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Hospital de BH usa pele de tilápia em cirurgia de reconstrução em mulheres com doença rara

01/12/2021 às 19h26
cirurgia pele tilápia
A técnica cirúrgica utiliza a pele de tilápia para recobrir o canal vaginal em mulheres com síndrome de Rokitansky (Luna Normand/HC-UFMG)

O Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, é o primeiro centro de saúde de Minas Gerais a aplicar uma técnica cearense de cirurgia que utiliza pele de tilápia para reconstruir o canal vaginal de mulheres portadoras de uma doença rara.

O procedimento é feito em mulheres diagnosticadas com síndrome de Rokitansky, que provoca alterações na formação do útero e na vagina, fazendo com que os órgãos se encontrem pouco desenvolvidos ou ausentes.

“Se a mulher não fizer a cirurgia, não tem por onde a menstruação descer quando ela tem útero, não é possível ter relação sexual”, explica a cirurgiã e coordenadora do Setor de Uroginecologia do HC-UFMG/Ebserh, Marilene Vale C. Monteiro.

De acordo com o HC, duas mulheres foram operadas na última sexta-feira (26) e passam bem. Agora, o hospital recruta outras pacientes de Minas Gerais com o mesmo diagnóstico e em tratamento no SUS (Sistema Único de Saúde) para também passarem pelo procedimento. 

Técnica inovadora

A técnica cirúrgica, que ainda está em fase de pesquisa clínica – ou seja, sem uso comercial –, utiliza a pele de tilápia para recobrir o canal vaginal aberto cirurgicamente nessas mulheres. 

A cirurgia clássica, habitualmente utilizada há mais de 20 anos, reconstrói o canal com uso de enxertos de pele da própria paciente ou material sintético. 

Desde 2017, a pele de tilápia tem sido usada com sucesso em mulheres cearenses com a doença. De acordo com especialistas, a técnica apresenta uma série de vantagens.

“A pele da tilápia contém uma grande quantidade de colágeno tipo 1, que a torna tão forte e resistente quanto a pele humana. Além disso, o processo de manufatura da pele de tilápia é rápido e barato”, explica o idealizador da técnica, o professor Leonardo Bezerra, médico na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC/UFC), localizada em Fortaleza, no Ceará.

Outra vantagem defendida pelo médico é o baixo risco de rejeição. Segundo ele, por se tratar de um animal aquático, não existe cruzamento de infecções entre a tilápia e os seres humanos. A situação é diferente com as próteses industriais, que utilizam materiais bovinos e suínos. 

De acordo com o HC, as peles de tilápia chegam ao bloco cirúrgico esterilizadas, embaladas a vácuo e prontas para o uso. Antes, elas passam por um processo que engloba o beneficiamento, a limpeza e a extração e é coordenado pelo Núcleo de Processamento e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará. 

A cirurgia

A cirurgia de reconstrução é considerada de média complexidade e tem duração de aproximadamente uma hora.

“O cirurgião cria um espaço entre a vagina e o reto, forrando-o com a pele de tilápia. Um molde em formato de vagina é então colocado nesse espaço para impedir que as paredes da ‘nova vagina’ se juntem enquanto as células dos tecidos da paciente e as células e fatores de crescimento liberados pela pele de tilápia se transformem em um novo tecido com células iguais à de uma vagina real”, detalha o Hospital das Clínicas. 

Até agora, 25 mulheres já passaram pelo procedimento em todo o país. As duas cirurgias realizadas em Minas fazem parte de um estudo comparativo entre duas abordagens cirúrgicas de reconstrução vaginal, uma delas utilizando a pele de tilápia. 

Com Luna Normand, do HC/UFMG

Editado por: Giovanna Fávero

Sofia Leão

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.
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