O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) denunciou, por homicídio qualificado, Renê da Silva Nogueira Júnior, o assassino confesso do gari Laudemir de Souza Fernandes. A vítima tinha 44 anos e foi assassinada com um tiro enquanto trabalhava.
Além de homicídio qualificado por motivo fútil, perigo comum e recurso que dificultou a defesa da vítima, o MP também denunciou Renê Júnior por porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, por ameaça contra a motorista do caminhão de coleta de lixo e por tentativa de fraude processual. Somadas, as penas podem chegar a mais de 30 anos de prisão.
Na peça oferecida à Justiça, a promotoria também pediu a fixação de uma indenização no valor de R$ 150 mil reais para a família da vítima, “não afastando a atuação da esfera civil, que poderá, a depender do caso, fixar indenização maior”.
No texto, o Ministério Publico destacou que o assassino confesso de Laudemir agiu com “notório desprezo pelos trabalhadores”.
“Apenas porque, inconformado com a obstrução do tráfego que ali se formara anteriormente e evidenciando o seu notório desprezo pelos trabalhadores que ali exerciam digna e relevante atividade, impelido, destarte, por inequívoco motivo fútil, o acusado interrompeu a sua trajetória, apoderou-se novamente da arma de fogo que ilegalmente trazia consigo, desocupou o automóvel, e, na sequência, efetuou um disparo de arma de fogo na direção de LAUDEMIR DE SOUZA FERNANDES, colhendo-o na região abdominal e ceifando-lhe a vida”, disse a promotoria na peça entregue à Justiça.
Após esse oferecimento de denúncia, o juiz responsável pelo caso decide se aceita ou não a argumentação do Ministério Público. Se a Justiça receber, Renê Júnior se torna réu e tem início a fase de instrução penal, quando o MP – órgão acusador –, os assistentes de acusação e a defesa apresentam provas que consideram devidas. É também nesse ponto que ocorrem audiências para ouvir o réu e as testemunhas indicadas pelas partes.
Por se tratar de um crime doloso contra a vida, com a finalização dessa etapa, o juiz decide se pronuncia ou não o então réu, que poderá ir a júri popular caso a sentença de pronúncia transite em julgado, ou seja, se a decisão for mantida após todos os recursos.
O crime
Renê Junior, de 47 anos, confessou ter matado Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos. O gari foi assassinado com um tiro no abdômen, enquanto trabalhava no bairro Vista Alegre, região Oeste de Belo Horizonte, no dia 11 de agosto de 2025. Ele chegou a ser socorrido e levado para o Hospital Santa Rita, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.
O crime ocorreu durante uma briga de trânsito, na rua Modestina de Souza. Conforme a denúncia do MPM, um caminhão de lixo estava parado na rua, durante a coleta de resíduos, quando Renê Junior exigiu que fosse liberado espaço na via para ele passar com o veículo que dirigia, um BYD cinza.
Irritado, ameaçou a motorista do caminhão com uma arma. Os garis tentaram intervir e pediram que ele se acalmasse. Foi nesse momento que Renê saiu do veículo e disparou contra os funcionários, acertando Laudemir. “E aí ele entrou dentro do carro e foi embora. Não prestou socorro, nem olhou para trás, ele seguiu o caminho dele”, relatou ao BHAZ a motorista do caminhão, Eledias Aparecida.
O denunciado
Renê Junior é marido da delegada Ana Paula Balbino, da Polícia Civil de Minas Gerais. De acordo com o perfil no LinkedIn, ele atuava há 27 anos no setor de alimentos e bebidas. O suspeito já ocupou cargos de lideranças em empresas multinacionais.
Em 2024, Ana Paula chegou a publicar elogios à conduta do marido na rede de perfis profissionais. No post, a delegada afirmou que Renê é um homem “justo, empático e amável”. “Gostaria de falar do homem de caráter irrefutável. Um cidadão que se preocupa com as pessoas que estão sobre sua gestão ou não. Justo, empático, amável e adorado pela família e amigos”, escreveu ela. “Cristão e patriota, é exemplo para muita gente quanto ao quesito superação”, destacou no texto.

O suspeito já tinha registros por violência doméstica e morte por atropelamento. Documentos aos quais o BHAZ teve acesso indicam um histórico de denúncias contra ele em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O registro mais antigo identificado, até o momento, é de 2003. Na época, o empresário foi acusado de lesão corporal em um episódio na casa onde vivia, na cidade de Belford Roxo (RJ).
Já em 2011, uma mulher morreu atropelada por ele, no Recreio dos Bandeirantes, na região Oeste do Rio de Janeiro. Na época, o caso foi classificado como homicídio culposo, ou seja, quando não há intenção de matar.
Prisão
O empresário foi preso após a Polícia Militar identificar a placa do BYD que ele dirigia no momento do crime. Além disso, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) destacou que testemunhas afirmaram ter visto Renê circulando próximo ao local do fato. Segundo a corporação, todas as testemunhas foram unânimes em descrevê-lo de forma consistente, o que permitiu confirmar a autoria do fato.
Renê Junior foi preso quando malhava em uma academia no bairro Estoril, na região Oeste de Belo Horizonte.
Arma utilizada
A arma usada para matar o gari Laudemir de Souza Fernandes, em Belo Horizonte, pertence à delegada Ana Paula Balbino, casada com Renê. Segundo a denúncia do MP, ao ser abordado por policiais, Renê teria enviado mensagens para a esposa, pedindo que ela entregasse outra arma à polícia, na tentativa de burlar a investigação.
Após a prisão de Renê, policiais estiveram na casa do casal e apreenderam as duas armas da delegada Ana Paula, sendo uma de uso pessoal e outra profissional.
Delegada indiciada por Corregedoria
Um mês após a morte de Laudemir, Ana Paula Lamego Balbino foi indiciada por prevaricação, na tarde dessa quinta-feira (11), pela Corregedoria da Polícia Civil. No final de agosto, a delegada já havia sido indiciada por porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, uma vez que a lei proíbe ceder ou emprestar esse tipo de equipamento.
Em nota, a Polícia Civil informou que “concluiu e enviou para a justiça o inquérito policial, que apurou fatos relacionados à morte do gari Laudemir de Souza Fernandes, resultando no indiciamento da servidora em decorrência da suposta prática do crime de prevaricação, previsto no art. 319 do Código Penal”.
Disse ainda que o procedimento administrativo que envolve a delegada tramita na Corregedoria, e que “apura eventual transgressão disciplinar por parte da servidora, no qual são garantidos os direitos à ampla defesa e ao contraditório. Portanto, exige-se um prazo maior para a conclusão”.
Segundo o Código Penal Brasileiro, a prevaricação ocorre quando um funcionário público retarda ou deixa de praticar um ato de ofício indevidamente, ou pratica-o contra a lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. A pena para este tipo de crime é de detenção de três meses a um ano, e multa.
MP oferece acordo para delegada
Na mesma peça em que denuncia Renê Júnior por homicídio qualificado, porte ilegal de arma de fogo, ameaça e tentativa de fraude processual, o Ministério Público ofereceu Acordo de Não Persecução Penal em favor de Ana Paula Balbino. O órgão também sugeriu que o processo contra ela fosse desmembrado, ou seja, separado dos autos referentes aos crimes de Renê.
O Acordo de Não Persecução Penal é uma medida alternativa prevista no Código de Processo Penal para crimes cometidos sem violência ou grave ameaça, com pena mínima inferior a 4 anos.
A medida busca evitar o processo judicial tradicional, que pode ser longo, em troca de o investigado se cumprir condições determinadas para reparar o dano causado.
A prestação de serviços à comunidade e indenização ao ofendido estão entre exigências que podem ser feitas ao investigado.
Esse acordo é firmado pelo Ministério Público e pela defesa, homologado pelo Juiz. Se houver descumprimento de qualquer uma das condições estipuladas no acordo, o Ministério Público oferece denúncia contra a parte.
A vítima
Ao BHAZ, o sobrinho de Laudemir contou que o tio era um homem simples, trabalhador e dedicado à filha de 15 anos. “Ele fazia tudo pela filha e pela família. Mesmo casado, cuidava da mãe, deixava o cartão da empresa com ela para comprar remédios, alimentação”, afirma Pedro Henrique de Souza.
O gari morava no bairro Darcy Ribeiro, em Contagem, na Grande BH, mas visitava a mãe quase todos os dias. “Ele chegava cansado do serviço, mas tinha que passar aqui para ver todo mundo. Era um homem muito bom, que ajudava sempre”, lembrou Pedro.
A motorista Eledias Aparecida Rodrigues, que dirigia o caminhão de lixo no momento do crime, também comentou sobre o colega. À reportagem, ela destacou que Laudemir mantinha boas relações com todos no local de trabalho. “O Lau era uma pessoa maravilhosa, prestativa, fazia um café da manhã pra gente lá na empresa. Ele era uma pessoa muito bacana e que corre pelo bem”.






