Crianças aparecem pintadas de preto em escola e movimentos negros repudiam ‘black face’

colegio adventista gurupi
Escola publicou nota de esclarecimento depois de receber críticas (Reprodução/@colegioadventistagurupi/Instagram)

Crianças de um colégio localizado na cidade de Gurupi, no Tocantins, apareceram pintadas de preto em um evento realizado pela instituição, nessa sexta-feira (19), em comemoração ao Dia da Consciência Negra, lembrado hoje (20). Fotos de alunos brancos com rostos escurecidos e de peruca foram publicadas no Instagram do Colégio Adventista de Gurupi. A prática de pintar pessoas brancas de preto é conhecida como ”black face” e repudiada por movimentos negros.

Ontem, o Colégio Adventista de Gurupi publicou as imagens no Instagram e explicou que a ideia era caracterizar os alunos. Na postagem, a instituição ainda questionou se os internautas gostaram da caracterização. Não demorou para que o post recebesse centenas de críticas.

Fotos foram publicadas no Instagram da escola (Reprodução/@colegioadventistagurupi/Instagram)

“Dia 20 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra. E hoje nossos alunos vieram caracterizados para comemorarmos este dia tão importante e para refletirmos o quanto Deus nos tornou irmãos e que perante Ele, somos todos iguais. Me conta aqui nos comentários se você gostou da caracterização dos nossos alunos”, escreveu a escola na publicação.

Por conta das críticas, o Colégio Adventista apagou a postagem e divulgou uma nota a respeito do caso. A instituição disse que não fez a pintura nos alunos e que também não as estimulou a isso. Para o Colégio Adventista de Gurupi, o objetivo era “valorizar a cultura negra e afrodescendente na escola e fora dela, assim como promover a reflexão e resgate da identidade negra”.

Movimentos negros repudiam black face

A postagem em que as crianças apareceram pintadas de preto, bem como a ação da escola, tornaram-se alvo de repúdio por parte de movimentos negros do Tocantins. O Coletivo Negro de Gurupi disse por meio de nota no Instagram que ”ser negro não é uma fantasia” e que não aceitam ”atitudes que provocam ridicularização e rebaixamento” a pessoas e instituições.

Blackface

Os primeiros registros de blackface datam do século XIX, em Nova Iorque, quando atores brancos pintavam os próprios rostos para encenar negros em peças humorísticas. A mudança física era comumente associada a sotaques e trejeitos exagerados, que ridicularizava pessoas negras para entretenimento dos brancos.

O blackface surgiu porque, na época, pessoas negras não eram autorizadas a subir em palcos e atuar. Até os dias de hoje, atores negros ainda enfrentam dificuldades para conseguir papeis de relevância na indústria audiovisual e a prática se espalhou para outras esferas, reproduzindo estereótipos ofensivos em diversos âmbitos.

Em entrevista anterior ao BHAZ, Humberto Adami, presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, explicou que o caso era muito comum antigamente. “Hoje em dia não se aceita mais esse tipo de situação, a própria sociedade brasileira já se modificou muito e a população negra tem sido muito vigilante. Esse tipo de coisa obviamente evoca uma época onde a população negra sequer tinha a presunção de ser humano, é uma situação vexatória com agravante de racismo”.

Roberth Costa[email protected]

De estagiário a redator, produtor, repórter e, desde 2021, coordenador da equipe de redação do BHAZ. Participou do processo de criação do portal em 2012; são 11 anos de aprendizado contínuo. Formado em Publicidade e Propaganda e aventureiro do ‘DDJ’ (Data Driven Journalism). Junto da equipe acumula 10 premiações por reportagens com o ‘DNA’ do BHAZ.

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