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EXCLUSIVO: Motociclista que socorreu mulher trans espancada na Savassi fala ao BHAZ

25/11/2025 às 17h48 - Atualizado em 25/11/2025 às 18h35
funcionários rei do pastel motoboy
(Reprodução/Redes sociais + BHAZ)

“Não pensei duas vezes: parei a moto e fui ajudá-la”. É este o depoimento de Lauro César Gonçalves Pereira, de 32 anos, motociclista que resgatou Alice Martins Alves, mulher trans de 33 anos espancada na Savassi no final de outubro deste ano. Ele conversou com exclusividade com o BHAZ na tarde desta terça-feira (25).

A mulher só não morreu durante as agressões porque o motoqueiro, que vinha do bairro Serra, na região Centro-Sul de BH, passou pelo local e impediu que as agressões continuassem. Dois funcionários do Rei do Pastel são os principais suspeitos.

Lauro César, que trabalha como motociclista de aplicativo, relembra o que viveu no dia 23 de outubro, quando presenciou a mulher sendo atacada: “Eu lembro que eu estava descendo a Contorno e quando estava passando de moto próximo ao Rei do Pastel eu vi a Alice. Vi ela no chão com dois rapazes em volta dela cometendo as agressões e ela gritando. Não pensei duas vezes: parei a moto e fui ajudá-la”.

A principal linha de investigação da Polícia Civil é de que Alice teria sido atacada por não pagar uma conta de R$22 na lanchonete. “Falei para os caras pararem de agredir ela e eles começaram a me xingar também. Disse que, ao invés de agredir ela, eles deveriam ter chamado a polícia. Qualquer coisa, menos agredir”.

O motociclista lembra que encontrou a vítima já bastante machucada, após ser espancada. Segundo ele, a mulher estava ensanguentada e gritando por ajuda. “Foi o que me motivou ainda mais a parara, porque ela estava indefesa alí. Não tinha ninguém perto para ajudar e os caras estavam acuando e xingando”.

Confira a entrevista na íntegra:

‘A vida dela se foi por nada’

Lauro César lembra que chegou a se oferecer para pagar a conta de Alice: “No primeiro momento, eu me ofereci para pagar, só que eles começaram a ser grosseiro demais. Ele falou que não era da minha conta e aí eu respondi que era, porque tinham machucado bastante a moça”.

Na sequência, o motociclista relata que acolheu a mulher antes de chamarem uma viatura da Polícia Militar, que fazia rondas pela região. Quando a PM se aproximou, os agressores deixaram o local.

Ele recorda os momentos que passou ao lado de Alice após a agressão: “Ela me pedia ajuda, pedia para eu ficar com ela, aí ela foi e me abraçou. Aí eu levei ela até a calçada, sentei ela e tentei acalmar ela, porque ela estava muito abalada”.

Depois de falarem com a polícia, Alice foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento, e Lauro pensou que nunca mais teria contato com a mulher. O quadro mudou quando, semanas depois, ele ficou sabendo da morte de Alice pelo noticiário.

“Eu jamais imaginei. Quando eu vi eu falei ‘não estou acreditando nisso, não’. Depois fui procurar e soube que era a moça que eu ajudei. Fiquei triste para caramba, Eu não sei nem o que falar. A vida dela se foi por nada”, lamenta.

Suspeitos estão em liberdade

Os suspeitos de agredir e matar Alice Martins Alves já foram identificados pela Polícia Civil de Minas Gerais e estão em liberdade. Eles são funcionários de uma pastelaria da Savassi, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Os detalhes do caso foram divulgados pela Polícia Civil na última sexta-feira (14). A PC informou que não vai revelar se fez pedido de prisão dos suspeitos para não atrapalhar a investigação. De acordo com o inquérito, por ora, não há suspeita de terceiros envolvidos no caso.

Segundo testemunhas, Alice foi perseguida pelos dois funcionários ao sair do bar. Quando alcançada, ela teria sido intimidada a pagar a conta.

Os relatos apontam que a mulher chegou a dizer que havia quitado tudo, mas a fala foi feita diante seu estado de embriaguez. Ela não estava completamente lúcida, conforme informações levantadas pelos investigadores.

Logo em seguida, a mulher teria sido agredida violentamente. A sessão de espancamento só terminou com a chegada de um motoboy, que ajudou a socorrê-la. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi chamado por testemunhas.

“Ainda investigamos se eles desferiram essas agressões de forma mais abrupta contra ela por ser uma mulher trans, de uma forma que eles não fariam se ela fosse uma mulher cisgênero”, disse Iara França, delegada responsável pelo caso.

Conforme apurado pelo BHAZ, Alice frequentava os bares da região com frequência. Funcionários da pastelaria contaram que, quando embriagada, ela já se esqueceu da conta e saiu sem pagar outras vezes, mas voltava para quitar o débito.

Mesmo sendo uma pessoa querida e conhecida pelos frequentadores da área boêmia, segundo o delegado, Alice já tinha relatado que sentia preconceito de algumas pessoas dos bares da região.

“Ela era uma pessoa muito tranquila, mais tímida, com família acolhedora e muito presente na vida dela. Ela foi até incentivada pela família a sair para se distrair”, contou a delegada.

O crime

O ataque ocorreu na avenida Getúlio Vargas, na madrugada de 23 de outubro. Segundo o boletim de ocorrência, Alice Martins Alves saía de um bar onde estava com amigos, quando foi agredida por um homem. Outros dois que estavam com o agressor teriam observado a cena e rido da situação.

Segundo a família, após a agressão, Alice foi atendida em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, depois, foi para casa. O pai a encontrou no quarto já com várias lesões pelo corpo e sentindo muitas dores. Devido à gravidade do quadro, ela foi a um hospital particular. O espancamento causou fraturas nas costelas, perfuração intestinal e uma úlcera no estômago da vítima.

A vítima registrou um boletim de ocorrência, no dia 5 de novembro. Nele, ela informou que não conhecia o trio e não houve nenhum tipo de discussão ou atrito antes do espancamento. Alice morreu no último domingo (9), 17 dias após a sessão de espancamento.

“Nesse boletim de ocorrência, ela descreve o autores de certa maneira porque tem medo deles. Ela demorou a relatar para o pai que foi agredida porque ficou com vergonha. Ela sabia que foi agredida por ser uma mulher trans. Diante a vergonha e o medo de não ser acolhida pelas instituições, ela não descreve exatamente como são os funcionários. Também temos que lembrar que ela estava sob efeito de álcool e desmaiou rápido devido às agressões intensas. Chegou a quebrar as costelas dela”, comentou a delegada.

“Parece que ela estava pressentindo que algo ia acontecer. Tinha três meses que ela não estava saindo de casa. Eu falei para ela dar uma volta porque tinha muito tempo que ela estava em casa e acontece isso”, contou Edson Alves, pai de Alice, no velório da filha.

“Será que uma transsexual não tem direito a viver em paz? Agora eu perdi uma grande parceira e amiga. Uma companheira de filme e de tomar uma cervejinha em casa”, desabafou o pai.

Rei do Pastel se pronuncia

O Rei do Pastel usou as redes sociais para se pronunciar a respeito da morte de Alice Alves. Os principais suspeitos são funcionários da pastelaria.

A postagem no perfil da lanchonete esclareceu que a empresa se colocou à disposição das autoridades desde o início das investigações, “auxiliando com todos os dados que nos foram solicitados”, disse o texto.

“Várias versões estão sendo divulgadas na mídia e principalmente nas redes sociais, sem as devidas apurações e efetivas comprovações. Estamos aguardando e confiantes no trabalho sério e eficiente que vem sendo executado pela polícia, com a certeza da correta apuração dos fatos e a devida culpabilidade dos envolvidos”, afirmou a publicação.

Além disso, o Rei do Pastel, por meio da nota, demonstrou solidariedade aos familiares a amigos de Alice. “Destacamos que não compactuamos, em hipótese alguma, com ações discriminatória referente a identidade de gênero, orientação sexual, raça ou qualquer outra natureza”, acrescentou.

Isabella Guasti

Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e repórter do BHAZ desde 2021. Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022 e também de reportagem premiada pelo Sebrae Minas em 2023. Vencedora do prêmio CDL/BH de jornalismo 2024.
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