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José de Abreu grava primeiro curta da carreira em BH: ‘Minha relação com Minas é muito próxima’

22/04/2026 às 14h16
Ator conversou com o BHAZ (Amanda Serrano/BHAZ)

Entre silêncios que dizem mais que qualquer palavra e ausências que atravessam uma vida inteira, um pai e um filho se encaram quando já não há tempo para reconstruir o que nunca existiu de fato. Essa é a premissa do filme “Encontro e Despedida”, gravado em Belo Horizonte e que conta com o ator José de Abreu no elenco. Em conversa com o BHAZ, o artista falou sobre a experiência de participar do primeiro curta da vida dele, em 60 anos de carreira, e sobre a relação com Minas Gerais.

“Nunca fiz um curta na vida, é uma coisa muito engraçada. Tenho 60 anos de carreira e nunca tinha feito um curta na vida, porque ninguém me convida, não sei por quê”, disse em tom humorado. Em contrapartida a ser o seu primeiro curta, o ator possui uma extensa bagagem profissional e de vida. Ele, inclusive, destaca a conexão pessoal que tem com o tema abordado: “essa relação de pai e filho é uma coisa que me interessa muito”, comenta José, que perdeu um filho após ele cair acidentalmente da janela de um prédio no Rio de Janeiro, aos 21 anos.

Diferentemente de Charles, personagem interpretado na peça “A Baleia” — apresentada em Belo Horizonte, em agosto de 2025, no Cine Teatro Brasil Vallourec —, que também possui problemas com a filha, o pai retratado no filme é “muito mais um brasileiro típico”. “Embora os dois falem sobre relações paternais, na peça, o Charles é obrigado pela ex-mulher a se afastar da própria filha. Nesse caso, é totalmente diferente, ele não quer ser pai”. Ele aproveita a deixa para enfatizar um problema ainda muito comum no país: “Esse aqui é muito mais um brasileiro típico. Se não tivessem tantos brasileiros como ele, não haveriam tantas mães solos no Brasil”.

A presença do ‘mineirês’ na vida do ator

Ao falar sobre sua relação com Minas Gerais, o ator citou as duas vezes em que interpretou o mineiro Juscelino Kubitschek e, claro, aproveitou para comentar um tema importante que permeia bastante a sua trajetória: a política. “Eu vim a Minas várias vezes, principalmente em Diamantina, por ter interpretado o Juscelino, que foi um político perseguido e que perdoou golpistas. É por isso, gente, que não se perdoa golpista. Uma vez golpista, sempre golpista”, afirmou.

Além disso, José também nasceu em uma cidade que fica a 40 quilômetros da fronteira com o estado. “Sou de Santa Rita do Passa Quatro, em São Paulo, onde se fala um pouco de ‘mineirês’, esse sotaque mais caipira, então, tenho uma relação muito próxima com Minas”.

Sinopse

O curta é baseado na história real do diretor mineiro Guilherme Araponga, natural de Viçosa, que traz no roteiro uma herança sensível mas visceral sobre a relação dele com o próprio pai. A produção se passa em um hospital e acompanha os últimos dias de vida do pai do diretor. “Apesar de não sentir que tivemos a nossa redenção, essa vivência me deu a chance de ver ele como um ser humano, com todas as falhas, todas as sombras e também luzes que ele tem, e eu quis transmitir essa verdade no filme”.

Tendo passado por uma relação conturbada e de muitas ausências com o pai, Guilherme encontrou no curta a oportunidade de provocar uma reflexão no telespectador. “Quero que as pessoas assistam e ressignifiquem a própria vida e as relações com os pais, ao invés de esperar até o último momento, porque pode ser tarde demais. Tem até um diálogo que fala sobre ‘não deixar para os 45 do segundo tempo’, que é o que aconteceu com a gente. Ficou tarde demais, para ambos os lados”.

O curta tem uma estética “documental” e é em preto e branco, já que a ideia do diretor é dialogar com essas “sombras e luzes” do pai e captar uma história real. Além disso, o diálogo não dito também é algo bastante presente no filme. “Busquei trazer o silêncio, que também é uma forma de dialogar, e porque eu sinto que esses personagens não têm muito o que dizer um ao outro. É um filho chegando no quarto de um hospital, de um pai que está prestes a morrer. E um pai que vê o filho que ele nunca cuidou. É um encontro de muitas mágoas, mas, em dado momento, esse silêncio também se torna um silêncio de alívio, porque a pessoa se foi”, detalha.

Elenco

O elenco do filme ainda conta com os atores mineiros Eda Costa, Luiza Filaretti e Bernardo Filaretti, que interpreta o filho de José de Abreu. “Além de ser um processo artístico muito bonito, que nos traz bastante autoconhecimento, por se tratar de uma história tão sensível, a gente também está entregando um projeto bem legal para o mundo”, declara Bernardo.

Já Luiza interpreta a enfermeira que cuida do pai. A mineira, que tinha uma vida estabelecida em BH, trabalhando como engenheira, largou tudo aos 31 anos para tentar o sonho de ser atriz. À reportagem, ela fala sobre a oportunidade de dar vida a uma profissional tão importante — inclusive presente em sua própria família, já que a irmã também é enfermeira — e sobre os desafios e aprendizados do papel.

“Foi muito desafiador, porque eu fiz uma preparação enorme com enfermeiras mesmo. Fiquei alguns dias no hospital acompanhando o plantão, acompanhando esse cuidado mesmo, como elas têm com os pacientes”, conta.

Sobre voltar para casa com um projeto tão importante, Luiza diz que se orgulhar por ter se dado um voto de confiança. “Não dá pra viver infeliz sem fazer o que ama. Eu precisei tomar coragem e começar de novo. Se ser ator é o que você realmente quer, vá atrás, as portas se abrirão”, conclui.

Amanda Serrano

Com experiência nas principais redações de Minas, como Jornal Estado de Minas e TV Band Minas, além de atuação como assessora política, Amanda Serrano é, atualmente, repórter do Portal BHAZ. Em 2024, fez parte da equipe vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo.
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