Heráclito marcou a era da filosofia pré-socrática ao dizer que ninguém pode entrar duas vezes em um mesmo rio, já que quando nele se entra novamente, não se encontram nem as mesmas águas e nem o mesmo ser. Essa ideia de que os encontros são únicos, transformadores e frutos de milagrosas coincidências ganhou força com o best-selller da mineira Carla Madeira, eleito o “livro do ano de 2023”, em Portugal, na última semana.
Como o próprio nome sugere, “Tudo é Rio” atravessa os leitores como um rio que segue seu próprio curso. É impossível sair daquelas páginas sem se sentir transformado pelo jeito lírico e feroz com que Madeira enxerga a vida, ainda que ela se debruce sobre temas essenciais à experiência humana.
A trama gira em torno da emblemática Lucy, a prostituta mais desejada da cidade, que acaba se apaixonando por Venâncio, o único homem que foi capaz de rejeitá-la na vida. Ele, por sua vez, é um homem com histórico de violência familiar e que tenta superar as sombras do passado para reconquistar o amor de Dalva, sua ex-esposa, que é antagônica a tudo que Lucy representa enquanto mulher.
Em uma história que se desenha a partir da dor dos desencontros, a autora celebra o milagre das coincidências que fazem com que encontremos o verdadeiro sentido da vida. “É preciso uma coincidência qualquer para que o amor se instale. Existe um certo milagre nos encontros. Não é tolo dizer que o amor é sagrado”, analisa a narradora do enredo em um trecho do livro.
O livro soa como um sopro em feridas profundas, que provoca incômodo e alívio ao mesmo tempo, em uma simbiose que nos faz acordar para a volubilidade da vida e das relações humanas. “A vida dá um jeito de manter a gente vivo mesmo quando a gente morre de dor”, lembra a obra.
Ficha técnica
Livro: Tudo é Rio
Autora: Carla Madeira
Editora: Record
Lançamento: 2021
Sinopse:
Maduro, preciso e ao mesmo tempo delicado e poético, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma tragédia, resultado do ciúme doentio do marido, e da chegada de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra em seus caminhos, formando um complexo triângulo amoroso.
Na orelha do livro, Martha Medeiros escreve: “Tudo é rio é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga.”













