Mosquitos Aedes aegypti que passaram pelo processo biológico de introdução da bactéria Wolbachia serão soltos em toda BH. A técnica que tem capacidade reduzida de transmissão de vírus como o da dengue vinha sendo utilizada de forma pontual nas nove regionais da cidade, mas agora deve abranger todo o território do município. A expansão, confirmada ao BHAZ pela Prefeitura de Belo Horizonte, começa nas regiões Norte e Nordeste da cidade e deve chegar em outros pontos até o final do ano. O método levou o cientista mineiro Luciano Moreira a ser reconhecido como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time.
De acordo com o Controle de Zoonose de BH, estudos sobre a eficácia do método foram feitos a partir de 2021 e seguiram até 2024. Os resultados mostram que mais de 60% dos mosquitos capturados nas áreas onde os exemplares foram liberados já estão contaminados pela bactéria. “A gente tem uma redução importante do número de mosquitos com capacidade de transmitirem as doenças”, ressaltou o diretor de Zoonoses, Eduardo Viana.
Ainda de acordo com a PBH, ao mesmo tempo, uma segunda pesquisa epidemiológica, a RCT, começou a ser feita. Neste caso, uma comparação entre a quantidade de casos das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, como a dengue, zika e chikungunya, é feita entre os locais que receberam os wolbitos e os que ainda não foram contemplados com a técnica.
Os resultados destes levantamentos ainda não foram divulgados, mas serão os primeiros realizados no Brasil envolvendo a introdução da Wolbachia. “Nesses quatro anos de pesquisa, a gente foi acompanhando periodicamente o status sorológico daqueles voluntários para perceber, comparando as áreas onde a gente soltou o mosquito com áreas onde a gente não soltou, se teve uma redução significativa [de casos]”, explicou Eduardo Viana.
Sobre a técnica Wolbachia
Nesta técnica, os mosquitos da espécie Aedes aegypti recebem a bactéria Wolbachia, presente naturalmente em diversos insetos ao redor do mundo. Ao ser introduzida nos ovos do mosquito, a bactéria consegue reduzir o desenvolvimento dos vírus da dengue, Zika e chikungunya.
Consequentemente, há uma redução da transmissão dessas doenças. De janeiro a 11 de abril deste ano, o Brasil registrou 227,5 mil casos prováveis de dengue. Número bem abaixo dos 916,4 mil casos registrados no mesmo período de 2025 -uma redução de 75%, de acordo com o Ministério da Saúde.
Em Belo Horizonte, o método Wolbachia começou a ser usado em 2020. Antes disso, em 2016, teve início a implantação de uma biofábrica voltada para a produção dos wolbitos. O processo começou com pesquisas que foram feitas para avaliar a aceitação da técnica por parte da população. Em 2020, Venda Nova foi a primeira regional de BH a receber mosquitos modificados. Depois, na primeira fase de expansão, todas as outras regionais também receberam exemplares, mas em pontos específicos.
Mineiro reconhecido pela técnica
Criador da técnica que usa a bactéria wolbachia nos mosquitos Aedes aegypti, o cientista mineiro Luciano Moreira integra, agora, a lista de 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. Formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), o nome de Luciano está na seção “Inovadores”. No ano passado, ele já tinha sido reconhecido pela revista Nature como uma das 10 pessoas que moldaram a ciência em 2025.
Atualmente, Luciano é presidente da Wolbito do Brasil, empresa criada em parceria com a Fiocruz, o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e o World Mosquito Program (WMP), uma organização sem fins lucrativos com atuação em 14 países. A biofábrica é responsável pela maioria da produção de Aedes aegypti modificado.
O diretor de Zoonoses da PBH, Eduardo Viana, salienta que essa “é uma das ferramentas que a gente utiliza de prevenção, é uma das ferramentas mais modernas. Mas, mesmo com a liberação dos mosquitos com a Wolbachia, todas as estratégias nossas de prevenção que é, principalmente, evitar o acesso do mosquito à água parada e a realização do checklist semanal pra tentar evitar focos do mosquito, devem continuar, porque a gente não consegue distinguir a olho nu qual mosquito que é o wolbito e qual é o mosquito que pode ainda transmitir essas arboviroses”.








