A Polícia Civil de São Paulo identificou oito pessoas envolvidas na emboscada que culminou na morte de um cruzeirense na rodovia Fernão Dias, na altura de Mairiporã, região metropolitana da capital paulista. De acordo com as investigações, os suspeitos têm ligação com a Mancha Verde, torcida organizada do Palmeiras.
Entre os identificados estão ainda três nomes com postos de liderança dentro da torcida organizada. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade).
A emboscada ocorreu na manhã de domingo (27), no km 65 da Rodovia Fernão Dias, no Centro de Mairiporã. Um torcedor do Cruzeiro, de 30 anos, morreu e, outros 17 ficaram feridos, de acordo com o boletim de ocorrência. Policiais Rodoviários Federais foram acionados e, no endereço, encontraram um ônibus incendiado e outro depredado. O Corpo de Bombeiros e equipes de resgate da concessionária socorreram os feridos para hospitais da região.
A perícia da Polícia Civil esteve no local do crime e apreendeu rojões, fogos de artifício e barras de ferro e madeiras. Além disso, imagens de câmeras de segurança estão sendo analisadas para identificar os autores.
O que aconteceu com o ônibus que levava cruzeirenses?
O ônibus que transportava torcedores do Cruzeiro saiu de Curitiba, no Paraná, onde o grupo acompanhou a partida contra o Athletico Paranaense, pelo Campeonato Brasileiro, nesse sábado (26). O veículo tinha como destino Minas Gerais. Por volta das 5h, o coletivo foi interceptado enquanto passava pelo quilômetro 66 da rodovia Fernão Dias, em Mairiporã, na Grande São Paulo.
De acordo com a PRF (Polícia Rodoviária Federal), os criminosos espalharam, na rodovia, pregos conhecidos popularmente como miguelitos, para furar os pneus do ônibus, que, em seguida, foi incendiado. O grupo também usou bombas a rojões caseiros no ataque. Vídeos mostram o grupo disparando uma série de rojões contra o veículo.
Quem são as vítimas do ataque ao ônibus do cruzeiro?
Cruzeirenses foram torturados pelos agressores. Vídeos gravados no local mostram homens caídos pela rodovia, enquanto os criminosos os espancavam com barras de ferro e de madeira. Pelas gravações, também é possível ver vítimas implorando por socorro. Algumas delas estavam ensanguentadas e seminuas. Fotos mostram as camisas dos torcedores celeste sob posse dos agressores.
Até às 13h, a PRF havia identificado 18 feridos no ataque. Um deles, José Victor Miranda, de 30 anos, morreu após ser levado para o hospital. Ele teve ferimentos pelo graves causados pelo incêndio. O cruzeirense morava em Sete Lagoas, a 70 km de Belo Horizonte e fazia parte da torcida organizada Máfia Azul. Ele deixa um filho ainda criança. Um tio e uma irmã da vítima foram para São Paulo providenciar a liberação do corpo.
O balanço da Polícia Rodoviária Federal aponta que 15 pessoas, incluindo José Victor, foram levadas para o Hospital Anjo Gabriel, em Mairiporã. A unidade de saúde ainda não se manifestou sobre o quadro clínico dos pacientes. Outras três foram encaminhadas para o Pronto Socorro de Franco da Rocha. A reportagem tenta contato com o hospital.
Ainda segundo o PRF, dentre os feridos, há um homem baleado no abdômen. Sete pessoas teriam tido traumatismo craniano.
Rixa entre torcidas
O contexto do crime ainda é investigado, mas testemunhas relataram à polícia que suspeitam de possível reação em relação a um confronto entre membros da Mancha Verde do Palmeiras e da Máfia Azul em setembro de 2022, em Carmópolis de Minas, cidade a 125 km de Belo Horizonte. Na ocasião, o presidente da torcida alviverde, Jorge Luis foi espancado. A versão ainda não foi confirmada pelas autoridades.
A PRF estima que cerca de 120 pessoas atuaram no ataque deste domingo. Todas elas fugiram antes da chegada da polícia. Ninguém foi preso até o momento.
Vídeos mostram homens encapuzados e usando capacetes, espancando torcedores. Em uma das gravações, é possível ouvir um agressor anunciar: “é a Mancha Verde do Palmeiras”.
A reportagem tenta contato com as torcidas envolvidas.
Mancha verde nega acusações
A torcida Mancha Alvi Verde, do Palmeiras, supostamente ligada ao caso, negou ter relação com a emboscada. “Com mais de 45.000 associados, nossa torcida não pode ser responsabilizada por ações isoladas de cerca de 50 torcedores, que desrespeitam os princípios de respeito e paz que promovemos e defendemos”, declarou no primeiro comunicado divulgado após a emboscada. Segundo a direção, a torcida “não organizou, participou ou incentivou qualquer ação relacionada a esse incidente”.
O grupo lamentou o episódio e declarou solidariedade às famílias e vítimas. “A Mancha Alvi Verde repudia toda e qualquer forma de violência e reafirma seu comprometimento e compromisso com a segurança e a convivência pacífica entre torcedores. Estamos à disposição das autoridades para colaborar plenamente com as investigações, auxiliando na identificação e punição dos responsáveis por mais esse fatídico e lamentável episódio ocorrido na madrugada desse domingo”, completou.
O que dizem os clubes?
“O Cruzeiro lamenta profundamente mais um episódio de violência entre torcedores, desta vez durante a madrugada, na rodovia Fernão Dias, que culminou com a morte de um cruzeirense e vários feridos. Não há mais espaço para violência no futebol, um esporte que une paixões e multidões. Precisamos dar um basta a esses atos criminosos”, declarou o Cruzeiro.
“A Sociedade Esportiva Palmeiras repudia as cenas de violência protagonizadas na Rodovia Fernão Dias, na manhã deste domingo. O futebol não pode servir como pano de fundo para brigas e mortes. Que os fatos sejam devidamente apurados pelas autoridades competentes e os criminosos, punidos com rigor”, declarou o Palmeiras.
FMF se manifesta
No início da tarde de hoje, a Federação Mineira de Futebol emitiu nota de repúdio ao ataque. “Acreditamos que o futebol deve promover a união, a celebração do esporte e o respeito entre adversários, nunca a violência. Reiteramos nossa esperança por um ambiente de segurança para todos os torcedores, dentro e fora dos estádios, e esperamos que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados” disse a entidade.
“Desejamos boa recuperação para os cerca de 20 feridos e lamentamos profundamente a morte de um torcedor do Cruzeiro. Esperamos que essas cenas de crime e guerra parem de ocorrer no futebol brasileiro”, concluiu a federação.












