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O carro zero km que desvalorizou R$ 892 mil em 6 meses sem sair da garagem

18/07/2026 às 10h17
carro de luxo

Oitocentos e noventa e dois mil reais. É quanto o Rolls-Royce Cullinan Black Badge perdeu em valor entre janeiro e julho de 2026, segundo a Tabela Fipe. Para ter uma ideia do que isso significa na prática: dá para comprar seis Jeep Compass zero quilômetro com essa diferença — e ainda sobra troco. O carro que entrou no ano valendo R$ 8,2 milhões chegou ao meio do ano cotado em R$ 7,3 milhões. Sem ter rodado um quilômetro. Sem nenhum arranhão. Apenas por conta de seis meses de mercado.

O Cullinan Black Badge é o SUV mais caro vendido no Brasil — e provavelmente o mais opulento do mundo. Fabricado à mão na Inglaterra pela Rolls-Royce, ele é movido por um motor de 12 cilindros e 6,7 litros que produz 600 cavalos, suficientes para levar os quase três toneladas do veículo de 0 a 100 km/h em menos de 5 segundos.

O interior do veículo é revestido com couro da mais alta qualidade, madeiras nobres e, dependendo da configuração escolhida pelo cliente, detalhes em ouro ou cristal. A versão Black Badge é a linha mais esportiva da marca — o que, no universo da Rolls-Royce, significa um carro um pouco mais ágil sem abrir mão de um silêncio interno que a empresa mede em décibeis, como se fosse uma sala de concertos.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

A queda de quase R$ 900 mil não diz nada sobre a qualidade do carro. Diz tudo sobre como funciona o mercado de importados de ultraluxo no Brasil. O preço de um Rolls-Royce no país é determinado, antes de qualquer coisa, pelo dólar: o veículo é cotado em libras esterlinas na Inglaterra, convertido para dólares na importação e tributado com alíquotas que chegam a mais de 80% do valor original.

Quando o real se fortalece em relação ao dólar — como aconteceu no primeiro semestre de 2026 — o preço em reais que faz sentido para o importador cai, e a tabela acompanha esse movimento. Em termos percentuais, a queda foi de 10,8% — expressiva para qualquer carro, mas especialmente notável quando se fala de um veículo cujo público-alvo é, literalmente, uma das fatias mais ricas do planeta.

Não à toa, é o carro que mais perdeu valor no Brasil no comparativo entre o primeiro mês do ano e julho, em levantamento feito pelo BHAZ com base nos dados da Tabela Fipe.

Há também um efeito psicológico que pesa nesse segmento. O comprador de um Rolls-Royce no Brasil é alguém com patrimônio suficiente para absorver essa oscilação sem sentir no bolso — mas não é por isso que ele deixa de existir na tabela.

No mercado de ultraluxo, a percepção de valor importa tanto quanto o valor real. Quando o cenário econômico fica incerto, mesmo os mais ricos tendem a adiar compras de alto impacto simbólico, como um carro de R$ 8 milhões. Com menos compradores circulando, os preços cedem — e o Cullinan, por ser o modelo mais caro da lista, absorve a maior queda em termos absolutos. É a matemática cruel do mercado de luxo: quanto mais caro o objeto, mais reais ele perde quando o vento muda de direção.

Pedro Rocha Franco

Pedro Rocha Franco é jornalista desde 2007 e bacharel em ciências sociais. Foi repórter do jornal Estado de Minas, editor do portal O Tempo e head do departamento de jornalismo digital da Itatiaia. Hoje é gerente executivo do BHAZ. Além disso, colaborou com UOL e Repórter Brasil.

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