TikTok
Youtube
X (Twitter)
Instagram
Facebook
Whatsapp

Perícia encontra lençóis lavados na máquina após capitã da PM ser deixada morta em hospital de BH

21/07/2026 às 12h49
capitã Michelle Leão Azevedo

Um detalhe chamou a atenção dos peritos que vistoriaram o apartamento onde morava a capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) Michelle Leão Azevedo, de 41 anos, morta nessa segunda-feira (20) em Belo Horizonte: as roupas de cama do casal haviam sido retiradas e estavam limpas, ainda molhadas, dentro da máquina de lavar. O achado reforça as suspeitas sobre do marido dela, o 3º sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, também policial militar, preso como principal suspeito do crime.

Chegada ao hospital já sem vida

Durante patrulhamento na região, equipes da PM foram acionadas após a informação de que uma policial militar havia dado entrada no Hospital Odilon Behrens, na região Noroeste da capital, apresentando múltiplas lesões corporais e já em óbito. No local, a equipe médica relatou que a capitã Michelle chegou à unidade por volta das 21h35min de segunda, sem sinais vitais.

Segundo a médica, a avaliação inicial constatou quadro compatível com uma parada cardiorrespiratória instalada havia tempo considerável. A vítima apresentava olhos opacos e múltiplas lesões traumáticas pelo corpo: traumatismo craniano, feridas nos membros inferiores, lesões arredondadas na perna direita, extenso hematoma associado a edema na perna esquerda, diversas lesões lineares compatíveis com marcas de chicoteamento e um ferimento de grandes dimensões na região frontal da cabeça. Diante da gravidade dos achados, a médica acionou imediatamente a Polícia Militar.

Um vídeo de circuito interno do prédio onde o casal morava, no bairro Santa Cruz, região Nordeste de BH, obtido pelo BHAZ, mostra Eduardo carregando o corpo de Michelle, desacordada e debruçada sobre os ombros dele, às 21h16, cerca de vinte minutos antes da chegada ao hospital.

De acordo com a equipe médica, a estimativa era de que o óbito tivesse ocorrido entre quatro e seis horas antes da chegada da vítima à unidade.

Versão do marido: festa, drogas, sexo com “spanking” e queda de escada

Cientificado de seus direitos constitucionais, incluindo o direito ao silêncio, Eduardo declarou, de forma livre e espontânea, que no domingo (19) havia promovido uma confraternização no apartamento do casal, com a presença de vários amigos. Segundo ele, tanto ele quanto Michelle consumiram grande quantidade de bebida alcoólica e comprimidos de ecstasy durante o evento.

Ele relatou que, após a saída dos convidados, por volta das 5h, o casal manteve relações sexuais que, segundo sua versão, eram consensuais e envolviam práticas de dominação e espancamento (“spanking”). Afirmou que esse tipo de prática era habitual no relacionamento, que durava cerca de oito anos, e que os atos daquela madrugada foram registrados em vídeo.

Ainda de acordo com o sargento, por volta do meio-dia Michelle teria perdido o equilíbrio ao descer a escada da residência, caído e sofrido um corte profundo na cabeça, além de lesões na boca, queixando-se em seguida de forte tontura. Ele disse ter prestado socorro, dado banho nela, contido o sangramento e a colocado para descansar na cama. Segundo Eduardo, Michelle permaneceu consciente por um período, mas recusou-se a procurar atendimento médico por sentir-se constrangida com o estado em que se encontrava após o consumo de drogas. Ambos teriam adormecido por volta das 15h, e somente às 21h, ao acordar, ele percebeu que ela não respondia aos estímulos, decidindo então levá-la ao Hospital Odilon Behrens.

Eduardo afirmou ainda que episódios de violência física consensual, incluindo agressões corporais, compressão do pescoço e atos de dominação, eram frequentes na relação, e disse possuir em seu celular vídeos das práticas realizadas no dia dos fatos. Questionado sobre os comprimidos encontrados no hospital, confirmou que havia descartado a caixa de ecstasy na lixeira do banheiro da unidade.

Perícia no apartamento: cabo de madeira e lençóis na máquina de lavar

A perícia esteve também no apartamento do casal. No lixo externo, próximo à saída de emergência do prédio, foi localizado um cabo de madeira quebrado que, segundo avaliação preliminar, pode ter sido usado contra a vítima. O item foi apreendido. Chamou atenção dos investigadores, ainda, o fato de as roupas de cama do casal terem sido retiradas e encontradas limpas e molhadas dentro da máquina de lavar.

O carro usado por Eduardo para levar Michelle ao hospital também foi periciado e segue apreendido, assim como o aparelho celular dele.

Família descreve relacionamento marcado por controle e humilhação

Em depoimento, a mãe da vítima disse considerar abusivo o relacionamento de oito anos entre Michelle e Eduardo, marcado por intenso controle psicológico. Segundo ela, o sargento exercia forte influência sobre a filha, que prontamente atendia às determinações dele.

A mãe relatou que tinha um compromisso agendado com Michelle no dia dos fatos e que, às 10h05, a filha atendeu a uma ligação falando em voz baixa, dizendo apenas que não poderia comparecer ao encontro. Ao longo do dia, enviou diversas mensagens que não foram respondidas. Contou ainda que Eduardo tratava de forma extremamente agressiva Richard, ex-companheiro de Michelle e pai do filho dela, razão pela qual ele preferia deixar a criança com a avó materna em vez de levá-la ao apartamento da vítima.

Ela só passou a suspeitar do consumo de drogas por Michelle depois do início do relacionamento com Eduardo, e acredita que o comportamento decorreu da influência dele. A mãe disse ainda que a filha nunca relatou diretamente sofrer ameaças ou agressões, mas que a irmã de Michelle contou que ela chamava Eduardo de narcisista e tentava encerrar o relacionamento, sem que ele aceitasse a separação, inclusive relatando um episódio em que ele teria empunhado uma faca durante uma discussão.

A mãe também afirmou que o relacionamento foi marcado por sucessivas separações e reconciliações ao longo de sete a oito anos, e que Eduardo frequentemente diminuía Michelle, dizendo que ela deveria se sentir privilegiada por tê-lo ao lado, chamando-a repetidamente de “vagabunda” e submetendo-a a humilhações.

Pedro Rocha Franco

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

Mais lidas do dia

Leia mais

Acompanhe com o BHAZ