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MPMG lança Observatório Lilás para mapear e priorizar casos de violência contra a mulher em MG

11/08/2026 às 13h28
O lançamento contou com a presença de autoridades de segurança. (Lavínia Fernandes/BHAZ)

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) apresentou nesta terça-feira (11) o Observatório Lilás, uma ferramenta criada para ajudar a identificar situações de risco relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher e aos casos de feminicídio no estado. A plataforma reúne informações de diferentes registros e organiza os dados para auxiliar o Ministério Público e as forças de segurança na definição de quais casos precisam de maior atenção.

Na prática, o Observatório Lilás funciona como uma ferramenta de inteligência de dados. Em vez de apenas contabilizar quantas mulheres foram vítimas de violência ou quantos agressores foram registrados, a plataforma cruza essas informações para identificar padrões e situações que podem indicar maior vulnerabilidade ou risco.

A ferramenta reúne dados de registros policiais e informações dos formulários nacionais de avaliação de risco. A partir desse cruzamento, é possível consultar os casos por território, como município, comarca ou região, e também buscar informações relacionadas às vítimas e aos agressores.

O objetivo é ajudar a organizar os casos e orientar a atuação do Ministério Público na prevenção e no enfrentamento da violência contra a mulher.

Como funciona o Observatório Lilás

Segundo Denise Guerzoni, promotora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional aos Promotores de Justiça de Combate à Violência contra a Mulher do MPMG, a ferramenta foi desenvolvida para transformar os dados produzidos pelos registros de violência em informações que possam apoiar ações de proteção.

Um dos recursos do Observatório é a classificação dos casos. A plataforma pode organizar, em ordem decrescente, vítimas e agressores a partir das informações disponíveis nos registros policiais e nos formulários de avaliação de risco. Dessa forma, o Ministério Público consegue identificar quais situações, em tese, apresentam maior vulnerabilidade e precisam ser acompanhadas com prioridade.

A análise não considera apenas a quantidade de registros. O sistema também permite observar informações relacionadas às pessoas envolvidas nos boletins de ocorrência, como vítimas, agressores e testemunhas, além de dados sobre o local e a dinâmica dos fatos. Com isso, a proposta é fazer uma análise qualitativa dos casos, e não somente contabilizar ocorrências.

Outro conjunto de informações utilizado pelo Observatório vem do Formulário Nacional de Avaliação de Risco (FONAR). As respostas dadas no questionário ajudam a identificar fatores que podem indicar diferentes níveis de risco.

Entre as informações consideradas estão, por exemplo:

  • se o suspeito pertence a uma organização criminosa
  • se já utilizou arma branca em algum ataque
  • se faz uso de drogas ou de bebidas alcoólicas de forma imoderada
  • se já tentou autoextermínio ou agrediu outras pessoas

O sistema também considera situações relacionadas à família, como disputas de guarda, processos na Vara de Família e processos de separação.

A reunião dessas informações permite que o Ministério Público tenha um panorama mais completo de cada situação e possa identificar casos classificados, em tese, como de pequeno, médio ou alto risco.

A promotora ressalta, porém, que o Observatório é uma ferramenta de apoio e não substitui a avaliação feita pelo promotor de Justiça responsável pelo caso.

Ferramenta pode acelerar resposta em casos de violência

Uma das possibilidades apontadas pelo MPMG é reunir, de forma mais rápida, diferentes registros relacionados a uma mesma vítima. Isso pode ser importante, por exemplo, quando já existe uma medida protetiva de urgência e ocorre um novo registro de descumprimento.

Segundo Denise Guerzoni, atualmente pode existir um intervalo entre o registro de um novo boletim de ocorrência e a comunicação desse descumprimento no processo em que a medida protetiva foi determinada. Esse período pode aumentar a vulnerabilidade da mulher.

Com a reunião das informações, a ferramenta poderá permitir que os registros relacionados àquela vítima sejam consultados de forma agrupada. Assim, diante de um novo descumprimento de uma medida protetiva, o Ministério Público poderá ter acesso mais rápido à informação e avaliar providências, como o pedido de georreferenciamento ou de prisão cautelar.

A proposta, segundo a promotora, é diminuir o intervalo entre a ocorrência de um novo fato e a resposta do Estado, reunindo informações que antes poderiam estar distribuídas em diferentes registros e processos.

A plataforma também permite analisar os registros relacionados aos suspeitos. A partir das informações policiais e dos dados de avaliação de risco, o sistema pode ajudar a identificar agressores que possuem um histórico de ocorrências e que, por isso, podem demandar acompanhamento.

A ferramenta também permite relacionar diferentes pessoas envolvidas nos registros e compreender a dinâmica dos casos. Dessa forma, o objetivo não é analisar somente a ocorrência de forma isolada, mas considerar o conjunto de informações disponíveis sobre aquela situação.

Nota técnica aborda violência contra mulheres na internet

Além do Observatório Lilás, o MPMG também apresentou uma nota técnica sobre misoginia em ambiente digital. O documento trata do crescimento de manifestações de ódio, discriminação e violência contra mulheres nas plataformas digitais e dos desafios para responsabilizar os autores dessas condutas.

Segundo a promotora, a proposta é ampliar a compreensão sobre a violência de gênero, que não ocorre somente dentro de relações familiares, domésticas ou íntimas. A nota técnica aborda também situações em que a violência acontece em espaços comunitários e no ambiente digital, inclusive quando a vítima não possui qualquer relação de afeto ou familiar com o autor.

O MPMG defende que as medidas protetivas de urgência possam ser aplicadas também nesses casos de violência baseada no gênero. A posição considera as convenções internacionais de proteção aos direitos humanos assinadas pelo Brasil, entre elas a Convenção de Belém do Pará.

A nota também aborda a violência política de gênero. Para o Ministério Público, situações em que uma mulher é constrangida, controlada ou punida por ser mulher devem ser consideradas dentro da proteção contra a violência de gênero.

Melhora no atendimento às mulheres

A atuação baseada nos dados também busca melhorar o atendimento às mulheres que procuram ajuda. Para o MPMG, além da responsabilização do agressor, a vítima precisa ocupar uma posição central no processo.

De acordo com a promotora, as informações reunidas pelo Observatório podem contribuir para o aprimoramento dos protocolos de atendimento e acolhimento. A proposta é que a mulher encontre um ambiente seguro e tranquilo para fazer a denúncia e receber orientação.

O Observatório Lilás, portanto, não funciona apenas como um banco de números sobre violência contra a mulher. A proposta da ferramenta é organizar e cruzar as informações disponíveis para ajudar o Ministério Público a compreender melhor cada situação, identificar casos que podem apresentar maior risco e definir onde a atuação precisa ser priorizada.

Lavínia Fernandes

Jornalista formada pela PUC Minas. Publicou um artigo sobre alfabetização midiática pela Intercom. Foi estagiária de assessoria de comunicação na ALMG. Repórter no BHAZ desde novembro de 2024.
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