente vem, eu falei ‘velho é uma coisa que a gente cresceu ouvindo, eu acho que vai dar super certo porque cria uma nostalgia muito grande no ouvinte’”, conta Vhoor sobre a escolha do ritmo para o álbum com FBC.

No início, FBC resistiu ao ritmo, mas mudou de ideia após mostrar De Kenner para um amigo e receber aprovação. “Cheguei no lava a jato, aí eu sempre mostrava as músicas para um menino que trabalha lá. Daí na hora que eu coloquei De Kenner, ele começou a dançar e falou ‘nó Zé, essa musica é doida’, aí eu fiquei olhando assim e falei ‘c*ralho Zé, essa musica é doida mesmo’”.

FBC dançando sua música ‘Delírios’, no terraço de sua casa (Moisés Teodoro/BHAZ)

Raízes do Miami bass

“A nossa referência é o hip hop, porque o Miami bass é um gênero do hip hop. As pessoas falam assim: ‘Ah, é um funk carioca’, porque essa é a referencia que as pessoas têm e conhecem. A nossa referencia é outra, é em si o começo das batidas que foram feitas no começo do hip hop”, detalha FBC.

Antes de lançar o álbum, Fabricio e Vhoor escolheram “Se Tá Solteira”, em parceria com a cantora Mac Julia, e “Delírios”, como músicas de divulgação. “Se Tá Solteira” acabou virando “trend” nas redes sociais, com internautas fazendo vídeos se arrumando ao som da música.

Até a atriz Maisa entrou na brincadeira e gravou um TikTok com a canção. Atualmente, mais de 58 mil vídeos já foram feitos na rede social com a música.

@maisa

pronta para mais um ##Teleton 💜 estarei daqui a pouquinho ao vivo no @sbt ! não percam e doem se puderem, a @aacdoficial precisa de vcs!

♬ Se Tá Solteira – FBC & VHOOR & Mac Júlia

FBC diz que ambos estão “realizados” com o sucesso da música nas redes sociais. “Era para ser isso, e foi”, afirmam aos risos. Disponível em todas as plataformas digitais, “Baile” ganhou vida nesta sexta-feira (12), contando a história de Pagode.

O álbum retrata a década de 90, quando os raps e melôs evidenciavam o cotidiano dos moradores dos subúrbios, abordando temas como a violência e a criminalização de seus jovens. Pagode entra na história como o personagem que frequenta o baile da UFFÉ (união da força e da fé), se apaixona, e vai preso por engano.

Próximas paradas de FBC

Depois de 16 anos experienciando a música de diversas formas, indo dos discos clássicos, até o rock, o funk, as batalhas e por fim as raízes do hip hop; cinco grandes projetos e colaborações com vários artistas, FBC ainda tem na cabeça nomes com os quais desejaria trabalhar em sua carreira.

“Eu queria muito colaborar com o Di Melo, é um músico pernambucano, e também queria muito colaborar com a Nação Zumbi, sou muito fã”, revela. Ao olhar para a cena do hip hop de Belo Horizonte, Fabricio deseja que a inovação seja constante, mas reconhece que ainda falta estrutura:

“Acho que sempre precisa de uma inovação, eu acredito que as grandes referências farão os próximos nomes aparecerem, tá ligado? O problema é a pouca estrutura, é incomparavel com as outras capitais. Eu acho que o que faz a diferença são os lugares onde a pessoa pode se apresentar, e é muito pouco em BH. Mas inovaçao é sempre”, conclui.

FBC. (Moisés Teodoro/BHAZ)
Andreza Mirandaandreza.miranda@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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