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Anel Rodoviário de BH: de obra símbolo do desenvolvimento à via municipalizada

07/10/2024 às 12h46 - Atualizado em 08/10/2025 às 17h06
Acidente no Anel Rodoviário
Caminhão teria causado engavetamento (Reprodução/Redes sociais)

Erguido para tirar caminhões do Centro e costurar as BRs que cortam a capital, o Anel Rodoviário Celso Mello Azevedo nasceu no boom rodoviarista do século XX e virou, com o tempo, uma “rodovia dentro da cidade”, palco de congestionamentos e de uma estatística persistente de acidentes. São quase 30 mil colisões na última década. Em 2025, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) assumiu oficialmente a gestão do corredor — um movimento que promete mudar a lógica de manutenção e fiscalização da via. E no horizonte segue a promessa do Rodoanel Metropolitano, pensado para desviar o tráfego de passagem e aliviar o tráfego de caminhões no Anel.

O Anel começou a ser construído no fim dos anos 1950 e foi inaugurado em 1963 com a missão de desviar o fluxo pesado do perímetro urbano, conectando as BR-040, BR-262 e BR-381. À época, tinha pista simples e recebia um volume de tráfego muito inferior ao atual; décadas depois, foi duplicado, ganhou marginais e se consolidou como principal corredor de travessia metropolitana.

A via facilita a conexão de quem em BH com as cidades de Nova Lima, Contagem, Santa Luzia, Betim e outras, além de facilitar para o motorista que quer sair do Belvedere e ir para o Cidade Nova, por exemplo. Sem o Anel, ele precisaria passar pelas avenidas Nossa Senhora do Carmo, Contorno, Andradas, Silviano Brandão e Cristiano Machado para fazer o percurso. O mesmo vale para outros trajetos na cidade.

No papel, a solução é excelente, mas, na prática, nas últimas décadas, a urbanização sem planejamento permitiu a ocupação do entorno do Anel Rodoviário de BH, o que faz com que o trânsito não seja tão fluído e que os riscos sejam maiores. Afinal, nem só carros e caminhões passam por ele. São centenas de pedestres e de motociclistas cruzando a via.

“A cidade cresceu, ultrapassou os limites do Anel e o Anel passou a ser uma avenida no meio da cidade”, avalia Silvestre Andrade, consultor em transporte e trânsito, e acrescenta: “Isso é um problema sério porque misturou tráfego urbano e rodoviário. Um mais lento, com veículos mais leve, enquanto o outro tende a ser mais rápido, com veículos pesados e outro nível de observação lindeira. Quem anda na cidade olha muito para os lados, tem ocupação o tempo todo, pedestres etc. Na rodovia, o olho é na via em sim, na qualidade do pavimento”.

O paradoxo entre urbano e rodoviário acabou por resultar também na falta de foco no projeto do Anel Rodoviário de BH e, por isso, “algumas articulações com a cidade nunca foram construídas”.

E, para piorar, a lista de problemas do Anel é longa:

  • alguns trechos têm 3 faixas e outros apenas duas
  • vias marginais descontinuadas
  • ocupação irregular de faixas de domínio
  • falta de investimento em manutenção

“O poder público abandonou o Anel. As coisas foram acontecendo sem que ninguém tomasse conta dele. O problema na faixa de domínio é grave. As pessoas moram dentro do Anel”, afirma Silvestre Andrade, que diz esperar soluções a partir da municipalização da via.

Números da tragédia no Anel Rodoviário

O resultado dessa combinação são dados pra lá de negativos. A imprensa da capital mineira reporta os recorrentes acidentes e mortes desde o século passado, mas os números mostram agravamento da situação dado o maior volume de tráfego na via.

Tabela abaixo mostra que em 2015 foram 865 acidentes no Anel, enquanto em 2024 o salto foi para 4.337, cinco vezes mais. E não são só as batidas que aumentaram. A quantidade de pessoas feridas e mortas também se multiplicou. Os números da Sejusp (Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública) mostram que os feridos eram 363 uma década atrás e passaram para 955 no ano passado.

Pela série histórica do governo estadual, em 2024 foram 36 mortes no Anel Rodoviário Celso Mello de Azevedo, recorde pelo menos desde 2015, quando 14 pessoas perderam a vida na via. Em 10 anos, foram 246 mortes.

AnoAcidentesPessoas feridasMortes
201586536314
20161.47862424
20171.82976317
20182.66676821
20193.77596021
20202.91481026
20213.44192931
20223.56299127
20234.0931.05229
20244.33795536

Municipalização do Anel Rodoviário

Nos últimos anos, um tema em pauta na política de Belo Horizonte foi a municipalização do Anel Rodoviário. A proposta foi reforçada pelo candidato à reeleição Fuad Noman e, apesar de sua morte meses após ser eleito prefeito, seu vice, Álvaro Damião manteve a pauta e após idas e vindas a Brasília assumiu a gestão da via em junho de 2025.

Segundo Boletim do Anel divulgado periodicamente pela assessoria de imprensa da Prefeitura de BH, em 3 meses de municipalização, sete quilômetros da via foram recuperados, houve melhoria na sinalização e SLU (Superintendência de Limpeza Urbana) recolheu quase 1.000 toneladas de lixo, ação preventiva para diminuir as inundações no período chuvoso.

Outra novidade é que três novos pontos estão com equipamentos de videomonitoramento constante. Sao três câmeras em cada um deles para auxiliar na gestao da via a partir de uma central de operações da prefeitura. Por exemplo: 302 casos de veículos com problemas mecânicos foram registrados no período e exigiram remoção imediata para evitar gargalos no trânsito.

E a fiscalização vai aumentar. No lançamento do programa Muralha BH, o prefeito Álvaro Damião anunciou que serão instaladas 179 câmeras em 27 pontos do Anel Rodoviário. “Ninguém vai passar pelo Anel sem ser identificado”, afirmou o chefe do executivo municipal. Damião ressaltou ainda que as câmeras vão flagrar motoristas de caminhão que trafegam pela faixa da esquerda e vão multá-los.

Caminhões na mira

Se os números de acidentes e mortes no Anel Rodoviário assustam, os caminhões e as carretas são os principais responsáveis. Isso porque as cenas gravadas por câmeras de emissoras de TV mostrando veículos pesados que perderam o freio arrastando outros carros pela via são chocantes. E não foram poucos os casos vistos por quem mora em BH nas últimas décadas.

Uma das medidas da prefeitura de BH para tentar reduzir esses acidentes graves foi a criação de uma área de escape nos primeiros quilômetros do Anel em 2022. Lá, pouco depois que o caminhoneiro acessa a via, antes da entrada para o bairro Buritis e do perigoso trevo do bairro Betânia, um acesso à direita permite que o caminhoneiro jogue o veículo em uma caixa de concreto com argila expandida, o que aumenta o atrito e reduz a velocidade do caminhão, lógica semelhante a de uma pista de Fórmula 1.

área de escape anel rodoviário de bh
(Divulgação/PBH)

E o Rodoanel? A promessa para tirar tráfego de passagem

O Rodoanel Metropolitano de Belo Horizonte é um projeto concebido para criar um grande contorno — estimado em 100 km — e desviar sobretudo o tráfego pesado que hoje cruza o miolo urbano, e retirando parte dessa pressão do Anel. O contrato do projeto de concessão foi assinado em março de 2023. O empreendimento tem investimentos superiores a R$ 5 bilhões (cerca de R$ 3 bi do Estado, via acordo com a Vale pelo desastre de Brumadinho, e o restante da operadora).

Pedro Rocha Franco

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

Pedro Rocha Franco

Email: [email protected]

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

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