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MP vai investigar médica que divulgou informações falsas sobre vacina contra HPV

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Vacina contra HPV
Sete em cada dez casos de câncer de colo de útero são causados pelo HPV (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O MPSP (Ministério Público de São Paulo) instaurou um inquérito para apurar a divulgação, por parte de uma médica, de informações falsas a respeito da vacina contra o vírus HPV e de suas supostas consequências para a saúde das crianças e adolescentes.

O procedimento, aberto pela promotora Luciana Bergamo, vem após representação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) contra a médica Maria Emilia Gadelha Serra, figura notável do movimento antivacina no Brasil.

O inquérito vai investigar um vídeo em que a profissional se diz contra inclusão da vacina contra o HPV (papilomavírus humano) no calendário nacional. Com informações falsas, ela argumenta que o imunizante é “um produto perigoso, que faz exatamente o oposto do que promete”.

A médica associa a vacina à ocorrência de câncer do colo do útero, sem embasamento científico que sustente a declaração.

Representação

A Sociedade Brasileira de Pediatria pediu que a Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de São Paulo instaurasse a investigação “para verificação se as afirmações da representada possuem verdadeiro embasamento científico e se confirmam no mundo real”.

A representação também pede a intimação de Maria Emilia Gadelha Serra, para que a médica apresente provas que justifiquem as suas afirmações, além de retratação dela em suas redes sociais, “apresentando os esclarecimentos devidos aos seus seguidores e toda a sociedade, para que se minimize a suposta desinformação e proliferação de ‘fake news’ por ela provocada”.

Ao MP, a SBP defendeu que “na denúncia enviada não se verifica nenhuma exposição da fonte das informações expostas pela médica denunciada, nem o embasamento científico nas suas afirmações quanto ser a vacina contra o vírus HPV perigosa”.

Inquérito

Ao deliberar sobre o caso, a promotora Luciana Bergamo lembrou que, segundo a Fiocruz, “estudos demonstram que a eficácia da vacina para as lesões intraepiteliais cervicais de alto grau associadas ao HPV 16 é de 96% e para as lesões associadas ao HPV 18 em adolescentes sem contato prévio com HPV é de 90%”.

Ela também reforça que, ainda conforme a fundação, cerca de 80% da população sexualmente ativa deve ser infectada pelo vírus em algum momento de sua vida, e que não existe um tratamento específico contra o HPV.

Por isso, e por meio de outras fundamentações que embasam a importância da vacina, a promotora conclui que é necessário apurar a propagação de notícias falsas em relação ao imunizante e o consequente desestimulo à vacinação, colocando em risco a vida e a saúde de crianças e adolescentes.

“A conduta da investigada, ao suscitar dúvidas quanto à segurança e eficácia da vacina em questão, em nada contribui para a promoção do direito à saúde e à vida das crianças e adolescentes; pelo contrário, fomenta a desconfiança dos pais e responsáveis em relação ao imunizante e seus efeitos, prejudicando a estratégia vacinal, que tem caráter coletivo e protege as meninas e meninos – e os adultos – das graves consequências da infecção pelo vírus HPV, que incluem diversos tipos de câncer”, sustenta.

Luciana Bergamo também ressaltou, na portaria do procedimento, que Maria Emilia Gadelha Serra tem um histórico de propagaçaõ de argumentos contra a vacinação, e inclusive já tramita no MPMG outro inquérito que apura a conduta dela ao divulgar informações falsas sobre a vacina contra a Covid-19.

A médica, agora, tem 30 dias para prestar informações ao órgão, por meio de documentos científicos e outras evidências que fundamentem as suas alegações.

Baixa cobertura vacinal

Sete em cada dez casos de câncer de colo de útero são causados por um vírus contra o qual existe vacina disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde. Esse vírus é o papilomavírus humano, que também causa nove em cada dez casos de câncer de ânus e está relacionado a neoplasias malignas no pênis, vagina, vulva, boca e garganta.

Mesmo com tantas evidências do perigo que representa estar desprotegido contra essa infecção sexualmente transmissível (IST), o Programa Nacional de Imunizações (PNI) constatou queda na proteção do público-alvo dessa vacina no ano passado.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 21 de fevereiro, 87,08% das meninas brasileiras entre 9 e 14 anos de idade receberam a primeira dose da vacina em 2019, e em 2022, a cobertura caiu para 75,81%. Entre os meninos, a cobertura vacinal caiu de 61,55%, em 2019, para 52,16%, em 2022.

Procurado em março para atualizar os dados, o ministério informou que, entre as meninas, a cobertura da vacina contra o HPV, em 2022, alcançou 77,37% na primeira dose, e 58,29%, na segunda dose. Entre os meninos, 56,76% receberam a primeira dose, e apenas 38,39%, a segunda.

Infectologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto I’Dor, José Cerbino Neto explica que poucos dos mais de 100 tipos de HPV são relacionados ao câncer, e os tipos 16 e 18 são os mais perigosos.

Indicada no SUS para adolescentes de 9 a 14 anos e pessoas com situações específicas da saúde, a vacina contra o HPV protege contra esses dois tipos e também contra duas cepas responsáveis por verrugas genitais. Além do público-alvo do PNI, pessoas de até 45 anos podem obter a vacina em clínicas privadas de imunização, segundo autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Se entende que a vacinação nessa população vai ter um maior impacto, porque essas pessoas estarão vacinadas desde antes de iniciar sua vida sexual. Mas para qualquer pessoa não vacinada até 45 anos, há um benefício com a vacinação”, destaca o pesquisador.

“A vacina tem a capacidade de proteger as pessoas da infecção sexualmente transmissível, e, em última análise, protegê-las de um câncer que elas poderiam vir a desenvolver”.

Pessoas que vivem com HIV/aids, transplantados de órgãos sólidos, de medula óssea ou pacientes oncológicos na faixa etária de 9 a 45 anos também podem ser vacinados gratuitamente no SUS, em algum centro de referência de imunobiológicos especiais, com o esquema de três doses.

As estimativas do Ministério da Saúde dão conta de que cerca de metade de todas as mulheres diagnosticadas com câncer do colo de útero têm entre 35 e 55 anos de idade e muitas, provavelmente, foram expostas ao HPV na adolescência ou na faixa dos 20 anos de idade.

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Com Agência Brasil

Sofia Leão

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.

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