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‘Que sentido tem a vida?’: aos 63 anos, pipoqueiro de BH se emociona com filme de Gabriel Martins sobre pressões da juventude

12/08/2026 às 19h07 - Atualizado em 12/08/2026 às 19h08
gabriel martins filme bh
Gabriel Martins à esquerda e Nivaldo José à esquerda (Vinícius Sampaio/BHAZ)

“Me esbarra no sentido da vida. Realiza, faz, faz, cria, cria, cria, cria. E depois?” A inquietação existencial partiu de Nivaldo José, de 63 anos. Formado em ciências exatas e acostumado ao trabalho técnico, ele hoje ganha a vida vendendo pipoca nas ruas de BH e se dedica a captar “ideias” durante o atendimento ao público. Nessa terça-feira (11), entre uma panelada e outra, o pipoqueiro assistiu, pela primeira vez, um trabalho do cineasta mineiro Gabriel Martins no projeto Quinta Arte, promovido como parte das comemorações de 171 anos do Barreiro. Ao final da sessão, ele devolveu a reflexão para o diretor: “Que sentido tem a vida?”

O filme exibido foi o curta-metragem ‘Nada’ (2017), que conta a história de Bia, uma jovem recém-chegada aos 18 anos. Assim como tantos outros, ela sofre forte pressão dos pais e da escola para decidir um curso no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mas decide que não quer fazer nada. Mesmo assistindo poucos trechos da produção, Nivaldo refletiu que obra trata de questionamentos universais sobre a existência, retratando os dilemas enfrentados pela “geração nem-nem”, que não estuda e nem trabalha.

Nivaldo e seu carrinho de pipoca no Quinta Arte (Vinícius Sampaio/BHAZ)

“A vida anda meio sem sentido para muita gente, como a própria Carolina de Jesus que buscou um grande sentido pra vida dela. Era a grande realização dela aquele livro, mas, no final, a vida também ficou meio sem sentido”, refletiu o pipoqueiro.

“Eu achei sentido agora fazendo pipoca. Eu não trabalhava com isso”, completou.

Apesar de ter sido lançado há quase 10 anos, Nivaldo destacou que as reflexões provocadas pelo curta de Gabriel Martins são “muito atuais”. “A arte traz isso pra gente”, comentou.

Novos talentos e a falta de incentivos no audiovisual mineiro

A angústia de Bia na ficção representa o sentimento de centenas de jovens que buscam encontrar um rumo profissional no mercado audiovisual mineiro. Em conversa com o BHAZ, Gabriel Martins, um dos fundadores da produtora Filmes de Plástico, comentou que há espaço no mercado, mas há pouco incentivo para que novos profissionais consigam atuar na área.

“Eu acho que existe espaço para novos talentos do audiovisual mineiro, mas esses espaços eles não vêm sem enormes desafios”, afirmou.

De acordo com ele, Minas Gerais vive uma efervescência na área, com “curso de cinema na PUC, na UNA, na UFMG, pessoas estudando o cinema e querendo fazer cinema, então a gente tem uma mão de obra nascendo e talentos nascendo”, disse. No entanto, essa juventude qualificada encontra um mercado local sem infraestrutura financeira e com baixo incentivo do poder público. “Infelizmente a gente ainda não tem recursos que acho que estejam sendo condizentes com a mão de obra que a gente tem formado por aqui”, comentou.

Apesar disso, o cinema mineiro passa por um bom momento no cenário internacional. Neste ano, pelo menos quatro produções vão representar Minas Gerais em festivais ao redor do mundo. O próprio Gabriel Martins vai estrear ‘Vicentina Pede Desculpas’ no Festival de Toronto; ‘A Professora de Francês’, de Ricardo Alves Júnior, estará no Festival de San Sebastían; e o Festival de Berlim recebeu as estreias de ‘Se Eu Fosse Vivo… Vivia’, de André Novais Oliveira, e ‘Nosso Segredo’, de Grace Passô.

“Do nosso lado, a gente está entregando, mas o que não está rolando são incentivos aqui”, desabafou Gabriel Martins. Durante o bate-papo, o diretor destacou que teve um hiato de seis anos entre as filmagens de ‘Marte Um’ (2018) e ‘Vicentina Pede Desculpas’ (2024), que ocorreu, inclusive, com verbas da plataforma Netflix, e não por editais públicos de fomento.

Conselho para a juventude

Atrás do carrinho de pipoca, Nivaldo também captou com sensibilidade a pressão que o sucesso impõe para os criadores do audiovisual mineiro. Ao ouvir o público comentar sobre as conquistas de Gabriel Martins, o pipoqueiro comentou que muitas vezes o profissional é pressionado a “criar coisas de mais sucesso” ainda, o que pode, justamente, trazer questionamentos sobre o verdadeiro “sentido da vida”.

Para os jovens cineastas que estão começando a carreira e que se paralisam diante da pressa pelo sucesso ou pela frustração de não corresponder às expectativas do mercado, Gabriel Martins deixou um conselho valioso:

“O conselho maior que eu daria é acreditar no seu próprio caminho e no tempo da sua própria história”

O diretor argumentou que o sucesso da Filmes de Plásticos foi “saber se encontrar” dentro da própria realidade geográfica e social na periferia da Grande BH. Gabriel Martins ainda defendeu que a força do cinema mineiro está, principalmente, na “geografia de vales e montanhas” e na verdade que as pessoas e os bairros da Região Metropolitana carregam. Durante a conversa, o cineasta ainda provocou a juventude: “Eu quero ver um jovem, uma jovem, aqui do Barreiro que veja esse espaço, veja a sua história e construa a partir dessa história”, finalizou.

Vinícius Sampaio

Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa. Foi repórter da Fundação Rádio e Televisão Educativa e Cultural de Viçosa (Fratevi). Repórter no BHAZ desde novembro de 2024.
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